(Gage Skidmore from Peoria / AZ / USA / Wikimedia) Quando tomou posse como presidente dos Estados Unidos, no mês passado, Donald Trump trouxe medidas que assustaram o mundo, com recuos significativos em questões que tinham avançado bastante. Muitas delas têm relação direta com a Agenda ESG - ambiental, social e governança. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! Uma das ações mais emblemáticas dessa postura foi a assinatura de uma ordem executiva que revogou políticas de diversidade em órgãos federais, proibindo a implementação de programas de treinamento sobre “justiça” e “privilegiado branco”. A ordem também deu início a investigações sobre empresas privadas que implementavam práticas semelhantes, criando um ambiente de receio entre as corporações em relação a suas iniciativas de inclusão social e igualdade racial. “Essas mudanças indicam um afastamento das práticas ESG que visam promover ambientes corporativos mais inclusivos e sustentáveis. O impacto potencial inclui a redução da diversidade no local de trabalho, o que pode afetar a inovação e a competitividade das empresas, além de possíveis repercussões negativas na reputação corporativa e nas relações com investidores que valorizam critérios ESG”, afirma a cientista social e política com especializações em ESG Camila Diniz de Almeida Barboza. As grandes corporações, influenciadas por essas políticas, começaram a reavaliar seus compromissos com ESG. Empresas como Walmart e Coca-Cola, por exemplo, reduziram ou descontinuaram iniciativas de diversidade e inclusão, ajustando suas políticas de recrutamento e formação para não considerar mais variáveis como raça ou gênero. O movimento de retrocesso não se limitou a esses conglomerados. Trump também pressionou os estados e governos locais a seguirem sua agenda, desestimulando a implementação de regulamentações ambientais e sociais mais rígidas, o que afetou diretamente o esforço coletivo do país em cumprir as metas globais de redução de emissões de carbono. Perda de liderança Além disso, Trump posicionou-se contra iniciativas climáticas e de responsabilidade social, argumentando que os custos desses programas impactavam negativamente a competitividade dos Estados Unidos, principalmente no setor de energia e em indústrias dependentes de combustíveis fósseis. Ele retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris (veja mais detalhes no outro texto), alegando que os compromissos assumidos pelo país prejudicariam os interesses econômicos, especialmente em relação à indústria de petróleo e gás. “Para os Estados Unidos, esse recuo significam uma perda de liderança nas questões globais de sustentabilidade, principalmente em uma época em que os mercados e os consumidores estão cada vez mais exigindo transparência e responsabilidade das empresas em relação a seus impactos sociais e ambientais. O enfraquecimento da agenda ESG pode resultar em uma estagnação na inovação em áreas críticas, como energias renováveis e tecnologias limpas, além de prejudicar a competitividade do país em um mercado global que está cada vez mais em busca de soluções sustentáveis”, argumenta. Saída do Acordo de Paris pode ter implicações A decisão dos Estados Unidos de sair do Acordo de Paris pode ter implicações significativas no cenário internacional, dada a sua influência global, aponta a cientista social e política com especializações em ESG Camila Diniz de Almeida Barboza. O Acordo de Paris é um tratado internacional sobre mudanças climáticas, adotado em 2015. Ele visa limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, exigindo que as nações signatárias estabeleçam metas de redução de emissões e ampliem seus esforços para a transição energética sustentável. “Os Estados Unidos podem minar a credibilidade do pacto, sugerindo que compromissos climáticos podem ser flexibilizados ou até descartados sem grandes repercussões. Como um dos maiores emissores de gases de efeito estufa, a saída dos Estados Unidos pode enfraquecer os esforços globais para combater as mudanças climáticas e criar um efeito dominó, incentivando outros países a reconsiderarem seus compromissos climáticos”, afirma Camila. Essa postura já está refletida em outros países, lembra a especialista. A Argentina, sob a liderança do presidente Javier Milei, está avaliando a possibilidade de deixar o Acordo de Paris. “Países com economias