[[legacy_image_165887]] A tarde da última segunda foi aberta com duas falas bem especiais. As estudantes Giovanna Senna e Luana Karoliny, da UME Pedro II, em Santos, traduziram em palavras o sentimento de um batalhão de crianças e jovens: a pandemia atrasou a vida como um todo, trazendo muitas sensações, às vezes ruins. Mas sempre há tempo de recalcular a rota. Ouvi-los nunca foi tão essencial como agora. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Quando a pandemia começou, eu estava no sétimo ano. Estava onde ela (Giovanna) está agora. Só que eu não tive a experiência do sétimo ano como ela vai ter. Eu não tive um sétimo ano normal, mas pude explorar muita coisa que eu não sabia que podia explorar, das minhas habilidades. Eu acho importante conviver com pessoas, criar responsabilidade. Mas ficar em casa não é muito legal, especialmente nessa idade”, explica Luana. Embora reconheça que a pandemia - que não terminou – trouxe coisas ruins, Luana buscou aproveitar o copo meio cheio. “Eu não agradeço à pandemia em si, porque ela não terminou. E também trouxe muito medo. Mas se eu falar que saí uma pessoa totalmente diferente de como eu era antes. O lado bom é que eu usufruo hoje de coisas que pude explorar na pandemia, como desenhar, aprender a tocar violão ou editar vídeos. Eu pude desenvolver habilidades que uso para muitas coisas”, argumenta. O medo e a solidão foram explorados na fala de Giovanna. Não com ela, mas amigos e pessoas próximas, que sentiram o baque. “Quanto a essa parte online, muitas pessoas não sabiam mexer nas plataformas. E não tinham apoio. Muitas delas desenvolveram ansiedade porque não saíam de casa, não tinham muito convívio social com outras crianças da mesma idade. E é preocupante, porque podem desenvolver muitos problemas psicológicos, como depressão, ansiedade... Essa pandemia também levou muitas crianças ao suicídio, como uma consequência disso tudo”, relata, com incrível eloquência. Ela conta que “sobreviveu” à falta de convívio social direto com os amigos graças à presença da família, sempre aberta ao diálogo. “Com a minha família, consegui ‘não enlouquecer’ por ficar só em casa, com aquela rotina de acordar, tomar café, escovar o dente e, depois, só estudar. Agora, minha rotina está incrível, ocupando minha cabeça. Muitos dos meus amigos não sabem dividir, porque nas aulas não tinham esse apoio necessário. Eles retrocederam, e eu também retrocedi. Agora, estou aprendendo mais”, sintetiza. RepresentatividadeEntre os participantes, a ideia de dar maior espaço para as demandas desses jovens é consenso. E os grêmios estudantis, que já foram muito fortes no passado, ganharam novas caras e mentes, mas a mesma intenção: se fazer ouvir. E deixar essa porta cada vez mais escancarada. “Em 2013, quando cheguei à Secretaria de Educação de Santos, fizemos uma radiografia de como estavam os grêmios estudantis. Tínhamos um grêmio em atividade. Mas é legislação federal: toda escola, a partir do sexto ano, precisa ter instituído e trabalhando um grêmio estudantil dentro da sua unidade escolar. Por diversas razões, os grêmios acabaram morrendo. E, de lá para cá, a gente fez um trabalho muito próximo à unidade, de quanto os alunos mudam e transformam. Vimos isso na pandemia. Foram fundamentais para reerguer muitos alunos que estavam indo por um caminho perdido”, conta a vereadora Audrey Kleys, que relata até a criação de grêmios mirins. Regina Spada, da Regional de Ensino de São Vicente, pontua uma ação que deve ser implementada em breve: a participação de alguns alunos em cursos de formação para professores. “Percebíamos que tudo o que a gente fazia na diretoria, em termos de formação, muitas vezes não tinha viabilidade “na ponta”. Pensamos; vamos pegar esses meninos, colocar junto na formação, porque eles serão aos maiores reguladores para que as coisas deem certo. Eles dois vão brigar por essa ação positiva dentro da escola”, prevê.