Brechós ganham espaço na economia circular ao prolongar a vida das peças (AdobeStock) Há muito tempo os brechós deixaram a imagem estigmatizada de “lugar apenas de roupas velhas, sem valor”. Hoje, são parte fundamental da chamada economia circular, ao estender a vida útil de uma peça, reduzindo a necessidade de fabricação de itens novos. Alguns dados mostram a força deste segmento: de acordo com a pesquisa Retrato dos Brechós e Bazares no Brasil 2025, realizada pela Aliança Empreendedora e Renata Abranches Branding, 72% das empreendedoras entraram no setor motivadas pelo impacto positivo da economia circular. Além disso, o levantamento traça um perfil nítido do setor, composto em 98% por mulheres, das quais 65% se autodeclaram negras. No campo financeiro, porém, 53% das proprietárias de brechós faturam no máximo um salário mínimo mensal. De acordo com a historiadora e criadora de conteúdo de moda circular e sustentabilidade Carol Lardoza, o chamado slow fashion é menos uma tendência de consumo, para a gente acompanhar e ter produtos de marcas que se relacionam a esse segmento, e mais uma mudança na lógica de como a forma é produzida, comercializada e utilizada. “Os brechós são um exemplo importante dessa mudança. Então, não estamos colocando nada novo no mundo, e sim dando vazão e circularidade a peças que não fazem mais sentido dentro do armário de alguém, ou até mesmo de uma sobra de alguma indústria”, aponta. Para ela, o brechó não deve ser visto como uma solução mágica para o problema da indústria da moda. O conceito de economia circular deve estar presente em várias etapas. “Vai desde o design, a escolha dos materiais, durabilidade, quem vai fazer esse reparo, se as costureiras estão sendo garantidas em relação aos seus direitos, se estão sendo bem pagas quando fazem esse reparo e fazem essa moda também continuar existindo”, acrescenta. Caroline entende que a moda é um setor em que os três pilares do ESG estão muito conectados. No ambiental, entram as questões como a redução dos resíduos, uso da água e energia, emissões de carbono, matéria-prima, os produtos químicos. No social, a questão enorme sobre quem produz as roupas e, principalmente, a relação de trabalho dessas pessoas. E na governança, entram o processo de transparência, rastreabilidade, auditorias e políticas de fornecedores e a capacidade de comprovar aquilo que a empresa comunica. “O ESG não pode ser reduzido a uma escolha de fibra ou uma criação de coleção mais consciente. Mas é preciso olhar para a vida inteira daquela roupa e para todas as pessoas envolvidas nela”, aponta. Cuidados De acordo com a presidente executiva da GMTex Indústria de Confecções Ltda, Roberta Moreira Lima Yamacita, os brechós são uma ótima opção, embora representem só uma pequena parte do que é ideal para a moda circular, que tem como foco estender o ciclo de vida não só dos produtos, mas também da matéria-prima. Isso ocorre por meio de diminuição de desperdício, reúso, reparo, upcycling (processo criativo de transformar materiais ou produtos que seriam descartados em novos itens de igual ou maior valor, qualidade e utilidade), reciclagem e boas práticas em todas as etapas da produção. “Os brechós de luxo nacionais, hoje, estão ganhando força, em parceria com marcas importantes, vendendo não só peças usadas, mas a produção extra das grandes marcas. Já os populares estão com volumes cada vez maiores, e já com dificuldade de descartar o que não vende. Mas entendo que o problema está nos brechós sociais, que estão recebendo muitas roupas sem condições de uso, com a falsa ideia de que poderiam ser reutilizadas”, alega. Estudo Jose Prado Fabri, que é presidente do Núcleo Docente Estruturante (NDE) do curso de Design de Moda da Universidade Positivo, do Paraná, crê que o crescimento dos brechós e do slow fashion como uma mudança importante na própria lógica de valor da moda. “Durante muito tempo, principalmente com o avanço do fast fashion (modelo de negócios no qual as peças são desenhadas, produzidas, distribuídas e comercializadas em larga escala e em tempo recorde para copiar tendências recentes das passarelas a preços baixos), o mercado trabalhou com ciclos cada vez mais rápidos de produção, consumo e descarte. Nesse sentido, o brechó é muito interessante porque ele prolonga a vida útil de um produto que já existe”, aponta.