fortemente dependentes de combustíveis fósseis ou que enfrentam desafios econômicos podem se sentir encorajados a seguir o exemplo dos Estados Unidos, especialmente se perceberem que os compromissos climáticos restringem seu crescimento econômico. Países como a Rússia e a Arábia Saudita, historicamente dependentes de combustíveis fósseis, também podem adotar uma abordagem mais flexível em relação à transição energética, influenciados pela postura dos Estados Unidos”, lista. No Brasil, embora o atual governo mantenha um forte compromisso com a agenda ambiental, o cenário pode mudar dependendo das futuras administrações. “Caso um governo mais alinhado aos interesses do agronegócio e da indústria de combustíveis fósseis assuma o poder, há o risco de enfraquecimento das políticas climáticas e de sustentabilidade, o que também poderia comprometer os compromissos com o Acordo de Paris”, argumenta Camila Além disso, a retirada dos Estados Unidos tem o potencial de impactar diretamente o financiamento climático, lembra a cientista social e política. "O país era um dos principais contribuintes do Fundo Verde para o Clima, que auxilia países em desenvolvimento a implementarem políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Sem essa participação, nações menos desenvolvidas podem enfrentar dificuldades para cumprir suas metas ambientais, ampliando desigualdades e agravando os impactos das mudanças climáticas”, explica. De olho na liderança A saída dos Estados Unidos de compromissos ambientais pode abrir novos caminhos para o Brasil, especialmente no que se refere ao fortalecimento da Agenda ESG, afirma a cientista social e política com especializações em ESG Camila Diniz de Almeida Barboza. “Com sua vasta biodiversidade e recursos naturais, o País tem um potencial único para se tornar um líder global em práticas sustentáveis”, justifica. A especialista cita empresas brasileiras, como Natura, Grupo Boticário e Vivo, como exemplos demonstrados de avanços nesses campos. “A Natura lidera o ranking de responsabilidade corporativa no Brasil, destacando-se por suas iniciativas de preservação ambiental e inclusão social. A Vivo (Telefônica Brasil) também reforça suas metas de sustentabilidade com a campanha ‘Futuro Vivo’, que tem Alok como embaixador e a Amazônia como foco central para a conscientização ambiental. A marca também busca ampliar o debate sobre sustentabilidade por meio de esportes, festivais e outras iniciativas, inspirando uma nova relação com o planeta”, detalha. A concentração por parte do Brasil de 15% do potencial global de captura de carbono por meios naturais oferece uma chance única para o desenvolvimento de um mercado de carbono robusto. “A previsão é de que esse setor movimente US\$ 50 bilhões até 2030, colocando o país como líder nesse mercado emergente”, projeta Camila. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei envolvendo o setor em dezembro do ano passado. A realização da COP 30 neste ano em Belém, no Pará, é um marco essencial nesse processo de consolidação do Brasil como líder na agenda ESG, segundo a especialista. “Esta conferência será uma oportunidade única para o Brasil não apenas reforçar seu compromisso com as políticas climáticas globais, mas também demonstrar suas ações concretas em sustentabilidade, sendo um ponto de encontro fundamental para líderes e empresas do mundo todo, amplificando a voz do País no assunto. A COP 30 colocará o Brasil no centro do debate internacional sobre o clima e a sustentabilidade, com a chance de influenciar e definir diretrizes globais de políticas públicas e privadas para as próximas décadas”. Influências Camila, no entanto, salienta que o impacto dessas mudanças será influenciado por fatores culturais, regulatórios e de mercado, que podem mitigar ou amplificar os efeitos observados no cenário norte-americano. “Isso exigirá um compromisso contínuo do governo e do setor privado para garantir que o Brasil não apenas atenda às expectativas globais, mas também aproveite seu potencial único, se tornando uma referência mundial em soluções sustentáveis. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris pode ser vista tanto como um alerta quanto como um convite para o Brasil dar um passo à frente, assumindo a liderança na agenda ESG com uma estratégia abrangente que contemple os aspectos ambientais, sociais e de governança”, afirma.