Na Baixada Santista, a adaptação exigirá atenção em supermercados, restaurantes, hotéis e atividades portuárias, considerando as particularidades de cada setor (Adobe Stock) O fim da escala 6x1 representa um avanço na valorização dos trabalhadores, mas exige planejamento para preservar empregos e a sustentabilidade das empresas. A avaliação é do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - Subseção Santos (OAB-Santos), Raphael Meirelles, que considera a mudança uma modernização das relações trabalhistas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para ele, a redução da jornada sem diminuição salarial está ligada ao pilar Social da agenda ESG (Ambiental, Social e Governança), ao reconhecer que a valorização profissional envolve descanso e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. “A discussão sobre a escala 6x1 demonstra que a sociedade passou a valorizar também o tempo destinado à família, ao descanso, à educação e à qualidade de vida”, afirma. Meirelles destaca que comércio, turismo, serviços e logística precisarão reorganizar turnos, equipes, contratos e controles de jornada. Ele defende incentivos fiscais para pequenos e médios empreendedores, para evitar que os custos provoquem demissões ou sejam repassados aos consumidores. “O equilíbrio entre proteção ao trabalhador e sustentabilidade das empresas será fundamental para o sucesso dessa transformação”, ressalta. A mudança também fortalece o pilar da Governança, segundo Meirelles, ao exigir planejamento, gestão responsável e cumprimento da legislação em vigor. Descanso e produtividade O professor e especialista em Gestão de Recursos Humanos Roberto Martins, fundador da Academia de Recursos Humanos, vê na redução da jornada uma oportunidade de colocar o bem-estar dos funcionários no centro das decisões. Segundo ele, trabalho e deslocamentos comprometem a convivência familiar, o lazer e a qualificação. Mais tempo livre pode favorecer os estudos e os cuidados com a saúde. Contudo, reduzir horas, isoladamente, não garante produtividade. “Não adianta reduzir as horas previstas no contrato e exigir que o profissional realize a mesma quantidade de tarefas em menos tempo, sem qualquer mudança nos processos. Isso pode aumentar a pressão e gerar justamente o efeito contrário ao desejado”, alerta. Martins recomenda melhorar processos, reduzir retrabalho, capacitar lideranças e acompanhar afastamentos, rotatividade e horas extras. Na região, segundo ele, a adaptação exigirá atenção em supermercados, restaurantes, hotéis e atividades portuárias, considerando as particularidades de cada setor. Possibilidade de contratações A especialista em Recursos Humanos Andréa Marques avalia que a redução poderá aumentar a motivação e estimular contratações para manter o funcionamento das empresas. “Já percebo a satisfação das pessoas, uma movimentação de motivação, de terem mais tranquilidade e poderem ficar mais tempo com a família”, conta. Ela relata que empresas já avaliam ampliar equipes. “Esta semana já fiz várias propostas para aumentar as equipes. As empresas já estão se prevenindo para contratar mais”, afirma. Andréa reconhece, porém, que há dúvidas sobre os turnos e os impactos da mudança. A adaptação dependerá de planejamento para evitar sobrecarga e preservar a competitividade. Saúde mental A psicóloga clínica Valéria Christina de Souza Santos, especialista em Psicoterapia Cognitivo-Comportamental, afirma que mais descanso pode reduzir o desgaste físico e emocional e melhorar a convivência familiar. Segundo ela, muitos trabalhadores usam a única folga para resolver tarefas domésticas e compromissos acumulados, restando pouco tempo para recuperação e lazer. O desgaste pode ser maior entre mulheres que acumulam trabalho e cuidados com os filhos. “O tempo virou um artigo de luxo”, resume Valéria, que observa dificuldades para descansar e problemas de sono nos atendimentos. Dois dias de folga podem permitir uma distribuição mais equilibrada das tarefas. Entretanto, a psicóloga alerta que reduzir a jornada não elimina, por si só, o burnout, também relacionado à pressão por resultados e às condições de trabalho. Para ela, o tempo adicional deve ser aproveitado para cuidar da saúde, fortalecer vínculos e realizar atividades que proporcionem bem-estar. O que muda Modelo anterior Jornada: Máxima de 44 horas semanais; Escala: Seis dias de trabalho para um de descanso (6x1); Folga: Descanso concentrado em apenas um dia; Gestão: Organização atual das equipes; Salário: Remuneração conforme contrato. Novo modelo previsto Jornada: Redução gradual para 40 horas semanais; Escala: Dois dias de descanso remunerado; Folga: Mais tempo disponível para lazer, família e estudos; Gestão: Necessidade de adaptação das escalas e dos turnos; Salário: Manutenção dos salários mesmo com a redução da jornada. Benefícios e desafios Para os trabalhadores Mais tempo para descanso e convivência familiar; Melhor equilíbrio entre vida pessoal e profissional; Possibilidade de redução do desgaste físico e emocional; Mais oportunidades de estudo, lazer e qualificação; Potencial melhoria da motivação e da satisfação profissional. Para as empresas Reorganização de escalas e equipes; Possibilidade de novas contratações; Adaptação dos contratos e controles de jornada; Necessidade de planejamento financeiro; Investimentos em produtividade e gestão de pessoas.