[[legacy_image_299373]] A adoção de fontes limpas de energia pode significar uma grande oportunidade para um mundo melhor e para bons negócios, apesar dos desafios dessa transição serem significativos, mas não intransponíveis. Esse debate foi apresentado durante o encontro da Agenda ESG do Grupo Tribuna, promovido na última terça-feira, reunindo especialistas de diferentes áreas no auditório do jornal. O encontro contou com dois painéis e integrou a segunda edição da Agenda ESG, sigla que congrega três vertentes de um movimento que ganha cada vez mais adesão pelas empresas, pelo poder público e pela sociedade civil. A abreviatura vem do inglês Environmental, Social e Governance (Ambiental, Social e Governança). Meio AmbienteEsse primeiro encontro teve como eixo o meio ambiente e apresentou o tema Mudanças climáticas e transição para uma economia limpa, discutindo principalmente o potencial dos biocombustíveis de energia renovável como alternativa ao uso de combustíveis fósseis. Ao serem queimados, os combustíveis fósseis liberam dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa (GEE), que retêm o calor na nossa atmosfera, causando o aquecimento global e as alterações climáticas. “Uma janela de oportunidades se abre para a América Latina e, especialmente, para o Brasil em decorrência do momento que vivemos”, analisa o professor da FGV e sócio-fundador da GO Associados, Gesner Oliveira, que mediou o encontro ao lado da jornalista Arminda Augusto, diretora de Projetos do Grupo Tribuna. Ele se refere especialmente ao atual capitalismo de stakeholders, um conceito que situa as empresas não apenas como otimizadoras de lucros de curto prazo para os acionistas, mas que também considera as necessidades de todas as partes interessadas: os acionistas, os governantes, os consumidores, os colaboradores, os fornecedores e a comunidade de forma geral. “As empresas estão sedentas por grandes oportunidades que combinem infraestrutura e economia verde”, explica Gesner. Energia limpaA fala de Oliveira é reforçada pelo pesquisador do Centro de Economia da Infraestrutura e Soluções Ambientais da Escola de Administração da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Artur Villela Ferreira, presente à discussão do primeiro painel do encontro, que teve como tema Combustíveis verdes e seu impacto na cadeia produtiva das empresas. “Pela posição que ocupa, o Brasil tem todas as condições para se tornar líder dessa transição energética para o uso de energia limpa, com grande potencial de produção de biocombustíveis”, diz, referindo-se às condições privilegiadas de áreas, clima tropical, solo e regime de chuvas do País, entre outros fatores. O escritor Ricardo Esturaro, autor do livro Consumo verde - a construção de um mercado de massa sustentável e participante do primeiro painel, corrobora as palavras de Ferreira. “Nossa matriz energética é quase 85% renovável, sendo representada em grande parte pelas hidrelétricas. Esse é um grande diferencial do nosso país quando comparamos aos titãs Estados Unidos, China e Europa”, comenta. De acordo com ele, o hidrogênio verde é a “bola da vez” quando o assunto é energia limpa e o Brasil precisa correr para ter a chance de fazer a economia crescer e de atrair dinheiro. “Temos condições para isso. Uma cidade como Santos, por exemplo, tem a capacidade de desenvolver novos negócios baseados nessa economia limpa. O assunto sustentabilidade precisa ser reconhecido como uma variável econômica e, se isso for entendido, vamos correr atrás para fazer dar certo”. [[legacy_image_299374]] Hidrogênio verdeDe acordo com o escritor Ricardo Esturaro, a ciência já explicou muito bem que o aumento dos gases de efeito estufa gerados pelas energias fósseis é a causa do aquecimento global e dos eventos de extremos climáticos. “Tudo isso está bem documentado e também já sabemos que o remédio é a descarbonização. Por outro lado, isso é complicado”. Esturaro faz uma comparação: “aplicar esse remédio equivale a pegar um carro que está funcionando e trocar o motor dele enquanto ainda está em movimento. Portanto, por maior que seja a boa vontade do setor privado, não dá para mudar todo o processo sem saber se ele vai dar certo”. Essa questão é ilustrada pela gerente