Entre os participantes da discussão, promovida pelo Grupo Tribuna, estava a ativista Mavi Brilhante, que, à distância, expôs suas impressões (Vanessa Rodrigues/AT) As mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça distante para se tornar um fator que já interfere na economia, no planejamento das empresas e na rotina das cidades. Com esse alerta e a defesa de medidas concretas para aumentar a capacidade de adaptação aos eventos extremos, especialistas participaram da primeira edição da Agenda ESG de 2026, promovida pelo Grupo Tribuna nesta quarta-feira (29) à tarde, no auditório da empresa, em Santos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na abertura, o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e coordenador do Centro de Estudos de Infraestrutura e Soluções Ambientais, Gesner Oliveira, afirmou que os sinais da crise climática já podem ser observados em diferentes regiões do planeta e no Brasil. “A mudança climática é uma realidade. Não é algo que vai ocorrer, é algo que está ocorrendo. O impacto é extremamente relevante sobre a economia, sobre a vida das pessoas e sobre o custo de vida”, afirmou. Oliveira mostrou exemplos de secas, enchentes, ondas de calor e incêndios nos últimos anos e explicou que esses fenômenos já provocam prejuízos à agricultura, à indústria, ao comércio e aos serviços. Também pressionam a inflação e comprometem investimentos. Para ele, enfrentar esse cenário exige abandonar uma postura passiva e ampliar a atuação conjunta entre setor público, iniciativa privada e sociedade. “Os desafios exigem proatividade, e não, passividade. Precisamos parar de reclamar e resolver o problema”, conclamou. Oliveira mostrou como fenômenos climáticos têm afetado a economia: “Desafios exigem proatividade” (Vanessa Rodrigues/AT) Entre as alternativas, destacou o reúso da água, reduzir os impactos das secas e fortalecer a resiliência climática. Também defendeu o uso de seguros paramétricos, modalidade que prevê indenizações automáticas quando determinados indicadores climáticos são atingidos. Segundo Oliveira, esses instrumentos podem estimular investimentos e reduzir perdas econômicas, desde que sejam acompanhados por um ambiente regulatório estável. “O Estado continua sendo muito importante. Não para resolver tudo sozinho, mas para oferecer segurança jurídica, previsibilidade e boas regras para que esses mecanismos de mercado funcionem.” Juventude quer participar, diz jovem ativista Representando a juventude em fóruns nacionais e internacionais sobre meio ambiente, a ativista Mavi Brilhante, de 13 anos, participou remotamente da Agenda ESG e defendeu que adolescentes deixem de ser apenas os mais afetados pelas mudanças climáticas para também ocuparem espaços de decisão. Segundo ela, discutir justiça climática significa olhar para as pessoas mais vulneráveis aos efeitos dos eventos extremos. Mavi contou ter voltado de um de um fórum político recente em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Disse que muitos adolescentes conhecem os problemas no entorno, mas têm dificuldades para ser ouvidos. “E têm ideias incríveis para resolver problemas que acontecem nas nossas comunidades.” Vivência Segundo ela, quem vive diariamente os desafios das comunidades tem como propor soluções para problemas como falta de infraestrutura, acesso à energia e segurança, desde que tenha espaço para ser ouvido. “Quando o jovem é escutado, ele se sente parte daquilo e sabe que pode lutar e continuar seguindo em frente.” Mavi também lembrou sua experiência recente em eventos internacionais, como a COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Segundo ela, a troca de experiências com representantes de diferentes países reforça a importância de ampliar a participação juvenil nas discussões sobre mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. Clima em crise deve entrar nas decisões A necessidade de incorporar a crise climática às decisões estratégicas das empresas foi um dos principais pontos do segundo painel da Agenda ESG, que reuniu representantes dos setores de sustentabilidade, seguros, comunicação e direito. Gerente corporativa de Sustentabilidade e QSMA da Tegma Gestão Logística, Auiny Spadari afirmou que a agenda ESG só ganha força quando deixa de ser responsabilidade de um único departamento e passa a orientar toda a gestão da companhia. Segundo ela, antes de recorrer à compensação de emissões por meio de créditos de carbono, é preciso investir em inovação e buscar alternativas para reduzir os impactos das operações. “Cada setor precisa entender qual tecnologia faz sentido para o seu negócio.” Coordenadora de Sustentabilidade da Via Green, Cleiciele Oliveira destacou que o inventário de emissões deixou de ser o objetivo final das empresas e passou a ser apenas o ponto de partida para decisões estratégicas. “Hoje, o inventário é uma ferramenta de decisão. É onde a empresa entende onde pode começar a agir e investir.” Cleiciele explicou que, além de reduzir emissões, as empresas precisam identificar estruturas e operações expostas aos efeitos das mudanças climáticas. Segundo ela, cada atividade exige soluções específicas. Como exemplo, citou terminais portuários que, embora estejam localizados na mesma região, sofrem impactos diferentes conforme o tipo de operação realizada e a exposição a chuvas, ventos ou ondas de calor. E não há solução única para todas as organizações. Diretor da Marsh Corretora de Seguros, André Dabus defendeu que o mercado segurador precisa se preparar para um novo cenário de eventos extremos. “Não basta reconstruir. É preciso reconstruir melhor, de forma resiliente.” Para ele, a cultura da proteção ainda precisa avançar no Brasil. “A população ainda não tem a cultura de proteger o patrimônio antes que o problema aconteça.” O especialista em seguros Túlio Marques afirmou que o setor também exerce papel importante ao identificar riscos e orientar investimentos. “O mercado segurador aponta caminhos. Ele mostra o que é possível, o que é viável e onde os riscos são maiores.” O jornalista Matthew Shirts alertou para a necessidade de melhorar a forma como a sociedade comunica a crise climática. “Precisamos criar uma cultura do clima e aprender a contar essas histórias”, sugeriu. Na avaliação do membro do comitê executivo da Laclima e sócio executivo de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas, ESG e Transição Energética do Gaia Advogados, Rodrigo Sluminsky, esperar apenas por novas regulamentações não será suficiente para enfrentar o problema. “A regulação não vai salvar a gente. O que pode provocar uma mudança é comunicar melhor essa realidade e incorporar os riscos climáticos à estratégia das empresas.”