Terceiro encontro da Agenda ESG deu destaque ao eixo G, de governança, associando à responsabilidade das empresas com todo o ESG (Sílvio Luiz/AT) O pilar governança do ESG também foi discutido durante o encontro. “O G talvez seja tudo onde começou porque se não existe uma boa forma de decisão, a empresa tem resultados ruins do ponto de vista da sociedade”, destacou o economista Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador do Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais. Ele e a gerente de Projetos e Relações Institucionais do Grupo Tribuna, Arminda Augusto, foram os mediadores do evento. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Gesner comentou o que considera um aspecto interessante: o capitalismo se desenvolveu no momento em que a democracia liberal cresceu nos países avançados e quando havia uma espécie de ditadura nas empresas. “As decisões eram extremamente centralizadas, e pouco a pouco, a sociedade foi estabelecendo valores, que foram se tornando mais presentes nas corporações”. De acordo com eles, foi assim que as empresas se deram conta de que formas mais democráticas e participativas de decisão, levando também em conta os stakeholders (partes interessadas) eram sustentáveis. “Nos últimos anos, as corporações têm adotado formas de governança mais participativas, interessantes e inovadoras”, completou. Base de todas as ações Também presente ao evento, a mestre em Direito pela FGV/SP, Gabriela Blanchet, reforçou que a governança é a base de tudo. “Se não tem governança global ou corporativa, não há como falar em boas práticas ambientais e sociais. As empresas podem até apresentar ações pontuais - por exemplo, a doação para uma biblioteca - mas é necessário que tenham estratégias de negócios com esse olhar para as questões sociais e ambientais”. Gabriela é coordenadora, no Brasil, do Chapter Zero, iniciativa que faz parte do Climate Governance Initiative (CGI), originado no Fórum Econômico Mundial e representado no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). O objetivo do CGI é mobilizar a alta liderança e os conselhos de administração das empresas a abordarem o desafio da mudança climática em suas organizações. “Boas práticas sociais e ambientais derivam quase que naturalmente de uma governança madura e robusta, com o apoio irrestrito da alta liderança e dos conselhos de administração das empresas”, explicou. “Por outro lado, esse processo é desafiador porque as organizações estão um pouco descoladas do contexto maior, que são as pessoas e o planeta. No entanto, se a gente parar para pensar, as organizações são importantes atores econômicos. São elas que nos vestem, nos transportam e nos alimentam. Temos organizações maiores do que países”. Empresas e países fortes Por essa razão, diz Gabriela, que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que a governança corporativa é o elo: se há empresas fortes a partir de uma governança robusta, os países também são fortes e o desenvolvimento econômico ocorre. “Foi por essa razão que surgiu o Chapter Zero Brasil, uma iniciativa global que nasceu em 2019 para trazer a discussão desse tema da emergência climática para a pauta da alta liderança e conselhos de administração de empresas”, explicou. “Analisando internamente, a partir do olhar da alta liderança, a gente consegue incorporar essas questões ambientais e sociais de forma mais estratégica e a longo prazo, ainda que tenha o enfrentamento das mazelas da sobrevivência no dia a dia”, completou. Política do G gera valor sustentável às empresas Para Gabriela Blanchet, a governança corporativa é a forma como as empresas são dirigidas e monitoradas com o objetivo de gerar um valor sustentável para os acionistas e para todas as outras partes interessadas (aquelas que impactam e são impactadas pela operação). No quesito mudanças climáticas, o Fórum Econômico Mundial desenvolveu um conjunto de Princípios de Governança Climática para a alta direção e conselhos de administração a fim de elevar o nível de consciência e habilidades dos gestores e conselheiros para que as condições climáticas sejam incorporadas na tomada de decisões das empresas. “São oito princípios para uma governança climática mais efetiva nas organizações”, explicou Gabriela. Entre eles, está o que incentiva a integração entre as áreas. “Acabou aquela época em que se dizia ‘eu sou da contabilidade e não preciso saber de sustentabilidade’. Hoje, a palavra de ordem é integração e engajamento. A pessoa da área financeira terá que saber como comunicar as informações relacionadas à sustentabilidade e como divulgar isso em suas demonstrações, além de comprovar a consistência desse trabalho diante dos relatórios de sustentabilidade”. Análise de riscos Outro princípio se aplica à análise de riscos e oportunidades materiais, especialmente quando se fala de riscos emergentes climáticos e ambientais. “Uma nova regulação de mercado está vindo aí pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o primeiro regulador do mundo a incorporar as novas normas de sustentabilidade que foram lançadas internacionalmente à nossa regulação brasileira”. Gabriela avalia que o desafio é grande, mas também aponta que a consciência vem aumentando, embora a passos lentos. Ela apresentou uma pesquisa que mostra esse cenário, realizada junto à alta administração das organizações e divulgada na COP28, em Dubai, no ano passado. Entre os resultados, 55% dos entrevistados responderam entender as implicações das mudanças climáticas, porém 47,6% não as levam em consideração em suas discussões; 36,4% indicam que a questão climática não está incorporada na avaliação de riscos e oportunidades e na estratégia central dos negócios, e 48,6% apontaram que não analisam a estratégia dos negócios considerando ao menos dois cenários de mudanças climáticas “Portanto, a mudança climática ainda não é um tema incorporado no dia a dia das empresas brasileiras. O desafio é grande, mas aos poucos a gente chega lá”, pondera. Atitudes pessoais geram adesão coletiva e mudança Para Marcio Cristiano, da Santos Brasil, além de olhar para o planeta e para as empresas, é preciso também prestar atenção ao CPF, ou seja, às próprias atitudes quanto à forma que tratamos nosso ambiente e os recursos naturais. “Precisamos ter convicção e engajamento do que fazemos. A gente pode convencer uma pessoa, duas pessoas, do nosso entorno da importância dos pilares ambiental, social e de governança, ao explicar que não se trata de uma moda e demonstrando por meio das nossas próprias ações do dia a dia, que podem ser pequenas, mas já ajudam muito”. Gabriela Blanchet concorda: “o CPF é muito importante, sim. Precisamos ter consciência do nosso poder. Podemos mudar o produto de uma empresa que não é sustentável e escolher na gôndola do supermercado uma embalagem mais fácil de ser reciclada. A ação começa com a gente, em casa, na escola, no trabalho e em tudo que fazemos”. Sair da inércia Para Jaime Garfinkel, devemos refletir sobre o que podemos fazer e…fazer. “Por exemplo, desde 2013, desde aquela crise hídrica, eu tenho um balde dentro do chuveiro para poder reutilizar a água para lavar o banheiro. Podemos fazer o que está ao nosso alcance”. “A resposta passa por cada um de nós. Não existe uma ação, desde que ela seja sustentável, que seja melhor do que a outra. Podemos contribuir com nosso comportamento e poder de escolha, além de mudar um mecanismo da nossa sociedade ao sermos menos competitivos e mais cooperativos”, finalizou o professor Ronaldo Christofoletti.