Hoje, as mudanças climáticas pedem mais do que reduzir as emissões de gases de efeito estufa e fazer uma transição para a economia de baixo carbono (Sílvio Luiz/ AT) Durante muitos anos, a agenda das mudanças climáticas esteve concentrada na redução das emissões de gases de efeito estufa e na transição para uma economia de baixo carbono. Essa agenda continua indispensável e mobiliza nesta semana mais de 75 mil pessoas em Londres para a London Climate Action Week 2026 (LCAW). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mas a realidade impôs um novo desafio. Mitigar as mudanças climáticas não basta. É preciso aprender a conviver com seus impactos e, sobretudo, financiar a adaptação. Os eventos extremos deixaram de representar riscos remotos para se tornarem custos permanentes da economia. Secas prolongadas, enchentes, ondas de calor como a que assola a Europa neste momento, incêndios e tempestades intensas já afetam diretamente a inflação, produção agrícola, infraestrutura, logística e as decisões de política monetária. Os números são eloquentes. Segundo o relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil em 2025, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), os eventos extremos no Brasil provocaram R\$ 3,9 bilhões em prejuízos econômicos apenas no último ano. Mais de 336 mil pessoas foram diretamente afetadas por desastres naturais, enquanto cerca de 2.100 municípios brasileiros apresentam elevada exposição a riscos geo-hidrológicos. Estudo do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF) estima que os eventos climáticos extremos já impõem perdas médias de R\$ 110 bilhões por ano ao PIB brasileiro. Os efeitos também são sentidos pela política monetária. Projeções da GO Associados indicam que o Super El Niño, confirmado pelo National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), pode adicionar até 0,55 ponto percentual (p.p.) ao IPCA em 2026, com impacto de 1,4 p.p. sobre os preços de alimentos em 2027. A consequência é clara: o custo da adaptação é elevado, mas o custo da inação cresce de forma exponencial. A infraestrutura urbana, os sistemas de drenagem, a segurança hídrica, o saneamento e a proteção contra desastres exigem volumes de capital muito superiores à capacidade orçamentária da maioria dos governos. A solução passa, necessariamente, pela mobilização do mercado financeiro e não pode depender exclusivamente do Estado. Igualmente importante é a contribuição da comunidade científica. Merece destaque neste sentido a criação do Centro de Estudos em Riscos Climáticos e Resiliência (FGV-CR²) da FGV, concebido para fornecer a base científica para o estudo do clima e seus impactos sobre a economia e a gestão de risco. Os instrumentos para essa transformação já existem. Mais do que soluções isoladas, compõem uma nova arquitetura financeira para a adaptação climática. Um exemplo neste sentido é a construção de um seguro para municípios para enfrentar secas severas. O mecanismo está baseado em três instrumentos. O primeiro é a água reciclada. O Brasil ainda reutiliza apenas uma pequena parcela desse recurso. Expandir o reúso significa fortalecer a segurança hídrica, reduzindo a vulnerabilidade às secas e às interrupções no abastecimento, reduzir riscos econômicos e o custo de instrumentos financeiros de proteção. O segundo pilar é o seguro paramétrico, que utiliza indicadores objetivos - como volume de chuva ou temperatura - para liberar indenizações automaticamente, acelerando recursos e aumentando a previsibilidade financeira. O terceiro pilar é a securitização. Municípios de pequeno e médio porte enfrentam dificuldades para acessar o mercado de capitais. Ao reunir contratos de seguro paramétrico em uma única estrutura, a securitização amplia a escala dos investimentos e atrai investidores institucionais. Essa integração entre infraestrutura resiliente, reúso de água, seguros e mercado de capitais representa uma evolução da agenda ESG. A questão já não é se o clima está mudando. As evidências mostram que essa transformação está em curso. O verdadeiro desafio passa a ser como financiar a adaptação necessária. Existem mecanismos de mercado capazes de enfrentar o problema sem depender dos favores de Brasília. *colaboração de Túlio Marques e Francielly de Fátima Almeida