A sustentabilidade deixou de ser apenas discurso nas empresas e passou a fazer parte das práticas do dia a dia. Ainda assim, o tema segue em processo de amadurecimento e maior profissionalização. Em 2025, por exemplo, 76% das empresas já adotavam ações sustentáveis com algum nível de maturidade — um avanço de 5 pontos percentuais em relação a 2024. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Os dados são do levantamento Panorama Sustentabilidade Corporativa 2025, elaborado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil) em parceria com a Humanizadas, empresa de inteligência de dados. Ao todo, foram ouvidos 401 executivos de companhias que, juntas, somam mais de 505 mil colaboradores e faturamento anual de R\$ 2,9 trilhões. O principal desafio continua sendo comprovar o retorno financeiro dessas iniciativas, algo apontado por 58% dos entrevistados. Isso demanda maior integração com as áreas financeiras e uma comunicação mais orientada à geração de valor. Além disso, embora 72% das empresas já tenham incorporado a sustentabilidade à estratégia, apenas 48% utilizam parâmetros comparativos e avaliações externas, o que evidencia espaço para avanços com base em dados mais consistentes e confiáveis. “Ver que mais de 70% das empresas possuem ações ESG é interessante, mas um dado preocupa: apenas 39% das empresas têm departamento de ESG. Isso mostra que ainda há muito a avançar, porque não adianta ter práticas, pois muitas dessas práticas são reduzidas a, por exemplo, reciclagem, reutilização de materiais e algumas ações relacionadas à filantropia”, analisa Lucas Carvalho Pereira, diretor da Occatu Climate, empresa que desenvolve projetos de carbono e consultoria em clima. Ainda de acordo com o levantamento, 75% das empresas identificam a integração entre sustentabilidade, estratégia e performance financeira como tendência crítica, seguida por uma cultura mais voltada ao tema (62%). A adoção das IFRS S1/S2 (padrões globais para divulgar informações de sustentabilidade e clima) deve acelerar esse alinhamento. “Poucas empresas possuem um departamento ESG consistente e ações que o coloquem dentro da estratégia ou da identidade da empresa. A gente ainda percebe que, por mais que isso tenha mudado nos últimos anos, ainda está muito conectado com ações mais pontuais, elaboração de relatórios, que são mais para fora do que para dentro. Mas há um cenário mudando de forma bastante ágil”, acrescenta o especialista. “Com uma maior demanda e pressão, tanto do mercado como dos governos, há investidores e bancos, muito mais exigentes em relação a essa prática, muito porque já enxergam os riscos das mudanças climáticas mais reais”, complementa Pereira. Por estágio Empresas em estágio avançado de sustentabilidade percebem mais impacto positivo na sociedade (87%), reputação (87%) e acesso a novos mercados (82%), em comparação a apenas 36%, 43% e 21%, respectivamente, nas empresas em estágio inicial. Sobre governança, elementos como privacidade (86%) e ética (80%) são amplamente garantidas, mas só 33% atualizam a Matriz de Materialidade e 41% publicam relatórios de sustentabilidade. “Com as regulações aqui no Brasil, por exemplo, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) está exigindo que, a partir do ano que vem, empresas de capital aberto reportem os seus riscos climáticos. Então, vai fazer com que a incorporação dessas estratégias entre dentro do cerne da empresa, e não mais como um departamento apartado do coração do negócio daquela empresa. A partir daí, vai ficar muito mais fácil falar sobre a comprovação do custo-benefício das ações em ESG”, complementa Pereira. Passos Para Michele Anacleto, especialista em Pessoas & ESG, o que falta na maioria das vezes é entender que o que está sendo feito já é sustentabilidade; sensibilizar líderes e operações sobre o tema e sua importância na gestão do dia a dia e perder o medo de cancelamento e começar a comunicar boas práticas. "Tem muita empresa fazendo coisas incríveis e deixando de comunicar com medo de estar cometendo greenwashing, acabam caindo no greenhushing, perdendo oportunidades de fortalecer reputação, atrair clientes, parceiros e fornecedores alinhados aos valores do negócio", aponta. Para ela, uma exigência do mercado ou governo, com certeza seria ótimo. "Ainda estamos engatinhando em temas e soluções urgentes, como soluções pra gestão de resíduos, energia limpa , emissões de carbono. São temas urgentes que as pessoas não têm conhecimento, e na maioria das vezes é difícil de encontrar soluções e, quando existe uma solução inovadora, muitas vezes é inacessível financeiramente". Michele acrescenta que "comunicação, educação e engajamento são as ferramentas que temos hoje para elevar o nível de maturidade do tema nas empresas, e começar a transformar essas informações em dados".