Entrevistados se dizem comprometidos com desenvolvimento sustentável, como uso de energia sustentável (Matheus Tagé/ Arquivo AT) Há estagnação e um longo caminho a percorrer por líderes de pequenos negócios envolvendo o conceito ESG — em português, ambiental, social e governança. É uma das conclusões da pesquisa Negócios Sustentáveis: a Contribuição das Pequenas Empresas Brasileiras na Agenda 2030 da ONU, realizada pelo Centro Sebrae de Sustentabilidade (CSS), gerido pelo Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas em Mato Grosso (Sebrae/MT). Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! O levantamento, de abrangência nacional, teve 4.003 participantes, ou 0,04% do total de micro e pequenas empresas brasileiras. As entrevistas foram feitas por telefone, entre abril e junho. Apenas 35% conhecem as práticas sustentáveis e mais de 65% desconhecem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro de 2015 e adotados por 193 países-membros. “São dados que demonstram que ainda há muito a percorrer na busca pela sustentabilidade junto aos pequenos negócios, para que ganhem maior competividade. No entanto, 62% dos entrevistados acreditam que a empresa pode contribuir com os ODS. Portanto, fica evidenciada a preocupação e a disponibilidade em aderir a essa agenda”, afirma a gerente do Centro Sebrae de Sustentabilidade, Patrícia Pedrotti. Há seis anos, em 2018, o mesmo órgão realizou a pesquisa O Engajamento dos Pequenos Negócios Brasileiros com a Sustentabilidade e os ODS. “Ao comparar os resultados, observou-se que os pequenos negócios permaneceram estagnados em diversas práticas em negócios sustentáveis, especialmente no que se refere ao consumo de energia elétrica, ao reúso de água e ao conhecimento de fornecedores de produtos sustentáveis na região”, conclui, no trecho de um texto na atual pesquisa. Preocupam, mas inspiram Professor e consultor em ESG, Gustavo Loiola classifica os dados como “esperados”. “O contexto do pequeno empresário está muito relacionado à sobrevivência do negócio. A discussão sobre sustentabilidade vem em um segundo nível. Nesse escopo, acho que tem também uma dificuldade de ele entender de que forma esse sistema de sustentabilidade impacta os seus negócios, seja de uma forma bem mais macro e ampla”. Professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), Marcela Argollo observa que os números preocupam, mas devem ser encarados como um ponto de partida. “A conscientização sobre práticas sustentáveis e os ODS é um caminho fundamental nesse processo de transformação. Imagine a amplitude de possibilidades se conseguirmos engajar esses pequenos negócios em iniciativas de capacitação e educação.” O fato de 65% dos entrevistados não estarem familiarizados com os ODS chama a atenção de Patrícia Pedrotti, mas não há desânimo, pois, segundo ela, causa um despertar para propor ações estratégicas para transformar essa realidade. E usa outra porcentagem para argumentar. “É animador saber que 59% dos entrevistados se sentem comprometidos com os ODS, e mais interessante é saber que, dentre eles, mais que a busca por redução de custos, reputação, imagem ou compliance, o que mais motiva os pequenos nesse comprometimento é a busca pela preservação ambiental e justiça social, representado por mais de um terço dessa parcela”, comenta. Sebrae O Sebrae produz materiais e oferece soluções voltadas para os donos de pequenos negócios a respeito a sustentabilidade. Há o site sustentabilidade.sebrae.com.br e as agências físicas, com atendimento personalizado e consultoria. “Percebemos que, para o pequeno negócio, a adesão às práticas sustentáveis acaba sendo mais fácil de ser implementada devido à estrutura mais enxuta e flexível. O que precisamos garantir é que conheça o caminho a trilhar”, afirma Patrícia Pedrotti. Grandes empresas podem inspirar As grandes empresas podem servir de inspiração e aprendizado para pequenos negócios nas práticas ESG, segundo a professora da FGV Marcela Argollo. “Geralmente, grandes corporações integram ESG como parte central de suas estratégias, tratando sustentabilidade, responsabilidade social e boas práticas de governança como pilares estratégicos, não apenas como ações isoladas. Pequenos negócios podem aprender a enxergar ESG não como um custo extra, mas uma oportunidade de reforçar sua competitividade, expandir o mercado e construir uma marca diferenciada”, argumenta. Reputação Grandes empresas, lembra, comunicam suas metas e práticas por meio de relatórios anuais, sites e redes sociais. “Pequenos negócios podem seguir esse exemplo, divulgando suas ações de sustentabilidade em menor escala para clientes e comunidade local, o que gera confiança e fortalece a reputação”, sugere. Ao adotar uma visão de longo prazo, observa a professora, pequenas empresas conseguem identificar como o ESG pode ajudar a amenizar riscos e na sustentabilidade do negócio — como ao monitorar o consumo de energia elétrica para reduzir custos e impactos ambientais, “otimizar embalagens ou adotar energias renováveis”. Marcela observa que “a proximidade dos pequenos negócios com a comunidade é uma vantagem significativa, permitindo criar laços fortes com clientes, colaboradores e parceiros locais, promovendo impacto social positivo e fortalecendo a fidelidade do cliente”.