de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade da Santos Brasil, Bèatrice de Toledo Dupuy, ao comentar sobre o hidrogênio verde. “Essa é uma nova fonte de energia e todos estão de olho, mas ainda está longe de se apresentar como uma solução viável para o business”, diz. Ela pondera que, para o hidrogênio se tornar realidade no Brasil, são necessários quatro eixos: pesquisa e desenvolvimento, mão de obra qualificada, investimentos e uma política reguladora. “Sem entender de forma mais aprofundada questões como armazenamento e impactos, não dá para responder efetivamente se é uma solução. Além disso, temos poucas pessoas que entendem realmente do que se trata. A Alemanha, por exemplo, trabalha há muito tempo com isso. Então, precisamos mandar o pessoal fazer doutorado lá fora e participar de projetos de hidrogênio já viabilizados”. Vácuo legalA ausência de leis que regulem o mercado brasileiro de hidrogênio também é outro entrave para a utilização efetiva desse combustível sustentável, na opinião da executiva. Ela também explica que a tecnologia usada pela Santos Brasil não é nacional. “Não temos tecnologia para RTGs movidos a hidrogênio, por exemplo. Em paralelo, como empresa, temos que pagar os funcionários e fazer nossa operação funcionar e gerar lucro, além de pagar investidores. Precisamos fazer esse sistema funcionar, sempre pensando no meio ambiente e na sustentabilidade, além de trabalhar junto com fornecedores e clientes. É de fato um grande desafio”. DesmatamentoOutro desafio, este pontuado pelo pesquisador Artur Villela, é como tornar a economia capaz de atender essa demanda por fontes energéticas limpas. De acordo com ele, um dos principais desafios a ser resolvido é o desmatamento ilegal. “Esse é o calcanhar de Aquiles para toda nossa bioeconomia. Sem solucionar isso, teremos problemas, já que para ser um líder global precisamos de acesso a mercados mundiais porque não vamos produzir apenas internamente. Precisamos alcançar mercados com mais capitais porque são eles que vão pagar essa conta da transição energética”, explica. “Precisamos construir uma marca de País que não desmata e, ainda, sustentar a legalidade de todo esse processo”. [[legacy_image_299375]] CarbonoO segundo painel dessa edição da Agenda ESG teve como tema Mercado de carbono, cenário brasileiro e internacional e foi aberto pela gerente de Business Development da consultoria WayCarbon, Ana Carolina Oliveira. “O mercado de carbono é importante nessa transição em busca de economia mais limpa e surgiu da necessidade de viabilizar projetos economicamente mais caros”, conta. “A ideia do crédito de carbono, ou seja, de dar preço ao carbono, é fazer com que iniciativas tecnológicas custosas tornem-se mais viáveis financeiramente e se sustentem, trazendo um benefício para toda a sociedade”. Ela diz que o Brasil tem potencial imenso nesse setor, que precisa ser explorado. Por outro lado, a adesão a esse mercado ainda é voluntária porque não há a regulação do setor. “A boa notícia é que ela está em tramitação no Senado. Além disso, esta semana, a secretária nacional de Mudança do Clima, Ana Toni, anunciou que todos os setores, inclusive o de agronegócios, serão contemplados nessa regulação. Agora, só nos falta saber como isso ocorrerá”. O potencial desse mercado pode ser medido em valores. De acordo com o superintendente de Sustentabilidade da B3, Cesar Tarabay, presente na discussão, o mercado de carbono deve chegar neste ano a 1 trilhão de dólares, indicando uma tendência cada vez maior de investimentos na área. BTPA Brasil Terminal Portuário está de olho nesse setor, conforme explicou o gerente de Meio Ambiente, Saúde e Segurança do Trabalho da empresa, Renato Ferreira da Silva, um dos painelistas. “Uma das nossas ambições é descarbonizar nosso setor e estamos trabalhando em nosso plano de transição energética”, afirma. “Vamos reduzir nossas emissões de CO2 e, na sequência, analisar o mercado de crédito de carbono, mas dependemos da sua regulação para basear nossas decisões”. TerracomO diretor de operações da Terracom, Antônio de Mello Neto, que também participou do segundo painel, evidenciou que a empresa é credenciada e certificada pela ONU para a venda de créditos de carbono desde 2008. A Terracom também estuda