[[legacy_image_204543]] Em meio à pandemia de covid-19 e a recessão econômica como consequência, os editais voltados para iniciativas culturais viraram uma autêntica tábua de salvação para artistas e produtores do setor. Santos é um exemplo disso. Que o diga o Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes, o Facult. “O Facult é um programa autossustentável em que o dinheiro é oriundo, por exemplo, das bilheterias dos teatros municipais. Seja do próprio teatro, dos cafés, da bilheteria do Carnaval, em que parte da quantia é reinvestida na área cultural. E a gente conseguiu, tirando mais um pouquinho do orçamento da secretaria, chegar ao valor deste ano”, explica Rafael Leal, secretário de Cultura de Santos. Em sua 10ª edição, o Facult destinará R\$ 1 milhão, distribuído em 50 projetos a R\$ 20 mil cada, movimentando a cena cultural da Cidade em 2023. O valor total é mais do que o dobro da oitava edição, lançada em 2020, que era de R\$ 450 mil. A diferença também é bastante representativa caso se leve em conta a do ano passado, a 9ª, quando a importância atingiu R\$ 600 mil. “O artista tem que ter uma sensação de pertencimento, de entender que o Facult é dele. Houve um aumento assustador de inscritos não só por conta do valor, mas por esse sentimento de entender que o Facult é uma bandeira, uma conquista dele”, comenta Leal. Prorrogação e outros editais O período de inscrições do Facult até foi prorrogado. Inicialmente, iria até a última sexta-feira. Agora, seguirá até 7 de outubro. O motivo, porém, não é exatamente o sucesso. Tem relação direta com as Leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2. Os recursos da primeira vão ser levados para o próximo ano e os da segunda, para 2024. A decisão relativa à Medida Provisória (MP) 1.135/2022, publicada na edição desta segunda-feira (29) do Diário Oficial da União, também dá a prerrogativa para o presidente da República decidir se esse dinheiro será aplicado ou não. “Isso destruiu o sonho de muita gente para esse ano. Muita gente estava aguardando a Lei Paulo Gustavo. Seria a salvação para os movimentos culturais. Seriam investidos cerca de R\$ 14 milhões na região e não teremos mais acesso a estes recursos. Por tudo isso, a gente quis dar mais oportunidade aos realizadores da cidade de Santos com essa prorrogação de prazo”, detalha o secretário de Cultura de Santos. O mesmo prêmio total do Facult será destinado ao vencedor do 1º Concurso de Longas-Metragens. O melhor formato ainda está sendo discutido. O 2º Concurso de Curtas-Metragens irá oferecer R\$ 560 mil. Outro edital tem relação com a Cultura Negra, com valor de R\$ 300 mil. E ainda há o Programa Municipal de Incentivo Fiscal de Apoio à Cultura (Promicult), com R\$ 1,09 milhão. “Conseguimos planejar e realizar muita coisa nesse ano, que era muito difícil e com um orçamento limitado. É um legado. Não de concreto. Não é uma sala, nem um teatro e nem um cinema, mas é um legado”, finaliza Rafael Leal. Projetos têm que atender demandas A produtora cultural Allana Santos, da Cocoruto Produções, pode se considerar uma formadora de artistas que buscam seu espaço por intermédio de editais. Em uma incubadora, foram quase 25, sendo que três deles aprovaram projetos via ProAC (Programa de Ação Cultural São Paulo), do Governo do Estado. “Parece pouco, mas as outras pessoas que se inscreveram também alcançaram notas bacanas e conseguiram dar o primeiro passo, que às vezes a gente acha que é muito difícil. E realmente tem várias coisas burocráticas que nem todo mundo tem acesso, às vezes até de entender o edital. Não é uma leitura fácil a todos”, conta a integrante do Coletivo 302 e do Galpão Cultural, no Parque Novo Anilinas, em Cubatão, que também tiveram espetáculos e inciativas beneficiadas. Ao se elaborar um projeto cultural, Allana recomenda que o interessado faça essa criação com base em algumas premissas. “Acho sempre importante a gente pensar primeiramente se o nosso projeto atende uma demanda, se resolve um problema ou se traz alguma transformação para que mora onde ele está inserido. Assim você acaba criando um projeto mais forte”, afirma. “Envolver-se sempre nas discussões políticas, como estar dentro do Conselho de Cultura, participando de certa forma, também é importante”, emenda. A produtora cultural lembra que um projeto assim não vai gerar renda apenas para o proponente, mas também para outras pessoas, já que é algo a ser desenvolvido por várias cabeças. As contrapartidas oferecidas também representam outro aspecto importante. “Você recebe o recurso do edital para conseguir realizar o seu espetáculo de dança, de circo ou seja qual for, mas geralmente você precisa entregar contrapartidas à sociedade, que está na gratuidade, por exemplo, nas apresentações. Ou pode colocar ações formativas. Ou seja: além de atender a um público que não teria acesso a essas atividades culturais, você também consegue entregar essas contrapartidas sociais”, sugere.