(Alexsander Ferraz/AT) Com mais de 30 anos de experiência profissional, o arquiteto e urbanista Ricardo Andalaft fala nesta entrevista para A Tribuna sobre as tendências de planejamento urbano para as cidades. Para o especialista, a mudança no modo de vida da população com o avanço das tecnologias e o surgimento de novas possibilidades em termos de mobilidade podem influenciar a organização das cidades que, segundo ele, ainda não estão integradas. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Como a tecnologia ajuda no dia a dia das cidades? Na sua opinião, o que pode melhorar na região e que tipo de investimentos pode ser feito? A tecnologia facilita na avidez dos processos. Os processos que antes eram manuais – de planejamento, controle, informação de dados – eram fragmentados, sem referências padronizadas. (A tecnologia ajuda) para termos esses processos numa mesma formatação, para que possam ser compartilhados com a mesma linguagem, que todos tenham a mesma leitura. Eu vejo que a tecnologia necessita de investimentos de uma forma linear para todos os municípios da região metropolitana e que eles venham numa proposta de integração regional, em que as prefeituras conversem numa mesma linguagem. Os investimentos devem ser feitos dentro dessa meta. Santos recebeu recentemente um prêmio de smart city. O que a cidade tem feito para que isso acontecesse? Há novidades em inovações e legislações? As cidades inteligentes mantêm de forma integrada as suas funções e isso reflete numa melhora na qualidade de vida da população. Essa questão não tem sentido se não for em prol da comunidade. Então nós vemos um diferencial em Santos na busca por ações que tornem a cidade mais efetiva no seu dia a dia. Mas Santos não pode ser uma ilha, pode ser um polo centralizador, mas é importante que haja compartilhamento dessa inteligência, que a gente consiga, através da expertise adquirida aqui, que os outros municípios sejam integrados da mesma forma e com isso a gente tenha um desenvolvimento regional bastante efetivo, com as legislações e inovações trabalhando da mesma forma em todos os municípios. E como isso funciona na prática? Não adianta a cidade ter equipamentos e tecnologia para ser uma cidade inteligente. A população tem que pensar da mesma forma e usar com inteligência esses produtos e a tecnologia adquirida pela cidade. Um exemplo: na Avenida Francisco Glicério, nós temos a programação inteligente dos semáforos para uma velocidade máxima de 50 km/h. Se o trânsito fluir nessa velocidade, nós teremos todos os sinais abertos a partir do primeiro, pois você estará seguindo o fluxo dentro da velocidade permitida para aquela via. No entanto, se você estiver a 80 km/h, sem dúvida o próximo semáforo estará fechado, então não vai conseguir se locomover. Então precisamos entender que não é o semáforo que é inteligente, ele é programado e o motorista tem que usar de inteligência para tirar proveito disso. Quais as tendências do urbanismo para os próximos anos? O que as cidades têm feito? As cidades estão se juntando nas grandes metrópoles, o que chamamos de conurbação, e a tendência do urbanismo é fazer um link de facilitação para que as cidades não sejam mais pequenas ilhas, e sim um aglomerado que consiga se desenvolver dentro da troca entre um município e outro. Existem os núcleos urbanos e uma tendência cada vez maior de expansão das cidades na questão de habitação e retomada dos centros históricos, que estão retornando às suas características habitacionais para trazer vida a esses espaços, principalmente pela desvalorização causada pela degradação e abandono, sendo mais atraentes para as categorias menos favorecidas da população, favorecendo a aquisição de imóveis para essas camadas da população. O VLT está ganhando espaço e se tornando uma opção de mobilidade para a população? O VLT é uma obra que vai trazer qualidade modal muito grande para a população da Baixada. E as construções vão ter que passar por uma série de adaptações para atender essa realidade. É importante que as pessoas tenham em mente a questão positiva que uma obra desse porte traz economicamente e que os espaços urbanos vão crescendo. A sociedade vai mudando, o modo de vida vai mudando, a cidade tem que mudar e a gente tem que se adaptar a essa nova realidade. Eu não vou conseguir estacionar mais o carro na porta da minha casa, mas