[[legacy_image_278323]] Convidados do fórum A Região em Pauta apontaram que o aquecimento global, com suas consequências naturais e econômicas, deve ser admitido como um problema real e atual. Mas, para isso, é preciso combater e eliminar um adversário da ciência: o negacionismo. Esse é o entendimento do professor Ronaldo Christofoletti, coordenador do Instituto do Mar, da Unifesp Baixada Santista. Com um discurso forte, o especialista disse que a sociedade não pode desacreditar do trabalho dos cientistas. Segundo o pesquisador, ainda que os estudos apontem circunstâncias indesejadas, eles devem ser ouvidos. “Não é porque não gosto do que vejo que digo que é uma mentira. Se o dado científico está validado, se não é um erro, precisamos acreditar e pensar em como resolver o problema. É fácil acreditar no que quero, no que gosto de ouvir. Mas, às vezes, a ciência traz o que não gostamos”, afirmou, fazendo uma comparação. “Quando vamos ao médico, nem sempre gostamos do que ouvimos. Porém, aprendemos a confiar no médico. As pessoas têm de acreditar em outras áreas, inclusive no (que diz respeito ao) clima. Então, vários cientistas do clima dizem que a saúde do planeta está grave. Temos de acreditar e pensar em como mudar”, disse. PandemiaRefletindo a respeito da causa do que leva ao negacionismo, Christofoletti voltou aos tempos da proliferação do vírus da covid-19. “Durante a pandemia, tivemos, em vários países e no Brasil, governantes que desacreditaram da ciência, da vacina, e que continuam a fazer isto”, declarou, sem citar nomes. “Toda pessoa que tem influência, políticos, atores, esportistas… Todas as vozes que influenciam têm responsabilidade em dobro de não desmentir a ciência”. Apesar de tudo que disse, o coordenador do Instituto do Mar afirmou notar o surgimento de um novo comportamento na sociedade. “Quanto mais jovens, mais as pessoas estão conscientes. Uma mudança está vindo e temos de fortalecê-la, com informação de qualidade. Hoje, a informação está em qualquer lugar, mas as fake news estão junto”. Falta de dados prejudica estatísticasNa tentativa de fazer um estudo que comprovasse o crescimento das ondas de calor no Litoral Brasileiro, Ronaldo Christofoletti se deparou com um problema: a maior parte das cidades não registrou dados detalhados sobre suas respectivas situações climáticas. Ele afirmou que este fato comprova que a ciência fica em segundo plano no País. “É sabido que vivemos em um país em que ela não é valorizada (...) Aí, quando se começa a procurar dados para responder como varia (o clima), não encontramos, porque muitas estações quebram, estão fora de funcionamento… Não tem modelo matemático que resolva”, ressaltou. A geóloga Celia Regina de Gouveia Souza, do Núcleo de Geociências, Gestão de Riscos e Monitoramento Ambiental do Instituto de Pesquisas Ambientais da Secretaria Estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, admitiu que a dificuldade é real. “A gente tem nossa série histórica de lidas de marégrafo, com medidas de nível do mar. Mas, aqui para a Baixada Santista, tem muito buraco (nas leituras). Então, isso dá problema mesmo para fazer estatística boa. Temos séries desde 1945, mas com muito buraco”. Por conta disso, o professor Christofoletti fez um apelo. “Ninguém está investindo em ter um monitoramento contínuo de qualidade, que não é tão caro. Precisamos investir em ciência, porque, quando se quer dado, não se tem”.