(AdobeStock) A Noruega, que eliminou o Brasil da Copa do Mundo, vem dando lições ao mundo também fora dos gramados. Ao lado de outros países nórdicos, como Dinamarca, Suécia, Finlândia e Islândia, é referência no cumprimento dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que abordam os principais desafios de desenvolvimento enfrentados por pessoas no Brasil e no mundo. De acordo com o Sustainable Development Report (Relatório de Desenvolvimento Sustentável), que avalia o avanço dos países em direção ao cumprimento dos ODS, o ranking global, entre 169 países, é da Finlândia, com pontuação de 87,4, seguida de Suécia (86,26), Dinamarca (85,28), Noruega (84,08) e Alemanha, que completa o top 5 com 84,02. Já a Islândia está em nono, com pontuação de 82,32. O Brasil, por sua vez, ocupa a 53ª posição, com 74,21. O destaque nórdico é avalizado quando a pontuação é analisada por cada ODS. No caso da líder Finlândia, quatro das metas foram alcançadas plenamente ou estão muito próximas disso (cor verde); outras cinco representam um desafio moderado (houve avanços, mas ainda pede atenção, na cor amarela), enquanto outras cinco representam um grande desafio (cor laranja). Em apenas duas o indicador está longe do objetivo (cor vermelha). As principais conquistas estão na erradicação da pobreza; energia acessível e limpa; indústria, inovação e infraestrutura; e redução das desigualdades. No Brasil, o quadro das ODS indica duas na cor verde (educação de qualidade e energia acessível e limpa); cinco na cor amarela; cinco na cor laranja; e cinco na cor vermelha. (Reprodução) Análise Para o gerente de projetos em sustentabilidade e ESG na Metabole Sustentabilidade, André Calderan, os países nórdicos construíram, ao longo do tempo, sociedades com maior confiança institucional, melhores indicadores sociais, educação pública robusta, menor tolerância à corrupção e políticas públicas mais consistentes. “Isso faz diferença porque a agenda ESG não começa somente a partir das empresas; ela também é resultado de um pacto social, isto é, da forma como uma sociedade organiza o seu presente pensando no futuro: seus direitos, o uso dos recursos naturais e dos bens comuns, suas responsabilidades coletivas e sua capacidade de agir diante dos riscos”. Segundo ele, o ponto central é a consciência dos limites. Países que convivem de forma mais concreta com restrições climáticas, energéticas, territoriais ou produtivas tendem a desenvolver uma percepção mais preventiva de que os recursos precisam ser planejados, regulados e protegidos. “No Brasil, muitas vezes ainda operamos com uma falsa sensação de abundância: água abundante, território abundante, floresta abundante, biodiversidade abundante. Só que essa abundância já está sob pressão. A crise hídrica, os eventos climáticos extremos, as queimadas, a insegurança alimentar e os conflitos territoriais mostram que a escassez já chegou — apenas aparece de maneira desigual no território e na vida das populações”, salienta Calderan. Já a especialista em governança, risco e conformidade, Elaine Montezzana, afirma que há protagonismo do norte global quando se trata de saúde ambiental, vitalidade dos ecossistemas e mudanças climáticas. Para isso, ela cita o EPI (Environmental Performance Index, ou Índice de Desempenho Ambiental), publicado a cada dois anos pela Universidade de Yale, dos Estados Unidos. “O índice, que mede como os diferentes países gerenciam seus recursos naturais e protegem sua biodiversidade e ecossistemas naturais, aponta para os países do norte global, particularmente os países nórdicos, como os mais bem pontuados nesses quesitos”, destaca. Para ela, o Brasil tem uma regulação ambiental exigente e uma razoável disposição para a valorização de seus recursos naturais, mas a sociedade brasileira não está acostumada com as privações trazidas por climas extremos, o que atrasa a conscientização da população e a resposta de nossos representantes políticos. Apenas mais recentemente essa questão vem se impondo com a crescente ocorrência dos fenômenos climáticos extremos. “Acredito que as dimensões territoriais do Brasil e sua complexidade cultural e política representam desafios consideráveis (...) A gestão pública, orientada por dados, vai ser determinante para que as medidas de mitigação climática e os investimentos necessários para a preservação da saúde e vitalidade do meio ambiente ocorram”, complementa.