Defender a concorrência ou defender os concorrentes?

Se as gigantes de tecnologia não tivessem avançado, ainda estaríamos utilizando o Windows 3.11 e na aviação o 14 bis.

Por: Maxwell Rodrigues  -  31/08/22  -  09:00
Defender a concorrência ou defender os concorrentes?
Defender a concorrência ou defender os concorrentes?   Foto: Imagem google

Um professor da Harvard Business School em 1979 publicou um artigo apresentando ideias sobre concorrência. Para ele, a concorrência de um setor não se manifesta apenas nos concorrentes, mas também outros atores tensionam as forças do mercado.


Novos entrantes causam agitação no mercado, chegam com força, com novidades para mostrar, com grandes investimentos e o desejo de ganhar participação.


A falta de espaço e capacidade nos portos são uma limitação que resultam em ineficiência e retrocesso. A oferta de novas concessões representa uma ameaça para os que já estão instalados. Nessa antítese entre abrir espaço, gerar desenvolvimento ou perpetuar o modelo ineficiente protecionista criam-se as barreiras de entrada.


A intenção de frear os ânimos de novos participantes faz com que concorrentes se unam nas trincheiras contra o novo inimigo que avança no seu território. Assim, o futuro investidor já sente onde está pisando e o peso do favorecimento ou preferência dada, independente das competências e necessidades de mercado.


Tal como em um jogo de xadrez tanto o rei, a rainha, o bispo e o peão ao final irão para o mesmo lugar: A caixinha que guarda as peças.


Nesse jogo os atores já estão definidos e o final pode ser o crescimento do setor portuário ou a paralisia estrutural econômica. Em qual caixa guardaremos as peças no setor portuário? A do desenvolvimento ou do modelo atual?


Aumentar capacidade de cargas em zona primária beneficia a cidade, o desenvolvimento, os negócios e principalmente os empregos.


O setor brasileiro de companhias aéreas é concentrado em poucas empresas (LATAM, Gol e Azul são as principais), e sofre com a concorrência de empresas estrangeiras. A vertical de contêineres tem essa condição dentro dos portos brasileiros.


A compra de aeronaves modernas e cada vez maiores é uma disputa mundialmente acirrada por todas as companhias. Nesse cenário de rivalidade, as companhias aéreas buscam ao máximo reduzir custos e aumentar o aproveitamento de espaço e assentos com novos aviões.


Agora, imagine a AirBus (fabricante de aviões) tentando vender suas aeronaves e as companhias aéreas prontas para adquiri-las. Nesse momento o governo e as próprias empresas começam a travar uma guerra para que ninguém tenha condição de compra da aeronave ou que a compra seja feita através de regras específicas com o pretexto de que isso irá afetar a concorrência. Uma possível regra criada pelo próprio grupo (governo e empresas) é que ninguém que já tenha aeronave possa comprar aeronave, faz sentido?


Esse pensamento defende a concorrência ou os concorrentes?


Modelo conhecido por muitos, onde o protecionismo e não a concorrência gera dividendos. O resultado dessa fórmula, por exemplo, no setor aeronáutico seria de aeronaves velhas e ultrapassadas apesar do investimento para mantê-las em funcionamento.


No setor portuário o desejo é que se tenham muitas áreas disponíveis (aeroportos), empresas investindo (aviões) para que assim aumente a oferta de espaço (assentos) gerando competitividade sadia e beneficiando o consumidor final. Eliminando gargalos da falta de espaço e da capacidade.


Como na aviação a falta de assentos aumenta o custo e isso se reflete na falta de espaço no porto de Santos?


O nível de concorrência é influenciado por diversos fatores e alguns aumentam essa rivalidade.


No setor portuário temos concorrentes semelhantes em tamanho e potência, um crescimento lento ou nulo da indústria nacional, produtos muito semelhantes e sem diferenciação (contêineres e comodities), custos fixos ou de armazenamento e barreiras de saída elevadas, tempestivas, feudais ou com restrições governamentais.


Pense também, por exemplo, no mercado da Internet das coisas. Competidores como IBM, Google, Amazon , Cisco, Intel, Oracle e Microsoft investem pesadamente em tecnologias de ponta e P&D para criar produtos inovadores. Apesar de serem poucos players, a rivalidade entre eles é grande e gera muita disputa de preço, principalmente porque os produtos têm pouca diferenciação. A competitividade desse mercado é pela criatividade, novos produtos, pesquisa e desenvolvimento e não pela limitação das suas operações ou investimentos.


Se existe área no porto, devemos ocupá-las e nos preocuparmos em disponibilizá-las. Assim defendemos a concorrência pela alta oferta e não pela escassez.


Se as gigantes de tecnologia não tivessem avançado, hoje ainda estaríamos utilizando o Windows 3.11 e na aviação voando com o 14 bis.


No porto quanto mais área disponível melhor, seja quem for que irá ocupá-la. Vamos restringir para proteger concorrentes ou vamos regular para proteger a concorrência? Boa reflexão!


Logo A Tribuna
Newsletter