(Unsplash) Manaus está na maior bacia hidrográfica do planeta, responsável por 18% da água doce que chega aos oceanos. Ainda assim, em 2024 o Rio Negro atingiu 12,11 metros, a menor cota histórica. Estimativas baseadas na Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) indicam até 40 mil poços na cidade, apenas 5 mil registrados. O paradoxo vale para todo o país: ter água não significa ter segurança hídrica. Esse contraste orientou o painel que moderei no Acqua Talks, dia 19, com Pedro Freitas, presidente da Águas de Manaus, Lucas Chamhum, sócio-diretor da CR Etes, Luis Antonio Reis, presidente da Caesb, e Marcus Vallero, da Veolia. Uma primeira resposta passa pela forma de organizar os serviços. O debate mostrou que a descentralização já acontece, muitas vezes sem planejamento. Não se trata de escolher entre redes convencionais e sistemas descentralizados, mas de integrá-los com responsabilidade clara por operação, manutenção e monitoramento ao longo da vida útil. Em áreas dispersas, soluções compactas aceleram o atendimento. Sem governança, tecnologia não garante resultado. A organização dos serviços, por sua vez, precisa acompanhar a pressão crescente sobre a água. Segurança hídrica é também agenda econômica. Em Manaus, a ANA projeta alta de 43% na demanda industrial por água até 2040. No País, as secas causaram R\$ 30 bilhões em prejuízos privados em 2025, segundo o Atlas Digital de Desastres. Nesse contexto, o reúso precisa deixar de ser solução pontual e integrar o planejamento do abastecimento. No Distrito Federal, o Lago Paranoá recebe efluentes tratados e fornece água à Caesb, que a trata para distribuição e projeta atender 20% do consumo de Brasília até 2030. O Marco Regulatório do Saneamento já exige metas de reúso nos contratos, e a ANA prevê norma sobre reúso não potável ainda este ano. Mas as soluções precisam enfrentar a dimensão do déficit. Em evento da Siemens na Fenasan, mostrei que, segundo o Sinisa, em 2024, 84,1% da população tinha rede de água e 62,3%, coleta de esgoto nos municípios participantes, ante metas de 99% e 90% para 2033. No meio rural, só 5% tinham coleta. O IBGE aponta 1,33 milhão de residências sem banheiro; o Trata Brasil, 344 mil internações por doenças ligadas ao saneamento inadequado em 2024. Ampliar a oferta exige também aproveitar melhor a água tratada. Nosso maior manancial é a ineficiência. Segundo a GO Associados e o Trata Brasil, as perdas na distribuição chegaram a 39,5% em 2024. A água perdida em vazamentos abasteceria 77 milhões de pessoas, mais que o dobro dos 33 milhões sem abastecimento. Reduzir as perdas a 25% economizaria 2,8 bilhões de m³ por ano. Desperdiçar água tratada é um luxo inaceitável. O Marco do Saneamento impulsionou concessões e parcerias: segundo a Abcon, 70 leilões desde 2020 contrataram R\$ 227 bilhões, e operadores privados estão em 48,8% dos municípios. Mas o avanço é desigual: os 20 melhores municípios do ranking investem 127% a mais por habitante que os 20 piores. Ampliar investimentos é prioridade, mas os compromissos precisam virar obras, com projetos viáveis, regulação previsível e capacidade de execução. Inovação também conta: medição inteligente, sensores acústicos e gêmeos digitais localizam vazamentos. Segundo a ABiogás, o saneamento pode produzir 7,2 milhões de m³ de biometano por dia. Acqua Talks e Fenasan apontaram a mesma tarefa: aproximar quem inova de quem planeja, financia, regula e opera. Isso deve chegar aos governos: 74% dos planos dos candidatos a governador não traziam metas concretas de saneamento. Encerrada a eleição, cabe aos eleitos definirem metas, prazos e orçamento. Não há solução única. Universalizar até 2033 exige combinar redes, sistemas descentralizados, reúso, gestão eficiente e planejamento de longo prazo. A abundância é vantagem natural; transformá-la em segurança hídrica é escolha de gestão, investimento e responsabilidade. Só assim a água chega com qualidade e regularidade a quem precisa. *Economista, professor e coordenador do Centro de Infraestrutura e Soluções Ambientais da FGV