Ana Kelly, Luciana Torres e Priscila Censin (Alexsander Ferraz/ AT) A intolerância nem sempre tem voz tão clara. Mas grita alto na alma de quem passa por um cotidiano de violência, agressões e risco de morte. Quando a coragem de narrar trajetórias soa forte, o som da luta e recomeço fica ainda mais audível. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quem esteve no auditório do Grupo Tribuna na última segunda-feira (30), pôde ouvir três mulheres vítimas da violência doméstica. A empreendedora Ana Kelly, a bacharel em Direito e bancária Luciana e a consultora empresarial, empreendedora e escritora Priscilla Canesin talvez nunca se conhecessem. Mas trazem, nas suas vivências, a dor e a busca por tempos melhores. Para elas e todas as outras mulheres. “Hoje está muito mais fácil você buscar entidades como Mulheres SA, como ligar no 180, com os canais de denúncia, isso está muito mais facilitado. É fazer isso com cuidado. A pessoa não pode ser mais exposta ou ser mais vitimizada do que ela já está passando”, recomenda Priscila. Luciana pondera que a vítima precisa contar com alguém de confiança. “É preciso cuidado. A pessoa não pode ser mais exposta ou ser mais vitimizada do que ela já está passando”. Ana Kelly, por sua vez, reforça: a reconquista da dignidade é feita um passo por vez. “Desde adulto até criança, a gente tem que passar confiança para a pessoa se sentir confortável, porque, quando foi o meu momento, eu não tive ninguém”. Agora, elas têm o mundo. ANA KELLY BARBOSA MOREIRA Empreendedora “Minha trajetória com a experiência da violência começou aos meus 10 anos. Sofri um abuso por um vizinho, um idoso. Ele me molestava e eu não sabia o que era por ser criança. Ele vinha, me oferecia uma bala e eu aceitava, porque era morador da rua há muito tempo. Passava a mão em mim, me abraçava e eu não via maldade. Eu sentia que tinha algo errado porque meus pais não me abraçavam assim, mas eu não tinha certeza. Só que eu não podia falar para ninguém. A partir daí, comecei a ser uma criança retraída, que já não queria mais sair na rua e minha mãe foi notando. Nisso, comentei com ela e a gente fez um boletim de ocorrência. Depois, sofri um estupro aos 13 anos. Também fui pela lei, fiz tudo corretamente, mas achava que nunca precisava de ajuda psicológica, porque achava que era humilhante, que tinha que conviver with aquilo. Passou um período e conheci o pai da minha filha. Vivi um relacionamento abusivo, tóxico. Todos os tipos de abuso: agressão, estupro dentro de casa, agressão, quebrar as coisas, não ter nada, não poder sair na porta. O psicológico foi o pior. Tomei uma atitude também, já sendo mulher, fui à Delegacia da Mulher, fiz o BO e tive o amparo do projeto Mulheres S.A, a quem sou muito grata. Eu não tinha perspectiva de vida, não tinha profissão. Eu fazia faxina, mas não tinha nada certo. Sempre me via como uma mulher feia, indesejada. Hoje, me enxergo como mulher. Hoje, estudo tricologia (área da dermatologia). Eu me achei, eu me encontrei. Eu sou manicure, eu montei um brechó. Por quê? Ele dá uma segunda chance às peças. Eu me identifico muito, pois tive a segunda chance. Ninguém abusa mais de mim” LUCIANA TORRES Bacharel em Direito e bancária “Eu vim de um lar desestruturado, apesar de ter uma mãe e um pai casados. Meu pai sempre foi um homem violento, que batia na minha mãe - não era um tapa, mas agressões muito violentas, ao ponto de dar um golpe de capacete, quebrar uma costela, abrir a porta e jogá-la para fora. Minha mãe tem 1m50, é franzina. Eu vi aquilo, era criança e não podia fazer nada (...) Quando tinha 12 anos, minha mãe estava chegando em casa e meu pai tentou matá-la. Fui agredida pelo meu próprio pai. Isso foi um trauma que ficou na minha vida e que talvez ali eu deveria ter tratado. Apesar de ter conhecido homens incríveis, eu nunca consegui casar. Tive um último relacionamento, porque eu não sei se me permito ter um próximo. Vivíamos juntos. Montamos uma empresa juntos e iniciamos um trabalho. Ele tinha atitudes que não condiziam com um relacionamento normal, mas eu não conseguia definir que aquilo era uma agressão. Me chamava de ‘filha da p...,’ , vamos ouvindo aquilo e a gente vai normalizando. Vai passando, você vai vendo que bate, dá um soco na mesa, fala mais alto, te empurra e você vai normalizando, você vai deixando para lá. Em dezembro de 2019, ele falou em separação. Tudo certo. Ele voltou e falou, ‘Não é que eu não gosto de você. É que eu tenho uma mulher grávida’. Em fevereiro de 2020, descobri que eu também estava grávida e iniciou a pandemia. Nos trancamos no apartamento, transferimos tudo que podia da empresa para lá, e ali, começou o caos. Até o dia em que ele me agrediu de forma muito animalesca e eu perdi meu filho. Eu chamei a polícia naquela ocasião e ela não subiu. Ele se livrou da polícia lá embaixo. No fim, foi absolvido.” PRISCILA CANESIN Consultora empresarial, empreendedora e escritora “Estou em Santos há quatro anos. A Cidade é como um refúgio, uma fuga após o final do meu último ciclo de violência, de um relacionamento de oito anos, que eu vivi em São Paulo. De fazer boletim de ocorrência e o policial falar para mim assim, ‘Ele é meu amigo, não vai fazer nada’. Ou do meu agressor dizer ‘Vou te machucar, mas em lugares que você vai fazer o exame e não vai aparecer’. E isso aconteceu. Fui fazer o exame no IML e não tinha como provar, porque ele batia na cabeça, ele apertava os ossos. Foi um relacionamento de oito anos, onde eu tive uma filha e eu não consegui ler os primeiros sinais. Teve duas tentativas de feminicídio, tentei fugir duas vezes, sendo a última a da minha vinda para cá. Depois de muita terapia e me especializar em comportamento humano, entendi quais eram os gatilhos do porquê estava num relacionamento assim, me sujeitava. Esse comportamento se repete em outros cenários, sejam sociais e em empresas. E o meu ciclo, ele começava muito antes disso. Ele começou lá atrás com as minhas avós (...) Não conheci cenários de respeito, só a violência desde criança. A minha mente foi a minha proteção. Essa história toda está no livro “43 Luzes”, que são explicações, inclusive profissionais, de situações de violência com outras mulheres em ambientes corporativos também. Porque, quando a gente está nessa situação, é julgada. Se quer ajudar uma mulher, não fale para ela não estar nessa situação porque ela quer, porque nenhuma mulher busca isso. Outro detalhe: um pai que toma banho com uma filha não é normal. Não adianta julgamento, mas escuta ativa, paciência e uma rede de apoio”.