Apesar de 100% reciclável, o vidro ainda enfrenta entraves logísticos e econômicos no País (AdobeStock) Feito de areia, soda, cal e óxido de alumínio, o vidro comum sugere um outro elemento importante para a sustentabilidade: ampla capacidade de reciclagem. Dados do ano passado indicam que uma em cada três novas garrafas de vidro produzidas no Brasil já utiliza material reciclado. A informação consta em relatório de logística reversa do setor vidreiro brasileiro, divulgado pela Circula Vidro, entidade gestora que organiza e consolida as informações sobre reciclagem e retorno de vidro ao processo produtivo no País. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O vidro é um material integralmente reciclável e pode ser reaproveitado sem limite de vezes. Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta obstáculos estruturais, como a baixa cobertura da coleta seletiva e a falta de engajamento da população, o que mantém os índices de reciclagem abaixo dos cerca de 70% alcançados na Europa. “Ainda procuro entender porque a gente não atinge esse grau de reciclagem do vidro. Hoje, um grande problema é o valor, muito baixo. Por isso, muitas empresas de reciclagem não trabalham com esse material”, afirma Marcelo Adriano, diretor-presidente da ONG Sem Fronteira. Amplo Trabalho Para ele, há muito a se fazer sobre o vidro. “Há quem pense que o vidro é só das garrafas de refrigerantes, mas não. Quantas vidraçarias nós temos na Cidade? Algumas trazem o vidro até nós, outras não. E para onde vai esse material? Direto para o lixo”, lamenta. Adriano conta que, até com certa frequência, vê vidros de para-brisa automotivos nas ruas, deixados por empresas. “É tudo colocado na porta, para o lixeiro levar. Isso tudo vai parar no aterro. Precisamos fortalecer a indústria na questão da reciclagem. Senão, a gente vai continuar usando resíduos, deixando um passivo muito grande de resíduos pras próximas gerações”. Iniciativa Um dos projetos importantes nessa área é o Vidro vira Vidro, iniciativa 100% privada que oferece aos municípios estrutura de logística reversa do vidro, sem nenhum custo e ainda o desonera do custo da coleta, destinação ambientalmente correta e apoio a ações de educação ambiental. “Nosso grande desafio está na conscientização de bares, restaurantes e hotéis para aderirem ao projeto e descartarem adequadamente o vidro, evitando falsificação de bebidas, acidentes perfurantes dos agentes de limpeza, economizando espaço em aterros e até sacos plásticos para descarte”, afirma Juliana Schunck, CEO da Massfix, uma das maiores empresas de reciclagem de cacos de vidro da América Latina. Para ela, o Brasil tem avançado lentamente na reciclagem de vidros. O decreto que regulamenta o setor foi aprovado no final de 2022 e começa a evoluir recentemente - ele divide as responsabilidades pelos entes da cadeia e impõe metas para envasadores, importadores e fabricantes de vidros. “Os investimentos para estruturar a cadeia ainda são irrisórios frente à necessidade do País. Algumas regiões não alcançaram as metas pouco agressivas estipuladas para os primeiros anos. De qualquer forma, os primeiros passos são importantes”, pondera. A executiva lembra que o País não dispõe de uma política fiscal que incentive uso da matéria-prima reciclada, pois os custos tributários na cadeia não geram incentivo para seu consumo. “O desafio da reciclagem de vidro no Brasil está no alto custo logístico da logística reversa, além da falta de estrutura para coleta e descarte. O vidro é um material feito a partir de minerais abundantes no País, de baixo custo. No entanto, a ausência de um modelo estruturado de coleta e de governança para custear esse processo faz com que o custo de coleta e reciclagem do caco de vidro supere o da matéria-prima virgem, tornando seu consumo pouco atrativo”, encerra. Vantagens Juliana Schunck acrescenta que, a cada 1 kg de vidro reciclado, fabrica-se um vidro novo e deixa-se de extrair 1,2 kg de matéria-prima virgem da natureza, economizando água e energia, fomentando economia interna e impactando as cooperativas de catadores. “A economia de CO2 (gás carbônico) com a inserção do vidro reciclado na economia circular é muito relevante: a cada seis toneladas de caco reciclado, reduz-se uma tonelada de emissão de CO2 no processo”. Ganhos Cada 1 kg de vidro reciclado evita a extração de 1,2 kg de matéria-prima virgem; a cada 6 toneladas de caco de vidro reciclado, evita-se a emissão de 1 tonelada de CO2 no processo produtivo