(Imagem Ilustrativa/Divulgação) Há um componente dramático e cruel nos relatos das vítimas de violência doméstica que é tão ou mais doloroso que a própria agressão física: a queda livre da autoestima, a sensação de que seu valor pessoal é nulo, sua capacidade de ser feliz inexistente e que sua própria existência precisa ser colocada em xeque. Os agressores, em geral, diminuem a estatura social das vítimas a tal ponto que, para muitas, a violência é naturalizada e inserida no cotidiano como parte de uma rotina. Quebrar esse ciclo é o desafio imposto a elas, e não importa a qual classe social e econômica pertencem. As redes sociais e a imprensa escancaram os casos. Os dados oficiais provam que não são fake news e, pior, a curva é ascendente tanto de agressões como de feminicídios. Só na Baixada Santista, em 2025, foram 12 feminicídios, aumento de 100% em relação a 2024. A reação vem de todos os lados e é positivo que assim seja, mas mais que criar mecanismos de punição severa aos agressores, legislação rigorosa e rede de proteção e apoio a essas mulheres e seus filhos, é preciso dar alguns passos para trás e identificar de onde vêm os primeiros sinais. Até décadas atrás, dizia-se que a família patriarcal criara esse modelo de homem que subjuga suas mulheres, cria canais de dependência financeira e emocional. Aos meninos nascidos nessas famílias, cabia seguir o modelo e colocar a mulher no lugar certo da relação: o mais baixo e vil. Ocorre que hoje as famílias não são mais assim. Por que, então, meninos, adolescentes e jovens adultos seguem praticando tantos tipos de violência contra namoradas, noivas, mulheres? Onde estamos falhando na introdução de valores mais humanísticos, civilizados e de respeito entre homens e mulheres? A resposta, de novo e de novo, está na educação, o que leva à conclusão de que o tema da violência doméstica precisa, sim, ser tratado dentro da escola e também na criação dos filhos. Aos meninos, que aprendam que “não é não”. Às meninas, que identifiquem os primeiros sinais e jamais permitam que violem seus valores mais íntimos e sagrados. Ana Kelly, a menina que foi abusada na infância, na adolescência e, já casada, também pelo marido, demorou mais de 30 anos para quebrar esse ciclo. Pelas mãos de uma rede de apoio poderosa e eficiente, formou-se cabeleireira e manicure. Aos três filhos desse casamento, ensina que o exemplo dela não deve ser reproduzido nem pelas duas meninas e muito menos pelo menino. “Elas precisam estudar e ter independência financeira”, diz. No salão que mantém na garagem de casa, Ana Kelly abriu um brechó, seu mais novo negócio. “Me identifico muito com o brechó. Cada peça que vendo penso assim: essa peça vai ter uma segunda chance na vida, assim como eu estou tendo também”. E é sobre isso. Nada mais. *Arminda Augusto, gerente de Projetos do Grupo Tribuna