Flávia Cintra fala ao público a partir de uma trajetória de 33 anos como ativista dos direitos das pessoas com deficiência e nas pautas inclusivas (Sílvio Luiz/ AT) Embora pequena, a sigla ESG traz em sua essência enormes esforços para que as empresas e a sociedade se adaptem a um novo mundo que não aceita mais - ou pelo menos deveria - a exclusão de pessoas e o descaso ambiental. Traduzida do inglês Environmental, Social and Governance (em português, ambiental, social e ambiental), a abreviatura corresponde a um conjunto de padrões e boas práticas que deve ser adotado por uma empresa que quer estar bem alinhada a esses três pilares. Essa discussão esteve presente no segundo painel da Agenda ESG. Realizado na última quinta-feira, 19, no auditório do Grupo Tribuna, em Santos, o encontro teve como tema Inovação Social e Sustentabilidade. Sete especialistas estiveram reunidos no debate, mediado pela gerente de Projetos e Relações Institucionais do Grupo Tribuna, Arminda Augusto, e pelo professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador do Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais, economista Gesner Oliveira, que fez a abertura do evento. “Nas três letras da sigla ESG, precisamos ter uma cultura de inovação. É necessário estar inquieto porque, se estivermos satisfeitos com a situação, nada vai acontecer. Devemos querer transformar e melhorar ao enfrentar os desafios, que não são poucos e nem triviais”, colocou. “Afinal, não é fácil manter uma política de sustentabilidade que seja sustentável em todos os aspectos, inclusive financeiro, mas se entendermos os benefícios da diversidade e da diferença das pessoas, se todos forem acolhidos, os desafios serão encarados com mais facilidade”. lupa na incapacidade Para a jornalista Flávia Cintra, repórter do Fantástico (Rede Globo) e fundadora do Instituto Paradigma, o desafio de toda a sociedade é justamente construir um mundo mais inclusivo, acessível e melhor para todos. Presente ao painel, Flávia é tetraplégica desde os 18 anos e se destaca por uma trajetória de 33 anos como ativista dos direitos das pessoas com deficiência e nas pautas relacionadas à inclusão e à diversidade. Em sua fala, ela evidenciou o ciclo de invisibilidade ao qual as pessoas com deficiência são submetidas. “Colocamos a lupa na incapacidade das pessoas com deficiência e esquecemos tudo o que elas podem fazer porque, historicamente, não há acessibilidade a espaços e serviços. Por essa razão, elas não são vistas e a gente se acostumou a pensar que as pessoas com deficiência têm que ficar em casa para serem cuidadas e, assim, esse ciclo de invisibilidade é alimentado”, explica. “Ao não serem vistas, as suas demandas não são reconhecidas como direitos e não incomodam e, sem incomodar, não são prioridade para ninguém. Com isso, não são atendidas”. Presente no mundo Flávia afirmou que, neste século XXI, finalmente esse ciclo foi rompido. “Ele não é mais uma verdade. Ainda falta muito para avançarmos, mas hoje estamos presentes. O mundo mudou e não somos mais invisíveis. É um caminho sem volta e os profissionais e as empresas que não se atualizarem a respeito dessa nova realidade já são vistos como defasados”. Ela explicou que, atualmente, a busca é pelas oportunidades que trazem a deficiência como uma característica possível ao ser humano mas que, em combinação com as demais, faz com que cada um seja único, permitindo que haja profissionais em todas as áreas, a exemplo de jornalistas, atletas, educadores e políticos. “Essa criatividade, essa coragem, essa capacidade de fazer a mesma coisa de outro jeito, de encontrar novas soluções, tudo isso é um desejo de competências coletivas que a gente muitas vezes sente falta no mundo corporativo”. Reconhecidos como pessoas Portador de necessidades especiais, deficientes, portador de deficiência…afinal, que terminologia usar? “A terminologia pessoa com deficiência, que é a usada, surgiu em 2006, durante a construção da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Organização das Nações Unidas (ONU). Então somos nós, pessoas com deficiência do mundo inteiro, declarando que queremos ser chamados por pessoas com deficiência. A razão disso é que, dessa forma, somos reconhecidos como pessoas, antes de tudo, admitindo a deficiência como uma característica que tem que ser considerada também”. Flávia Cintra explica a diferença entre essa terminologia e a de portador de necessidades especiais. “Quando é dito ‘você não tem uma deficiência, é só uma necessidade especial’, a intenção é valorizar a pessoa. Mas, na cabeça dela, ter uma deficiência é uma coisa ruim, que desqualifica e inferioriza. O problema não é ter uma deficiência e sim em quem acredita que ter uma deficiência faz a pessoa menor. Então, a terminologia pessoa com deficiência tem todo esse contexto”, disse. No Brasil, a terminologia virou a sigla PCD, que, de acordo com Flávia, é o contrário do que se queria. “A gente queria ser finalmente reconhecido como uma pessoa, quebrando o ciclo da invisibilidade. Ter essa característica não me faz melhor nem pior, é um jeito de existir no mundo. Só que, se é um aspecto desconsiderado, não dá acesso. Não é errado usar a sigla PCD, mas o problema é só usar a sigla, resumindo a pessoa à ela. Conviver com o diferente Flávia Cintra pondera: “Nós todos perdemos muito da nossa possibilidade de crescimento e de desenvolvimento porque a gente não pôde, quando era criança, conviver com amigos com deficiência. A gente cresceu sem esse repertório emocional e aprendeu que lugar para pessoa com deficiência era naquela escola lá longe. Hoje, a gente ainda acredita que fazer inclusão é um tipo de caridade, é fazer bem para as pessoas com deficiência, porque, afinal de contas, elas merecem”, diz. “Sim, elas merecem, mas o que não nos damos conta é que estamos muito no prejuízo porque a falta dessa convivência tirou da gente todas as possibilidades de pensar fora da caixa, de criar outras maneiras de fazermos as mesmas coisas e de exercitarmos habilidades e competências que hoje nos são cobradas inclusive no mercado de trabalho. Então, esse lema traz a resposta de como resolver alguma questão envolvendo acessibilidade, comportamento e convivência”. Universo amplo Para Flávia, a adoção desse lema pela sociedade demonstra interesse genuíno em fazer com que as pessoas com deficiência se sintam pertencentes. “Até 2007, com o advento da Convenção, a deficiência era apenas uma característica individual entendida quase que como uma doença. A partir da Convenção, a gente entendeu que a deficiência faz parte de um universo muito mais amplo, com maior ou menor impacto na vida da pessoa de acordo com o número de barreiras que ela vai ter que enfrentar”. De acordo com ela, é inaceitável não haver acessibilidade. “Quando não há acesso a lugares e serviços, está sendo dito que a entrada, a participação e a permanência da pessoa naquele espaço não são possíveis, que ela não é bem-vinda. Não dá mais para discutir isso. Mudamos de fase”, afirma. E completa: “a convivência com a diversidade desperta esse desejo nas pessoas e isso já é solução, já é inovação. Esse desejo não é mais relativo à tolerância ou tolerar a diferença, mas sim desejar a oportunidade de crescer e melhorar juntos. Não é caridade, favor, cuidado ou reconhecimento, é um desejo para uma sociedade que não aceita mais a possibilidade de ter espaços e serviços feitos só para outras pessoas”.