Entre 713 e 757 milhões de pessoas podem ter enfrentado a fome em 2023 – uma em cada 11 pessoas no mundo, e uma em cada cinco na África, segundo dados da FAO/ONU (Sílvio Luiz/ AT) O segundo painel da Agenda ESG deste ano, ocorrido no Grupo Tribuna na última quinta-feira (19), também abordou o status dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, as ODSs. Embora pareçam iguais e se conectem, essas duas siglas - ODS e ESG - não são iguais. Os ODS estão contemplados na Agenda 2030, um plano de ação para erradicar a pobreza e promover a vida digna de todos, de acordo com as condições que o nosso planeta oferece e sem comprometer a qualidade de vida das próximas gerações. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Já o ESG refere-se às condutas ambientais, sociais e de governança de uma empresa. São 17 ODS com 169 metas e quase 300 indicadores voltados ao desenvolvimento sustentável, que ajudam a nortear as práticas de ESG. Esse assunto fez parte da fala do embaixador da ODS 17 (que aborda parcerias) e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing, Pedro Saad. Para ele, a questão central é entender a dimensão do problema e quais são as oportunidades para resolvê-lo. “Temos um drama social em que quatro bilhões de pessoas estão fora da globalização, que é o jeito simpático de dizer que são pobres. Dois bilhões estão no limiar da sobrevivência e 800 milhões passam fome. Desse total, 150 milhões são crianças e o segundo relatório da Unicef de 2023 aponta que cinco milhões de crianças morrem todo ano com desnutrição ou por contaminação hídrica”, relatou. Ponto do não-retorno Ele também apresentou os problemas ambientais. “Temos os pontos de não retorno, que são preocupantes. Por exemplo, no bioma amazônico, esse ponto, que se situa entre 20% a 25% de desmatamento, já chegou a 18%. A relevância disso para o Brasil e para Santos é o impacto no agronegócio porque as chuvas da Amazônia regulam os cinco biomas, descendo através do Centro-Oeste e, sem chuva, o agro vai perder força e produtividade”, analisou. Ele reforçou que, de cada cinco pratos no mundo, um é produzido pelo Brasil. “Outro dado é que 1/4dos grãos do mundo estão sob risco por problemas hídricos. Então, a gente tem esse drama ambiental crescente”. Encruzilhada para crescer Pedro colocou que, nos últimos 40 anos, as águas, o ar e o solo foram poluídos e que 52% dos vertebrados foram exterminados. “Temos esses dramas e, por outro lado, uma encruzilhada econômica, que é o avanço das tecnologias, porque se de um lado aumentamos a produtividade, de outro criamos uma instabilidade de emprego e renda”. Ele ainda avaliou o status geral das ODSs, explicando que a agenda global vai indo muito mal: 17% das metas estão no bom caminho, 17% regrediram, 30% têm ganhos marginais e 18% apresentam o problema de não serem alcançadas de forma nenhuma. “Para o Brasil, as oportunidades de hoje, ao olhar a agenda mundial, se referem a utilizar a nossa matriz energética, que é limpa, e tentar produzir produtos verdes. Temos cases incríveis, como a do Aço Verde, no Maranhão, que produz aço com energia renovável, algo muito procurado por países do bloco da União Europeia”. Para Pedro, o Brasil talvez tenha na matriz energética, pela questão de bioeconomia, um dos principais ganhos ligados ao ESG. Pedro Saad destaca o contingente de pessoas que ainda passam fome; Arthur Ferreira: Brasil tem os biomas mais biodiversos do mundo (Sílvio Luiz/ AT) Equilíbrio “É um desafio continuar produzindo prosperidade e eliminar a fome e a pobreza extrema”, opina Artur Villela Ferreira, senior partner da Global Forest Bond e autor, com Gesner Oliveira, do livro Nem Negacionismo nem Apocalipse - Economia do Meio Ambiente: uma Perspectiva Brasileira. “Nesse sentido, os biomas têm uma importância em seus serviços ecossistêmicos e o Brasil apresenta contribuição gigantesca para dar nesse sentido pelas características atuais da nossa área e por termos os biomas mais biodiversos do mundo: 20% da biodiversidade do mundo está aqui”. Por outro lado, Artur explica que existem diversas dificuldades. Para ele, o tamanho do desafio passa pelo valor estimado dos serviços ecossistêmicos para a humanidade, hoje da ordem de 125 a 140 trilhões de dólares por ano. “Se fizermos a conta, dá mais do que o PIB do mundo. Então, a natureza faz mais pela gente do que a gente faz por nós mesmos e, mesmo assim, nosso sistema econômico não contabiliza isso”. Ele explica que, dessa forma, o valor das contribuições da natureza não existe. “É zero e, por isso, a gente trata como desnecessário e desmata, queima. A maior falha da economia mundial é a gente não considerar serviços ecossistêmicos no nosso modelo econômico”. A árvore líquida é composta por três tubos transparentes de acrílico com água doce, dois tipos de algas e uma cianobactéria (Sílvio Luiz/ AT) Árvore líquida chamou atenção Quem chega ao prédio do Grupo Tribuna, na Rua João Pessoa, em Santos, se depara com uma estrutura que chama atenção não só por suas características físicas, mas também pelo nome: árvore líquida. Na abertura do segundo painel da Agenda ESG deste ano, o engenheiro ambiental Antônio Mazza, que desenvolveu a árvore líquida para o Grupo Life Service, explicou no que ela consiste. A estrutura é composta por três tubos transparentes de acrílico com água doce, dois tipos de algas e uma cianobactéria. Um biorreator provoca a troca gasosa por meio de borbulhamento, quando a mistura das algas e da cianobactéria retém o gás carbônico e libera oxigênio na atmosfera. A copa da “árvore” é formada por seis placas de captação de energia solar imitando folhas de palmeira. O equipamento tem 2,7 metros de altura e comporta 320 litros. Dependendo das condições, o modelo de 800 litros pode fazer o trabalho de até 40 árvores. Mazza reforça que a árvore líquida não substitui uma de verdade. “É um equipamento para depuração do ar e contenção de gases de efeitos estufa. Significa um indicador de que soluções ambientais são possíveis”.