[[legacy_image_263296]] O terceiro fórum do ano do projeto A Região em Pauta, realizado na última segunda-feira(24), foi aberto com o relato de Laura Dias. Aos 52 anos, hoje ela é a presidente do Conselho Municipal Antidrogas (Comad). Mas, durante 20 anos, morou na rua e sabe o que é estar na pele de quem dorme ao relento e luta para sobreviver, seja à fome, às drogas ou ao clima. Conhecendo bem esse cenário, ela iniciou o seminário, cujo tema era Pessoas em Situação de Rua, pedindo um olhar diferente para este público. (veja vídeo mais abaixo) Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Somos seres humanos e precisamos de carinho”, disse Laura. “Somos seres humanos e precisamos de carinho”, disse Laura. Esta frase surgiu a partir de memórias engavetadas em sua mente. Já são oito anos sem usar drogas ou álcool, uma vitória para quem, como falou, chegou a “cheirar paralelepípedo”. Ex-viciada em substâncias como cocaína e crack, além de álcool, ela não esquece as humilhações que sofreu. “Eu era vista como lixo, era chamada de lixo. Fui cuspida e pisada na cara. Comi comida do lixo e passei vergonha como mulher, por causa das nossas regras (menstruação). Na rua, não temos absorventes nem espaço para nos lavar, tomar um banho, nos trocar. É uma situação desumana o que uma mulher passa na rua”. Claro, o tempo passou, e a sociedade mudou. Houve avanços em vários sentidos e segmentos. Porém, no lidar com quem vive em vias públicas, ao menos parte da população segue marginalizando esses indivíduos. Isso é o que afirmou o secretário de Segurança de Santos, Sérgio Del Bel Júnior. “Colocam a situação não como de saúde pública ou assistência social, mas como bandidos que devem ser retirados da vista das pessoas, não importa como. Recebo sugestões como (a Guarda Civil Municipal) andar com jato d’água ou ‘cortar as mãos de dois ou três, porque a notícia corre’”, frisou. E não é só isso. Del Bel detalhou um pouco mais sobre as muitas reclamações que recebe. “Noventa por cento dos assuntos de segurança são contra ‘os caras, as pessoas sujas, que vendem tudo para comprar drogas, e vocês (GCM) têm de dar um jeito nisso’”. De fato, essas razões pesam na forma como a sociedade vê os indivíduos que estão pelos locais públicos. A pesquisa de opinião Campanha Assistência Social População em Situação de Rua, realizada pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT) entre os dias 15 e 17 deste mês, a pedido da Prefeitura, mostrou que a percepção que se tem dos locais onde há concentração de pessoas que moram nas ruas é de que são, impreterivelmente, sujos. Tanto é que 76,1% dos 527 entrevistados citaram que esta é a principal característica dos ambientes povoados por indivíduos nesta situação. Como mais de uma alternativa poderia ser escolhida nessa pergunta, também foram muito mencionados consumo de drogas (59,4%), abandono (50,1%) e aumento de furtos (40,8%) — mais dados podem ser vistos na página D4. Ciente desse quadro, Laura seguiu em seu discurso, baseado em sua experiência pessoal, para afirmar: é necessário engajamento coletivo, para que homens, mulheres e crianças saiam dos locais públicos. Uso de violência ou preconceito não resolve. “Eu quis, me esforcei muito. Porém, só isso não basta. Precisamos de uma rede de apoio, de gente que gosta de cuidar de gente, que se preocupa. É preciso um serviço humanitário. Nesta minha trajetória de querer sair da rua, comecei no meio do México 70. Encontrei a Flôr do México, uma associação que cuida de pessoas em vulnerabilidade, que doa colo, não só comida e roupa. Ser humano tem que ter quem o escute e carinho, somos seres humanos”, disse ela, que decidiu mudar de vida após sua mãe sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Tema relevanteDe forma geral, o público presente no A Região em Pauta deste mês ressaltou o quanto o fórum é importante para a Baixada Santista. Integrantes da plateia, inclusive, disseram que o evento é democrático, dando oportunidade de a sociedade civil falar e buscar respostas para seus anseios. O próximo encontro ocorre no fim do mês que vem, com o tema Emprego. Um dos espectadores era Luiz Fierro, que está desempregado, mas é técnico em segurança do trabalho. Para ele, o seminário é de “extrema importância. Tem de haver mais eventos assim, para que, como sociedade, possamos nos engajar, para que todos tenham condição de vida melhor e mais digna”. A respeito do tema debatido na última semana, ele ressaltou que falar sobre pessoas em situação de rua é fundamental, principalmente por conta do número de indivíduos nesta condição. “Está acontecendo crescimento na região”. Indo na mesma linha, o operador social Wagner Francisco dos Santos destacou que é essencial refletir sobre o quadro atual. “Debatemos uma situação cada dia mais real, e isso é de suma importância”. Já para Egle Rodrigues, a presidente do projeto Tia Egle, uma organização não governamental (ONG) que atua há mais de 20 anos na Zona Noroeste, o fórum é uma ferramenta que ajuda a apontar saídas para cenários enfrentados pelas nove cidades da Baixada. “Aqui, você tem oportunidade de ouvir e questionar. É muito democrático e salutar”. Por fim, a assistente social Cláudia de Brito declarou que A Região em Pauta “faz parte da política pública”. Ela, que é co-fundadora do Movimento Nacional de Luta em Defesa da População em Situação de Rua, também deu sua opinião a respeito do assunto abordado. “É uma tendência mundial, cresce cada vez mais (a quantidade de indivíduos nas ruas). Não é problema de um lugar, mas de uma população”, frisou. [[legacy_youtube_H3Z6peH_A0Y]]