[[legacy_image_300944]] “O preconceito começa pelo meu corpo. Ele chega primeiro na empresa. Quando mando currículo por e-mail e vou para uma entrevista, assim que chego, ali já sou avaliada. Meu corpo é avaliado. A empresa não quer associar este corpo ao seu CNPJ (Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica)”. A declaração é de uma mulher trans, que lutou muito até chegar ao lugar em que está. Mas, também é de alguém que já sofreu e passou por momentos ruins. Taiane Myiake é coordenadora de Diversidade da Prefeitura de Santos. A dificuldade externada é apenas um dos problemas enfrentados por pessoas de grupos sub-representados. Muitos outros foram citados ao longo do fórum A Região em Pauta de setembro, que ocorreu na última terça-feira e teve como tema Inclusão e Diversidade. Dos paineis fizeram parte representantes de empresas, do poder público e da sociedade civil. Há um consenso de que o preconceito e a cultura de muitas organizações ainda existem, mas muitos avanços já ocorreram nas últimas décadas, em especial dentro das empresas, no sentido de abrir oportunidades para esses grupos em seus processos de seleção. A falta de oportunidade especialmente para as pessoas trans acaba levando à busca por negócios próprios, disse o coordenador de Diversidade e Inclusão da B3 (Bolsa de Valores de São Paulo), Alexandre Kiyohara. “Ser trans é uma jornada muito solitária. Quando olho para o meu lado, vejo que a maioria da população trans é de empreendedores. Não vejo CEOs (diretores-executivos). Vejo empreendedor de sua própria empresa. Ainda precisamos avançar”, disse o executivo, ele próprio um homem trans, como fez questão de dizer em sua apresentação inicial. Profissional de um setor competitivo e voraz, como é a Bolsa de Valores, Alexandre pediu uma visão coletiva para a inclusão. Nada de disputas sobre quem oferece mais ou menos chances. O importante, disse, é que todos deem as mãos para construir uma sociedade melhor. “Diversidade é a única pauta que não precisa ter concorrência no mercado. A gente precisa ‘lançar’ juntos”, destacou. Entretanto, engana-se quem imagina que estes indivíduos, sejam eles negros, mulheres, LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência (PCD) ou qualquer outro, querem ser tratados com privilégios. O que desejam, na verdade, é serem vistos como qualquer outro ser humano, ainda que haja diferenças. “As pessoas são capazes. Esqueçam a identidade delas. Vejam o potencial. Tem gente boa aí, que não é aproveitada”, lamentou Taiane.