A preocupação com a sustentabilidade, um dos pilares da prática de ESG, vem encontrando espaços cada vez maiores na vida dos consumidores de produtos eletrônicos. E eles podem ser no bolso, na estante, no painel do carro ou mesmo no pulso. Os chamados gadgets sustentáveis são uma realidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Eles são desenvolvidos com foco em reduzir impactos ambientais durante todo o seu ciclo de vida: desde a produção até o descarte. Entre os diferenciais, estão o uso de materiais reciclados ou biodegradáveis; eficiência energética, consumindo menos eletricidade; compatibilidade com energias renováveis, como a solar e maior durabilidade e fácil reciclagem. É uma abordagem que se conecta com a crescente demanda por tecnologia verde. O coordenador do Curso de Inteligência Artificial da Unisanta, Luis Fernando Bueno Mauá, lembra da grande incidência de lixo eletrônico, um dos efeitos colaterais da inovação tecnológica durante anos. É nessa esteira que os gadgets sustentavéis ganham relevância. “A indústria e os centros de pesquisa trabalham em smartphones reparáveis, dispositivos biodegradáveis, eletrônicos capazes de produzir sua própria energia e até componentes feitos com materiais que podem se dissolver depois de utilizados”, afirma. Ele cita como exemplo o Fairphone, smartphone criado por uma empresa holandesa de mesmo nome para combater a cultura do descarte. O modelo 6, lançado no ano passado, possui estrutura modular: bateria, tela, câmera e portas podem ser substituídas pelo próprio usuário. Em vez de trocar todo o telefone porque uma peça apresentou defeito, troca-se apenas o componente necessário. O aparelho recebeu nota máxima em reparabilidade e tem previsão de atualizações do Android e suporte de software até 2033. “A ideia de prolongar a vida dos equipamentos tem impacto direto no meio ambiente: manter um smartphone durante cinco a sete anos, em vez de substituí-lo a cada dois, pode reduzir sua pegada de carbono entre 28% e 42%”, acrescenta. Eletrônica biodegradável Mauá conta que uma das áreas mais surpreendentes é a chamada eletrônica biodegradável ou transiente, que desenvolve dispositivos capazes de desaparecer depois de cumprir sua função. Pesquisadores já criaram uma placa eletrônica impressa em 3D chamada DissolvPCB, produzida com um polímero solúvel em água. “Também foi desenvolvido o Biogem, um atuador robótico flexível produzido com gelatina e materiais como açúcar, glicerina e sal. Outros experimentos conseguiram desenvolver componentes eletrônicos com aproximadamente 90% de biodegradabilidade e até memórias capazes de armazenar informações por um período determinado antes de se dissolverem”, conta o professor. Outra revolução acontece na energia. Além dos equipamentos solares, pesquisadores desenvolvem sistemas capazes de transformar os movimentos do corpo humano em eletricidade. Caminhar, correr ou simplesmente movimentar braços e pernas pode gerar pequenas quantidades de energia. “O próximo passo pode ser combinar todas essas tecnologias em um dispositivo construído parcialmente com materiais reciclados, projetado para durar muitos anos, fácil de reparar, capaz de recuperar parte da energia necessária através da luz ou do movimento e com componentes que possam ser reciclados ou biodegradados ao final de sua vida útil. A inteligência artificial também pode participar desse processo, controlando equipamentos e reduzindo automaticamente desperdícios de energia”, complementa Mauá. Valores O professor de automação industrial no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) - Campus Cubatão, Elcio Rodrigues Aranha, traz um contraponto à corrida tecnológica em prol da sustentabilidade: os preços dos produtos. Ele entende que, se forem altos, a chegada à maior parte da população será dificultada. “A questão da sustentabilidade ainda é uma estratégia de marketing para muitas indústrias. O lucro acaba tendo o maior peso”, entende. Ele cita uma mudança realizada pela União Europeia, que determinou que a Apple adotasse o padrão USB-C em todos os novos smartphones, tablets e eletrônicos vendidos no bloco, forçando a substituição definitiva do conector Lightning. “Foi uma decisão comercial da empresa e não em nome da sustentabilidade”, finaliza. Exemplos de gadgets sustentáveis Carregadores solares Funcionam com energia solar para recarregar smartphones, tablets e até notebooks. Além de serem úteis em viagens, ajudam a diminuir o consumo de eletricidade da rede convencional. Notebooks e smartphones com materiais reciclados Diversas fabricantes já empregam plástico reciclado retirado dos oceanos e metais reaproveitados na produção de seus aparelhos. Garrafas inteligentes Acompanham o consumo diário de água e são produzidas com materiais ecológicos. Também estimulam hábitos mais saudáveis e contribuem para reduzir o uso de garrafas plásticas descartáveis. Lâmpadas de baixo consumo As lâmpadas LED inteligentes podem ser controladas por aplicativos, utilizam até 80% menos energia do que os modelos convencionais e, em alguns casos, são fabricadas com materiais recicláveis. Headphones e caixas de som ecológicas Algumas fabricantes desenvolvem equipamentos de áudio usando madeira certificada e plásticos reciclados, mantendo a qualidade de som. Relógios de pulso Transformam qualquer tipo de luz — natural ou artificial — em energia elétrica, dispensando a troca frequente de pilhas e ajudando a reduzir a geração de lixo eletrônico. As células fotovoltaicas instaladas sob o mostrador captam a luz e a convertem em energia limpa para o funcionamento do relógio. O excedente é armazenado em uma bateria interna recarregável, de longa vida útil.