uma nova tecnologia, a biometanização, que, de forma geral, comercializa o metano como combustível. Esse gás também é um dos geradores do efeito estufa e está presente nos aterros sanitários, já que nesses locais a matéria orgânica existente na massa de resíduos descartados se decompõe e produz uma quantidade significativa de chorume e biogás, rico em metano. “Tinhamos que transportar chorume para estações de tratamento em São Paulo. Para evitar isso, desenvolvemos um sistema de tratamento próprio, evitando assim a emissão de co2”. Já a emissão desse gás pelos caminhões coletores de resíduo é uma equação mais complexa. Neto explica que esses veículos não apresentam um módulo compatível com o abastecimento de energia elétrica. “Por outro lado, a China vem desenvolvendo um modelo que possivelmente possa atender essa demanda”, diz. [[legacy_image_299376]] Óleo de palmaO primeiro painel do encontro teve a presença do CEO do Grupo BBF (Brasil BioFuels), Milton Steagall. O Grupo BBF é o maior produtor de óleo de palma da América Latina e foi criado em 2008 com o objetivo de descarbonizar a Floresta Amazônica e mudar a matriz energética do norte do Brasil, que ainda conta em parte com termoelétricas. Essas usinas, movidas por óleo diesel, são emissoras de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases do efeito estufa. “No início dos anos 2000, a região amazônica tinha 263 térmicas abastecidas por óleo diesel. O mais interessante disso tudo é que, para algumas dessas unidades, se gastava de dois a três litros de diesel no transporte para a produção de um litro de diesel na geração térmica. Foi nesse intuito que o óleo de palma surgiu”, explica Steagall. Sem desmatamentoCom o zoneamento agroecológico da palma, ficou determinado que essa cultura só poderia ocorrer em áreas antropizadas do território nacional, ou seja, essa determinação proibiu a derrubada de árvores para que a palma ocupasse o seu lugar. Essa medida foi muito importante, diz Steagal, considerando principalmente que o desflorestamento é o grande problema dos três maiores produtores de óleo de palma do mundo (Indonésia, Malásia e Tailândia). “À época, a Embrapa identificou 31 milhões de hectares passíveis de serem reflorestados com a cultura da palma, enquanto que os três maiores produtores têm 20 milhões de hectares plantados. O Brasil possui, então, uma grande oportunidade de se tornar líder global na produção desse biocombustível”. DendezeiroAtualmente, o Grupo BBF tem 75 mil hectares plantados, marca que o torna o maior produtor individual de óleo de palma da América Latina, e contribui com 38 térmicas na região Norte movidas a biocombustíveis. O óleo de palma é um óleo vegetal extraído do dendezeiro, uma palmeira, e também é chamado de azeite de dendê. Ele pode ser utilizado para diferentes finalidades, como em produtos alimentícios, cosméticos e de higiene, além de ser um recurso para a produção de combustível renovável. Ao contrário dos combustíveis fósseis, a queima do biocombustível feito a partir do óleo de palma não emite CO2. Eletrificação, alternativa viávelOutro exemplo do esforço em contribuir com um ambiente menos poluente é o que parte da Santos Brasil. De acordo com a gerente executiva de Comunicação Corporativa e Sustentabilidade, Bèatrice de Toledo Dupuy, presente no primeiro painel, a meta é eletrificar o pátio de operações e o cais da empresa, reduzindo a emissão de CO2 ao incorporar à sua frota RTGs elétricos. O RTG é um tipo de guindaste usado para transportar e movimentar contêineres em pátios e em terminais portuários. “Além disso, somos signatários do Pacto Global da ONU desde 2013 e estamos alinhados aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável”, explica. De forma geral, o Pacto Global da ONU fornece diretrizes para promoção do crescimento sustentável, contempladas principalmente na Agenda 2030 e refletidas na política ESG e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). A Santos Brasil mantém uma Política de Sustentabilidade para guiar sua estratégia sustentável, baseada nos padrões ESG e, além disso, tem ações na carteira do Índice S&P/B3 Brasil ESG. Neste ano, a Santos Brasil passou a integrar o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bolsa de Valores.