em compensação talvez eu nem precise de carro mais para ir trabalhar, pego o VLT e não preciso tirar o carro da garagem. Então será menos carro trafegando na cidade e com transporte de qualidade e de baixo custo. Acho isso bem interessante. Qual o impacto do VLT nas construções? Os novos projetos já refletem isso? Eu ainda não vejo os novos projetos particulares da cidade preocupados com a questão do VLT. Temos acompanhado o movimento de projetos de edifícios com grande acúmulo de população e ainda não vemos uma preocupação com a integração do que está sendo feito e das futuras malhas viárias do VLT. As coisas estão correndo um pouco separadas umas das outras. Ainda não vejo integração na elaboração dos projetos de edificações com relação ao uso da infraestrutura urbana criada. Na sua opinião, com o crescimento do e-commerce, ainda é necessário morar perto de pontos comerciais? O e-commerce é uma oportunidade a mais de compra. Muitas pessoas falam que é fim do comércio de porta aberta, mas eu não vejo dessa forma. Tem público para tudo. Tivemos um crescimento enorme (do e-commerce) com o advento da pandemia, que mudou o modo de vida de toda a população e ganhamos algumas formas diferentes de viver, mas ainda existe a necessidade da compra in loco. O comércio tem que se adaptar para concorrer com o e-commerce, e não deixar de existir. Aqui na região, as nossas cidades são pequenas, não são cidades de grande espaço urbano e é interessante que existam núcleos comerciais próximos da população. Mas também que grandes espaços comerciais, como o Centro de Santos, altamente obsoleto, sejam ocupados por moradias. (Nesses centros), há um declínio na quantidade de imóveis comerciais, até por questão de shopping centers e do e-commerce, aí existe uma defasagem da ocupação dos imóveis e tem m crescimento dos imóveis residenciais nos centros da cidade. Os centros de São Vicente e Vicente de Carvalho têm uma forma diferente de se expressar, mas, nas outras cidades, a gente vê que segue mais ou menos essa mesma linha: os antigos centros comerciais dando espaço aos imóveis habitacionais. Mas como está a presença das lojas físicas no planejamento urbano? Elas estão se espalhando por bairros residenciais ou seguirão concentradas em corredores comerciais? Qual a tendência? Em Santos, por exemplo, a gente vê a (Rua) Azevedo Sodré crescendo em quantidade de comércio, a (Rua) Tolentino Filgueiras, a Pedro Lessa, os canais... Várias ruas estão tendo um crescimento muito grande de lojas comerciais. Esses corredores são importantíssimos para o desenvolvimento do comércio e atendimento da população. Então, podemos dizer que isso tem crescido quando falamos de Santos. Em São Vicente, a gente vê (o comércio) irradiando do Centro da cidade, na (Avenida) Frei Gaspar, Antonio Emmerich, a gente vê que está crescendo. Em Praia Grande, a Avenida Presidente Kennedy, que vai se juntando com Mongaguá, Itanhaém... Só vai mudando o nome da rua, mas é um grande corredor comercial. E as lojas físicas estão ocupando esses espaços, até saindo dos shopping centers. É uma tendência bastante grande e as cidades da região estão tirando proveito disso. Na sua opinião, como a inteligência artificial poderá ser utilizada no planejamento das cidades? A inteligência artificial tem um valor enorme para o crescimento das cidades, para a integração dos usos e serviços, para facilidade na obtenção de respostas, na criação de produtos e artifícios que possam melhorar a qualidade de vida em diversos setores, não só no transporte, mas na segurança, no crescimento urbano, (saber) as áreas mais favoráveis ao desenvolvimento comercial, ao tipo de comércio predominando em cada região, em cada via... Tudo isso através da inteligência artificial, a gente faz com que traga resultados mais rápidos ao Poder Público, investidores e para a sociedade. O importante é que todos esses atores usem com inteligência a inteligência artificial, que nada mais é do que produtos tecnológicos trabalhados para facilitar os processos que os seres humanos criaram. Mas, se os seres humanos não entenderem, de uma forma inteligente, como é o uso desses processos, não adianta nada. Não adianta nada ter um semáforo inteligente se eu não usar a via de forma inteligente. Mas de forma racional, eu consigo ter o uso bastante eficaz da inteligência artificial dentro das cidades.