Os dados fazem parte de uma nova plataforma pública criada pela Receita Federal (Marcello Casal JrAgência Brasil) Há alguns anos, educação financeira era vista como um tema restrito a economistas, investidores ou especialistas do mercado. Hoje, tornou-se uma pauta social urgente. E não apenas porque o dinheiro continua curto para milhões de brasileiros, mas porque administrar a renda passou a ser uma questão de sobrevivência. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os números ajudam a dimensionar esse desafio. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra que mais de 81% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de dívida, o maior índice da série histórica iniciada em 2010. Quase três em cada dez já têm contas em atraso. Ao mesmo tempo, o Brasil ainda convive com uma profunda desigualdade de renda. Dados do IBGE mostram que cerca de 60% da população vive com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo. Em outras palavras, para a maioria dos brasileiros, cada decisão de consumo pesa diretamente no orçamento familiar. Nesse cenário, falar em planejamento financeiro não significa ensinar alguém a enriquecer. Significa ajudar famílias a evitar o superendividamento, compreender o funcionamento do crédito, escapar dos juros abusivos, organizar prioridades e construir alguma reserva para enfrentar imprevistos. Mas um novo componente tornou essa discussão ainda mais urgente: a explosão das apostas esportivas online, as chamadas bets. O que começou como entretenimento rapidamente passou a comprometer a renda de milhares de famílias, especialmente entre jovens e pessoas em situação de maior vulnerabilidade econômica. O dinheiro que deveria pagar contas, comprar alimentos ou garantir tranquilidade financeira acaba alimentando uma falsa expectativa de ganho fácil. Não por acaso, especialistas e o próprio Congresso Nacional passaram a relacionar o crescimento das bets ao agravamento do endividamento das famílias brasileiras. É justamente por isso que a educação financeira precisa deixar de ser um conhecimento adquirido apenas na vida adulta. Ela deve fazer parte da formação das crianças e adolescentes, de forma permanente, dentro das escolas. Aprender desde cedo conceitos como orçamento, consumo consciente, juros, crédito, poupança e investimentos é tão importante quanto dominar matemática ou língua portuguesa. Independentemente da profissão que escolherem, todos terão de tomar decisões financeiras ao longo da vida. Educar financeiramente é formar cidadãos mais conscientes, menos vulneráveis a golpes, ao consumo impulsivo e às promessas de dinheiro fácil. É preparar pessoas para fazer escolhas responsáveis em um mundo cada vez mais complexo. Num país em que a renda continua apertada para a maioria da população e as tentações para gastar nunca estiveram tão acessíveis na palma da mão, investir em educação financeira deixou de ser uma opção. É uma necessidade. *Arminda Augusto. Gerente de Projetos do Grupo Tribuna