[[legacy_image_294088]] Os palestrantes do A Região em Pauta foram claros ao apontar o motivo que faz o Primeiro Comando da Capital (PCC) não só se instalar na região, como tentar obter um controle territorial. A razão principal é o Porto de Santos, considerado ideal para o crime mais rentável da facção: o tráfico internacional de cocaína. “A cúpula do crime focou no que dá mais dinheiro. Dentro disso, a Baixada tem mais dificuldade por causa do Porto de Santos, que é de onde a droga vai para a Europa”, destacou o deputado federal Delegado Da Cunha (PP). Segundo o parlamentar, ao menos em parte, o cenário atual é consequência de uma estratégia incorreta adotada quase 20 anos atrás. “Depois de ataques do PCC em 2006, governos anteriores trancaram todos os presos na penitenciária de Presidente Venceslau. Quando a cúpula ficou presa junta, com tanto tempo para pensar, tomaram este caminho”. O deputado disse que esse movimento mudou, inclusive, o mercado de entorpecentes. “Naquela época, a Colômbia mandava drogas para os Estados Unidos. Infelizmente, agora, a cocaína feita no Peru e na Bolívia não vai mais para os Estados Unidos. Ela desce para São Paulo e, daqui e de outros portos, segue para a Europa”. Da Cunha também citou por que Guarujá é um dos focos dos criminosos. “Vamos lembrar do Wagner Ferreira Silva, o Waguininho, que morreu, e do André do RAP. Eles foram criados do lado de lá do Porto. Os amigos deles da época de jogar bola, por vezes, trabalham naquela região, operando máquinas, empilhadeiras, trabalhando em terminais. É estratégico”. O deputado estadual Tenente Coimbra (PL) também falou sobre a proximidade do local com o crime organizado. “Temos comunidades a uma quadra da parte portuária, o que facilita o transporte internacional”. Quando citou o destino dos entorpecentes que saem daqui, o parlamentar da Câmara Federal frisou: “Hoje, os europeus vêm questionar como chega tanta cocaína lá. Antes, esta não era a droga que dominava a Europa. Era a metanfetamina”. Diante disso, o representante da Baixada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) trouxe um dado para atestar que, de fato, grande quantidade da substância passa pela Baixada. “Tivemos mais de 17 toneladas apreendidas só em 2022 no Porto de Santos”, declarou, fazendo uma projeção: “A tendência é passar esse número (em 2023). É de se assustar. Obviamente, é de onde sai grande parte do financiamento do crime”, disse Coimbra. PCC: ao menos, desde 2015O chefe de assessoria militar da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), Pedro Luis de Souza Lopes, apontou quando o Porto passou a ser o foco do tráfico internacional. Segundo ele, ao menos oito anos atrás, o PCC começou com uma “atividade sistemática” no local. Ele também citou as dificuldades enfrentadas para combater a exploração do espaço. “A combinação de dados do que acontece nas investigações no Norte do Estado e na Europa nos dá a indicação clara de que este é um problema que se estabeleceu a partir de 2015 aproximadamente. Não acontecia antes? Não tenho como dizer com base nos dados que tenho”. Ele disse que a cúpula da referida facção criminosa é acompanhada. “As lideranças são monitoradas há mais de 20 anos. Todo aparato de inteligência da polícia monitora esse núcleo. Sabemos onde estão, e é fato que alguns dos principais narcoterroristas deste grupo perambulam pelo litoral há algum tempo”. Após a confirmação de que a SSP tem todas essas informações, questionou-se por que os órgãos responsáveis não neutralizaram as ações no Porto nem prenderam os cabeças do tráfico. Lopes alegou: “Existem limitações. Não quero enveredar pelo contexto político, mas estivemos muito próximos de chegar a esse estado de coisas superior quando o Porto quase foi privatizado”. O militar falou que “para nós, de segurança pública, saber efetivamente o que ocorre dentro do Porto é difícil em virtude das competências que não nos assistem, especialmente quando a atividade se concentra no ambiente que é de atribuição do Governo Federal. Agora, é tentar cercar de algum tipo de inteligência o percurso de atividades que desembocam lá”. Polícia atua contra ações nas ferroviasA polícia combate ações criminosas nas ferrovias da região que levam ao Porto de Santos. A corporação trabalha para desmantelar grupos que roubavam composições e cobravam pedágios para que os trens conseguissem passar por Cubatão. O diretor do Deinter 6, Luiz Carlos do Carmo, deu mais detalhes durante o fórum de segunda-feira. De acordo com ele, mais de 200 pessoas já foram presas. Essas pessoas, entre outras coisas, atuavam subtraindo produtos, cortando cabos e forçando descarrilamentos. Para que se tenha ideia, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), apenas nos dois primeiros meses deste ano, ao menos 244 ocorrências foram registradas. Carmo ressaltou que o objetivo dos bandidos era levar dinheiro para o crime organizado. “Havia alta lucratividade”, destacou. O diretor do Deinter 6 também falou que manter os indivíduos presos não foi tarefa fácil. “Eles já tinham passagem por furto e receptação, só que saíam em audiência de custódia. Mas, demos uma visão sistêmica para o Judiciário, para o Ministério Público. Fizemos inquérito, mostrando como operavam. Os juízes e o MP entenderam e começaram a segurá-los”. Como resultado disso, conforme Carmo, “a criminalidade diminuiu, e os trens começaram a entrar no Porto. Começamos a ter paz”, celebrou, mencionando que a melhora evita a perda de receitas por parte dos municípios. “Só Guarujá recebe de ISS (Imposto Sobre Serviços) R\$ 300 milhões. É muito dinheiro. Imagine se o dono da empresa (dos trens) falasse que iria operar em outros estados por não conseguir aqui. O prejuízo seria gigantesco”, afirmou, citando que os trabalhos desta operação, intitulada Ferrovia Segura, seguem em andamento. ]Invasões e moradias irregulares são usadas pelo crimeOutras ações do crime organizado em comunidades foram citadas ao longo de A Região em Pauta. No entanto, a questão habitacional ganhou destaque. Ainda que a maioria das pessoas que vivem nessas comunidades seja de gente em situação de vulnerabilidade social, as invasões também são parte das estratégias de criminosos. A primeira a tocar no assunto foi a secretária-adjunta de Defesa e Convivência Social de Guarujá, Valéria Amorim. Ela afirmou que “muitas vezes, a invasão se dá por pessoas do crime, que loteiam os terrenos”. Esta situação foi confirmada pelo diretor do Deinter 6, Luiz Carlos do Carmo. “Temos muita gente pagando o PCC (Primeiro Comando da Capital) por pedaço de terra”. O especialista citou outra atividade dos criminosos. “Onde existem vias públicas de acesso na comunidade, eles fazem barracos e vão fechando as ruas. Por quê? Porque, além de vender drogas, não existe patrulhamento. Aí, não conseguimos entrar”. Apesar das dificuldades, ele destacou que a postura que tem adotado, até aqui, é colocar abaixo cada residência irregular. “Até mandado de segurança estou respondendo, pois tirei barracos. Mas, tirei dentro da lei. Não pode fechar vias de acesso ao público. Apliquei o Código de Trânsito Brasileiro (CTB)”, disse.