[[legacy_image_204517]] O escritor e poeta britânico Oscar Wilde cunhou um pensamento que diz que “o estado deve fazer o que é útil. O indivíduo deve fazer o que é belo”. Nada mais adequado para o tema Cultura e Arte na Inserção Social, tratado no fórum A Região em Pauta, realizado no auditório do Grupo Tribuna, em Santos, com mediação do jornalista Lincoln Spada e organização de Arminda Augusto, gerente de Projetos e Relações Institucionais do Grupo Tribuna. No primeiro debate, a cultura foi abordada como produto metropolitano da Baixada Santista, que pode ser potencializado com ações coletivas, criação de redes permanentes de troca e divulgação das expressões artístico-culturais das cidades, calendários coletivos e organizados de programação, com cada uma das nove cidades oferecendo suas particularidades e características artísticas. Fizeram parte deste painel o escritor e professor Flávio Viegas Amoreira, Raquel Pellegrini, jornalista e assessora técnica da Secretaria de Cultura de Santos, o programador cultural do Sesc Bertioga, Guilherme Leite Cunha, e o professor universitário e artista Gilson de Melo Barros. “Nós vivemos em uma região com mais de 1,5 milhão de habitantes, uma microcivilização no Litoral paulista. A Baixada Santista é quase um Uruguai. Nós precisamos de consumo interno das nossas produções artísticas e, lógico, que sempre exportando”, contextualiza Flávio. A união de tudo isso forma a metropolização. Ou, pelo menos, deveria. “Minha ideia de uma cultura metropolitana é uma união de esforços trabalhando a base. Sem a base a gente não tem nada. Espero que todas as cidades da região se sensibilizem com essa ideia”, afirma Raquel. A cultura também provoca grandes mobilizações humanas, talvez as maiores. Só que, por vezes, há uma certa confusão neste aspecto, em como provocar isso – e, em especial, dentro do território verde e amarelo. “A gente vai para a Itália por causa da cultura do país. O mesmo vale para a França. A geografia de lá não perde muito para a nossa. Só que é muito comum a cultura ser confundida em cidades pequenas brasileiras com um evento, como uma ação de marketing, para aglutinar pessoas”, comenta Guilherme. Diante disso, o artista que está começando sofre bastante. “O artista que está se formando, falando das artes plásticas, tem os encontros artísticos para solidificar a cada dia sua carreira com exposições. Em Santos há somente três galerias de arte, que tem curadoria para as exposições. Ou seja, que vai provocar mostras com o sentido reflexivo e não simplesmente uma feira de arte. Fazer uma feira de arte é um patamar. Fazer um salão atende a outro e uma bienal a outro. Tem de se entender a necessidade de atender a todos esses patamares. Infelizmente a gente está bem precário na realização dentro desse entendimento”, exemplifica Gilson. Editais No segundo debate, o tema central girou em torno das fontes de captação de recursos de fomento à cultura, como os editais do ProAC (Programa de Ação Cultural São Paulo), do Governo do Estado, a Lei Aldir Blanc e os fundos municipais. O objetivo foi abordar a disponibilidade de recursos, os entraves burocráticos que dificultam seu acesso e a necessidade de qualificar profissionais para acessá-los. O painel foi composto pelo secretário de Cultura de Santos, Rafael Leal, pelo arte-educador José Virgílio, presidente do Arte no Dique, projeto na comunidade do Dique da Vila Gilda, na Zona Noroeste de Santos, e a produtora cultural Allana Santos, da Cocoruto Produções. “A gente conseguiu entender que se a gente não fortalecer a cultura e não estivermos todos juntos do mesmo lado, acho que é o começo do fim”, afirma Rafael. “Cultura é uma coisa extremamente ampla e não são apenas as linguagens artísticas”, lembra Virgílio. “Não adianta nada o recurso vir e a cidade não estar preparada e instrumentalizada para poder receber aquele dinheiro e fazer com que ele chegue nas pessoas de fato”, comenta Allana. No conflito dos recursos, investir na base é o ideal O alto investimento de cidades pequenas em shows de artistas que cobram verdadeiras fortunas e os baixos valores muitas vezes aplicados em políticas públicas de cultura. O conflito foi levantado por Guilherme Leite Cunha, programador cultural do Sesc Bertioga. “Não vou discutir questões de gosto musical, mas a gente vê um gasto fenomenal em cultura para apresentações populares que duram muitas vezes uma noite. Bertioga, por exemplo, gastou mais de R\$ 2 milhões em apresentações musicais, mas que duraram apenas alguns dias”, exemplifica. Guilherme, então, utilizou uma metáfora bastante adequada para expressar a situação. “A gente tem R\$ 10 mil para gastar com o filho durante um ano e aí vou resolver: será que vou colocar meu filho em um curso de inglês, de violão ou de pintura? Ou vou gastar em uma festa no fim de semana? Nossas prefeituras fazem isso: gastam em festas de fim de semana. Se a gente tivesse dinheiro sobrando, embora isso também seja importante para a circulação da produção artística”. O programador cultural do Sesc Bertioga lembra que a formação cultural segue a premissa do futebol. “Quem trabalha com gestão cultural tem um modo de enxergar a ação pensando em pirâmide: na base estão as diversas escolas de atividades culturais e bibliotecas, que fomentam as pessoas”, disse Guilherme. “Se eu for comparar com o futebol, é o que o Santos faz: investir na base. Porque o clube sabe que é muito mais caro comprar um jogador conhecido, mas se ele revelar nomes… Só que a gente não faz isso”, compara. O efêmero, adjetivo presente nos shows de finais de semana, acaba surgindo no momento em que atividades culturais são propostas. Afinal, o tempo é o senhor da razão, desde que bem aproveitado. “Existem exemplos de investimento em formação com oficinas culturais, mas é sempre muito efêmero. É de uma gestão e que a seguinte não continua. A gente sabe que cultura precisa de permanência, de projetos de longo prazo. Cultura é cultivo. Depois de um tempo que a pessoa de qualquer idade pratica cultura, vai começar a produzir coisas. E é dessa multidão que vão sair nomes para fazer a marca da região, dando identidade e atraindo a população”, projeta Guilherme. [[legacy_youtube_nrHevsuztF0]]