"O Brasil chega a esse momento com ativos estratégicos relevantes, como matriz energética limpa”, diz Marina (Divulgação) A sustentabilidade deixou de ser uma agenda paralela e tem cada vez mais o setor privado como ator do processo de mudança. A análise é de Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que na última semana lançou o Relatório de Tendências 2026, com cinco movimentos para a agenda de sustentabilidade. São eles: capital como condição de execução, informação qualificada como base de decisão, descarbonização como competência operacional, natureza como ativo econômico e cooperação internacional como escala de transformação. Confira a entrevista. As empresas estão preparadas para caminharem nas direções apontadas para a agenda de sustentabilidade? A sustentabilidade deixou de ser uma agenda paralela e passou a integrar a própria arquitetura dos mercados. Cada um dos cinco movimentos apontados como tendência reflete uma transformação estrutural da economia global. O Radar de Tendências não descreve um futuro desejável. Ele mapeia movimentos que já estão em curso. O ambiente econômico global vem mudando rapidamente e numa direção oposta à considerada ideal para a agenda de sustentabilidade. Você considera possível avançar nessa agenda? Sim. O que antes era discurso passou a ser critério de valor, influenciando decisões de investimento, precificação de crédito, organização de cadeias produtivas e acesso a mercados. O cenário global é de fragmentação geopolítica e maior incerteza. Isso gera ruído e, em alguns contextos, questionamentos sobre a agenda. Mas os fundamentos econômicos continuam avançando, independentemente do ruído político. Os riscos físicos associados às mudanças climáticas se intensificam. Os custos da inação se tornam mais evidentes. Investidores globais querem menos promessas e mais evidência: métricas consistentes, materialidade real, resultados mensuráveis. O que esse cenário faz é acelerar uma seleção. As empresas que integraram sustentabilidade à sua estratégia ganharam resiliência e posicionamento competitivo. Aquelas que trataram a agenda como custo de adequação ficam mais expostas. Quando uma frente enfraquece - seja governamental, seja geopolítica -, o setor empresarial organizado e a sociedade civil continuam sendo protagonistas. Na preparação para a COP30, a agenda de sustentabilidade deu passos acelerados no Brasil. Essa velocidade e o maior engajamento do setor privado, e mesmo do público, se mantém? O movimento que observamos vai além do ciclo da COP. A preparação para Belém ajudou a ampliar a mobilização e a reforçar o protagonismo do Brasil na agenda climática global - e isso teve impacto real. Mas o que o Radar de Tendências indica é uma transformação mais estrutural na forma como empresas, investidores e governos passam a enxergar sustentabilidade dentro da economia. (...) Isso não é resultado de um evento único. É amadurecimento acumulado. O Brasil chega a esse momento com ativos estratégicos relevantes, como matriz energética limpa, base florestal, escala produtiva e diversidade territorial. A COP30 consolidou o Brasil como provedor de soluções - em bioeconomia, energia limpa e tecnologias de baixo carbono. Nos cinco movimentos que o relatório aponta, qual você ressaltaria? Em quais as empresas estão caminhando mais rapidamente ou com maior facilidade? A descarbonização é o movimento mais visível neste momento, porque ela já reorganiza cadeias produtivas e decisões de investimento de forma concreta e mensurável. Não é mais compromisso declaratório. É critério de eficiência operacional e posicionamento de mercado. Os dados mostram isso. Um dos movimentos apontados é a cooperação internacional como alavanca. Isso não está muito comprometido no cenário atual? Quais os desafios nesse ponto? A cooperação internacional atravessa, de fato, um momento de reconfiguração significativa. Tensões geopolíticas, disputas comerciais e a fragmentação das cadeias globais de valor pressionam os modelos tradicionais de multilateralismo. Porém, o Global Cooperation Barometer 2026, do Fórum Econômico Mundial, apesar de registrar queda no índice geral de cooperação, revela que clima, capital natural, inovação e tecnologia concentram hoje os vetores mais dinâmicos da cooperação global. O financiamento climático e a transição energética deixaram de ser apenas compromissos multilaterais e passam a funcionar como campos práticos de cooperação entre países, empresas e instituições financeiras. A agenda climática não perdeu força: mudou de liderança.