[[legacy_image_263314]] “Quando abrimos (a porta da faculdade), pessoas vêm com saco de latinha, deixando-o atrás da porta e pegando caderno e lápis, sentando na mesa e dizendo que quer voltar a estudar”. Isto é o que a terapeuta e docente do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Luciana Surjus vê há seis anos em uma iniciativa que muda a vida de pessoas em situação de rua. A iniciativa é chamada de Redução de Danos. Ela participou do fórum A Região em Pauta na última segunda-feira (24), em Santos. Trata-se de um programa de extensão com duração de seis meses. Participam dos cursos alunos de graduação, pós-graduação e profissionais de saúde e assistência social, entre outros. A ação também está aberta para indivíduos que vivem nas ruas. Estes, após a conclusão da capacitação, podem integrar a equipe que atua nas formações. Em meio a atividades teóricas, os integrantes da capacitação vão à prática em locais onde existe concentração de pessoas em vulnerabilidade extrema. E quem faz as abordagens? Os alunos estão ou estiveram em situação de rua. “Com esses interlocutores, entramos em lugares que a universidade e a classe média não seriam bem-vindas. Com eles, encontramos abertura grande e descobrimos pessoas que também querem oportunidades para se sentirem valorizados, se cuidarem, falarem o que sabem”, contou Luciana. A docente também afirmou que, nas abordagens, acontecem convites para que mais homens e mulheres estudem no Redução de Danos. Uma vez no programa, ninguém é forçado a abandonar a forma como vive. “Dentre as pessoas da comunidade conosco, tem quem tenha parado de usar drogas, quem não tenha parado, mas possui o desejo de parar, e quem usa e não tem vontade de parar”. TransformaçãoApesar disso, em meio aos trabalhos, mudanças acontecem. “É comum que participantes passem a observar seus usos e se organizem melhor, para estarem em determinados espaços. Quando vamos a campo, somos os motoristas da vez. Então, não dá pra ir intoxicado e fazer uso de drogas”. Assim, a vida já começa a ser transformada. “Pessoas que nunca quiseram sair da rua encontram um sentido. Pensam que precisam tomar banho, porque está todo mundo cheiroso na Unifesp, e ele, fedendo”. E não para por aí. Existe um objetivo claro e definido. “Queremos reduzir danos do uso das substâncias, mas também da política que criminaliza o uso de drogas e a pobreza, que trazem, muitas vezes, mais consequências que a droga e impedem a garantia de direitos”, falou. [[legacy_image_263315]] DrogasLuciana Surjus afirmou que grande parte das pessoas que vivem em situação de rua usa drogas e álcool para contornar as dificuldades que enfrentam no dia a dia. Diante disso, a terapeuta defendeu a regulamentação do consumo. Para a especialista, essa medida evitaria a perda de direitos por parte dos indivíduos que se “refugiam” nas substâncias. “Tenho a perspectiva de regulamentação do uso de drogas. (A ideia é) tentar evitar que a Justiça criminal entre nesta seara. Afinal, para além do prejuízo que vai haver pelo consumo da substância, a marcação de antecedente criminal vai gerar uma série de prejuízos ao longo de sua história, às vezes, pior do que o uso”, disse. A docente destacou que a regulamentação já é adotada em alguns lugares do mundo. “É um caminho que acredito bastante. Isso tem sido buscado por vários países”. A estudiosa também citou que “descobrimos que as drogas são, muitas vezes, recursos para lidar com dificuldades da vida. Cerca de 70% fazem uso da substância, seja para dormir, para passar a fome, para conseguir sentir algum prazer ou se divertir”. [[legacy_image_263316]] RessalvasRecentemente, o Governo do Estado de São Paulo divulgou um projeto chamado Saindo das Ruas. A ideia desta ação seria criar incentivos para que produtores rurais contratem pessoas em situação de rua. A medida é vista com ressalvas por duas pessoas que participaram de A Região em Pauta. A presidente do Conselho Municipal Antidrogas (Comad), Laura Dias, afirmou que tal ação só será benéfica se houver fiscalização. Do contrário, ela disse temer que pessoas em situação de rua vivam uma condição análoga à escravidão. “Quem nos garante que estas pessoas, indo para o interior, não vão se tornar escravas? Não é uma ideia boa, a não ser que venha acompanhada por pessoas que se interessam por quem está na rua e não por quem quer fazer higienização nas cidades. O que mais acontece é higienização humana (tirar a pessoa de um local e largá-la em outra cidade)”, falou. Para a terapeuta e docente do Departamento de Políticas Públicas e Saúde Coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Luciana Surjus, a preocupação é outra. “Precisamos avançar na garantia de direitos e não retroagir. Se nossa oferta de cuidado é tirá-la daqui e colocar onde tem um vazio, uma necessidade de força de trabalho, podemos reproduzir a ideia do século XVIII, que é tratamento moral. Enquadro a pessoa, que é desocupada, e vou ocupá-la em um lugar em que vai ser útil. Eu a tiro da condição de sujeito e coloco na de problema e objeto. É um risco. O poder, às vezes, tenta agir com agilidade, para retirada das pessoas da vista. Acontece muito em períodos eleitorais e de grandes eventos. No Rio de Janeiro, quando teve Olimpíada (2016), teve população que sumiu e nunca mais foi vista”, declarou.