O debate, realizado no Grupo Tribuna, aconteceu nesta quarta-feira (16) pelo projeto Agenda ESG (Alexsander Ferraz/AT) Se é uma necessidade atual ter a tecnologia como aliada das boas práticas de ESG, a inteligência artificial (IA) é peça chave nessa engrenagem, oferecendo oportunidades em segmentos como educação, indústria, saneamento e gestão. Mas é preciso atenção a seu uso. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Esse foi o foco do debate realizado nesta quarta-feira (16) pelo projeto Agenda ESG, cujo segundo encontro do ano foi realizado no auditório do Grupo Tribuna, com a presença de especialistas. Para a gerente de Comunicação e Relações Institucionais do Instituto Trata Brasil, Christiane Parreira, a IA acelera a utilização de dados referentes a saneamento, embora a validação seja feita por profissionais. “Se a gente coloca dado ruim, saem respostas igualmente ruins. Por isso, o ser humano é essencial nesse processo”, aponta. Segundo ela, a regulação dos limites do emprego da IA deve buscar um meio-termo entre a forte regulação vista em países da Europa e uma eventual fragilidade no controle. “O Brasil tem a grande oportunidade de conseguir uma solução intermediária”, pontua. A partner business da multinacional de tecnologia da informação e software Zucchetti no Brasil, Natalie Zago, reforça a importância da IA na responsabilidade pela qualidade do dado gerado. “Ela entra para agilizar esse processo, fazer com que alcancemos resultados cada vez melhores e mais rápidos, mas ela não tem a responsabilidade da decisão. A decisão é nossa.” A especialista entende que a IA tem capacidade para também mapear impactos sociais, conectando dados do IBGE a informações sobre mudanças climáticas. “Dentro da plataforma D4Sign, existe um medidor chamado GoPaperless: a quantidade de árvores que não foram desmatadas; de água que nós conseguimos reduzir no consumo em questões de data center; ou evitamos de emissão de CO2”, demonstra. Nos debates, o projeto Agenda ESG tratou das oportunidades da IA em educação, indústria, saneamento e gestão, mas palestrantes alertaram para os cuidados em seu uso (Alexsander Ferraz/AT) Educação A gerente de Plataformas Digitais do Instituto Ayrton Senna, Nittina Bianchi, conta que utiliza uma plataforma chamada Inteligência Artificial para Rede de Aprendizagem (Iara), que é um assistente por WhatsApp no qual educadores podem conversar com ela e tirar dúvidas processuais sobre os programas e relativas a questões pedagógicas. “Há regiões do Brasil em que a conectividade ainda é bem reduzida. Então, isso impacta diretamente. Por isso, é uma preocupação do instituto produzir produtos que vão apoiar a educação, mas adaptados a essa situação”, explica. Enquanto isso, a gerente executiva de Desenvolvimento de Sistemas da Santos Brasil, Adriana Augusto, conta que uma das primeiras medidas foi o letramento dos funcionários sobre inteligência artificial. “A gente começou a desenvolver as nossas IAs, boas para a operação, mesmo porque tem um alto custo envolvido. É preciso saber o que perguntar, em busca de uma forma correta. Porque ela (a IA) pode alucinar”, pontua. Adriana: saber o que perguntar; Christiane Parreira: uso atento (Alexsander Ferraz/AT) Plataforma une ciência e proteção Democratizar a tecnologia de mapeamento do solo no território nacional, incluindo soluções baseadas na natureza para aumentar a resiliência climática. É o que propõe a plataforma Natureza On, lançada no ano passado e que combina ciência, tecnologia e conservação. A iniciativa foi apresentada por André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário. Ele fez uma apresentação de forma on-line sobre o projeto, que indica, para cada cidade, condições como áreas urbanas suscetíveis a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos. Também abrange índice de segurança hídrica. No caso das soluções propostas, também indica quais objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) contemplam. “Ela conta com o conhecimento da nossa fundação e a tecnologia do MapBiomas, uma organização que já tem mais de dez anos atuando no mapeamento de uso do solo em todo o território nacional e usa tecnologia Google Cloud (plataforma de computação em nuvem). Com isso a gente conseguiu juntar expertise de três grandes frentes para atuar nessa temática”, disse. A plataforma pode auxiliar gestores públicos, iniciativa privada, sociedade civil e universidades na tomada de decisões e em planos de prevenção de desastres. No caso do setor privado, por exemplo, que precisa gerenciar riscos e proteger investimento e infraestrutura, usa essa informação para inovar ou para planejar ações. “A plataforma usa imagens de satélite que vão detectar o uso do solo, a cobertura vegetal e áreas de risco. A inteligência artificial é muito importante para identificar padrões”, acrescenta André Ferretti. No caso das universidades, o sistema pode se utilizar de um vasto banco de informações, pois há dados disponíveis entre 1985 e 2024 — com planos para atualização. “A gente consegue olhar para o território no passado, saber se no passado ele estava mais ou menos exposto ao risco.” Efeitos André Ferretti conta que o lançamento ocorreu durante a COP30, em Belém (PA), no ano passado. Por ter menos de um ano de existência, ainda não é possível observar um efeito prático da utilização desses dados em larga escala, por exemplo. Mas há usos importantes. “O próprio Grupo Boticário passou também a utilizar a plataforma Natureza On para reavaliar suas rotas de distribuição e logística.” Natalie: decisões são humanas; Nittina: rede de aprendizagem (Alexsander Ferraz/AT) Utilização e ética: debater e refletir Para o professor da Fundação Getulio Vargas e coordenador do Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais, Gesner Oliveira, o encontro fecha com excelência um ano de bons debates sobre ESG. “O evento traz uma reflexão muito ponderada sobre a inteligência artificial (IA) e como ela, de fato, ajuda. No caso do E (parte ambiental), vimos uma plataforma muito importante. O S (social), traz um impacto, por exemplo, para acessibilidade, como se pode ajudar pessoas com deficiência visual, auditiva, e vários outros mecanismos. E no G (governança, por meio de um monitoramento contínuo e ações antifraude.” Em sua fala, ele recordou, ainda, a necessidade de discussões éticas sobre os limites à IA e o tipo de dados disponibilizados, bem como um movimento ensaiado por big techs para a desaceleração no desenvolvimento da inteligência artificial. A gerente de Projetos e Relações Institucionais do Grupo Tribuna, Arminda Augusto, reforçou a importância de qualificar o debate e mencionou a grande presença de jovens na plateia. “Trazê-los para a discussão é a certeza de que estão em sintonia com o que está acontecendo neste momento da nossa sociedade, não só para conhecimento próprio, mas pelas possibilidades profissionais que se abrem.”