Levantamento revela avanço no discurso corporativo em torno da agenda ESG (Adobe Stock) Se, por um lado, 88% das empresas brasileiras afirmam que a sustentabilidade ambiental é uma prioridade estratégica, o fato é que apenas 23% delas utilizam a inteligência artificial (IA), um dos motores da revolução tecnológica do século 21, de forma central nas decisões ambientais. O dado é do Global Sustainability Barometer 2025, um estudo conduzido pela multinacional Kyndryl, com recorte específico do Brasil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo o estudo, 50% das organizações brasileiras avançaram ou mantiveram suas metas ambientais – índice superior ao registrado em 2024, quando o percentual era de 43%. Além disso, 92% declaram forte alinhamento entre as áreas de TI e sustentabilidade. Na prática, porém, o uso de tecnologia segue limitado. Apenas 48% afirmam empregar dados ambientais para orientar decisões estratégicas. Para Elaine Coimbra, vice-presidente de comunicação e marketing da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), esse é o principal gargalo da transformação. “Prioridade declarada é confortável. Está no discurso institucional, aparece no relatório ESG, vira meta ampla e genérica, rende slide bonito em reunião de conselho. Só que nada estrutural muda”, afirma a especialista. Para ela, existe uma diferença clara entre empresas que tratam sustentabilidade como obrigação regulatória e aquelas que a incorporam ao modelo de negócio. “Se sustentabilidade não altera alocação de capital, modelo operacional e indicadores de performance, ela ainda está no campo da comunicação”, avalia. Elaine explica que, para mudar esse cenário, é necessário que haja interferência no orçamento, mudança na cadeia de suprimentos, entrada nas metas financeiras e impacto nos bônus executivo das empresas. “Quando a sustentabilidade começa a disputar Capex com outros projetos estratégicos, ela deixa de ser narrativa. Quando influencia como a empresa define risco, custo e retorno, ela vira parte do modelo de negócio”. Fator decisivo A pesquisa aponta que o retorno sobre investimento (ROI) aparece como fator decisivo para que as empresas avancem ou recuem em suas agendas ambientais. De um lado, o incentivo é claro: 57% do mercado já enxerga a redução de custos como benefício imediato das iniciativas ambientais. Do outro, o pragmatismo impera, com 52% dos gestores afirmando que a dificuldade em projetar o retorno financeiro é o maior entrave para acelerar investimentos. Essa hesitação interna, contudo, colide com uma pressão externa, onde 45% das empresas relatam maior cobrança de investidores sobre práticas ESG, enquanto 43% enfrentam critérios de crédito mais rígidos por parte de instituições financeiras. De acordo com Elaine, a solução exige integrar indicadores ambientais diretamente ao Planejamento de Recursos Empresariais (ERP) e aos sistemas financeiros, substituindo o feeling por uma governança de dados robusta. “A IA não funciona no vazio”, resume. A especialista conclui alertando que “quem fizer essa integração vai transformar pressão regulatória em alavanca de crescimento. Quem não fizer continuará com relatórios bem diagramados e pouco impacto estrutural”.