(Imagem ilustrativa/Pexels) Pluralidade gera riqueza cultural (Gustavo Klein, jornalista) Cultura é a lente pela qual uma sociedade expressa sua visão de mundo e dialoga com ele. Não sou capaz de imaginar minha trajetória de vida sem as provocações e as reflexões de um bom filme, um livro ou uma canção. Também não consigo pensar na minha Santos sem aqueles que a traduzem de forma plena como o poeta Vicente de Carvalho, as palavras de Martins Fontes ou Flávio Amoreira, a música de um Julinho, meu colega de página nesta edição, do choro da Débora e do Canduta, do saudoso Gilberto Mendes ou as iniciativas de um José Luiz Tahan, um André Azenha, um Pedro Norato e até quem faz da arte um instrumento de inclusão, como Renato di Renzo e a Cláudia Alonso. Vivemos há décadas um paradoxo que ameaça qualquer visão otimista de mundo. Quanto maior a oferta de cultura, menor o interesse pela pluralidade. Não se trata de criticar quem ouve este ou aquele estilo musical ou assiste a certos tipos de filme. A preocupação se dá porque se ouve ou assiste APENAS àquilo. Quando se visa apenas o entretenimento e o lucro, caminhamos para a pobreza e a indigência intelectual, resultado direto da falta de investimentos não apenas para promover a cultura mas para despertar o interesse e gerar demanda por ela em todas as camadas da população. Uma criança que cresceu ouvindo apenas funk dentro de casa e não teve a oportunidade de descobrir sequer a existência de outros gêneros vai reproduzir o padrão durante toda a vida. E não podemos cobrar de ninguém algo que nunca lhe foi dado. Os santistas são mais do que privilegiados. Temos quatro grandes teatros, salas de cinema suficientes, muita gente boa fazendo e vivendo cultura e promovendo o jeito santista de viver e ver o mundo. Não nos faltam festivais de arte - Tarrafa Literária, Santos Film Fest, Festival de Cenas Teatrais, Curta Santos, Festival Santista de Teatro, Santos Jazz Festival, Santos Comic Expo e incontáveis iniciativas públicas, que priorizam o entretenimento mas também reforçam nossa identidade e história. Temos uma orquestra sinfônica que nos orgulha com sua qualidade, duas escolas públicas de dança, bibliotecas públicas e o trabalho sensacional do Leia Santos, que promove acesso à leitura a todos. Contamos com espaços dedicados à promoção e à discussão da cultura em todas as suas manifestações: Casa das Culturas de Santos, Estação da Cidadania, Livraria Realejo, o Centro Cultural Patrícia Galvão. Cito um exemplo exitoso: a Sinfônica de Santos realiza, em parceria com a Secretaria de Educação, um programa maravilhoso, o Do-Re-Mi, no qual o carismático Guga Petri, em um ensaio, conversa com estudantes da rede pública sobre os instrumentos, a obra e o compositor em questão. O impacto àqueles jovens de ouvir uma orquestra ao vivo e, melhor, dialogando, por vezes, com a música a que ele está acostumado a ouvir, não tem preço. É preciso despertar o interesse e a curiosidade pelo conhecimento e pela pluralidade cultural como forma de termos uma população culturalmente rica, com visão de mundo ampliada e comprometida com o mundo em que vive. Os exemplos positivos estão aí para serem fortalecidos e ampliados e esta é uma missão de cada um de nós! Cultura é tudo. Tudo é Cultura (Julinho Bittencourt, jornalista e músico) Há uma enorme, irremediável e eterna confusão entre Arte, Cultura e Entretenimento. São três conceitos completamente diferentes que, assim como os círculos de um gráfico, se encontram aqui e acolá. A Cultura é sempre o ponto de partida de todos eles e de muitos outros conceitos. Entretenimento é Cultura, Arte é Cultura, mas a recíproca nem sempre é verdadeira. Cultura nem sempre é arte e, tampouco, entretenimento. A grosso modo, Cultura é o conhecimento que se transmite de uma geração para a outra e constrói tudo o que somos, o modo como vivemos etc. Os conhecidos carrinhos de pastel que a gente encontra em muitas esquinas de Santos, por exemplo, são uma deliciosa herança cultural dos nossos irmãos que vieram do Oriente para cá. O mesmo pode-se dizer sobre as padarias, tradição do Sudeste brasileiro trazida pelos nossos patrícios portugueses. Moda, movelaria, construção civil, enfim, tudo o que se olha em volta é estruturalmente Cultura. Em todos esses objetos e maneiras de ser e estar estão impregnados os que vieram antes de nós. São presentes que eles nos deixaram e que nós transformamos, adaptamos aos novos tempos e entregamos para os que virão e assim sucessivamente. Há um hábito, sobretudo em pessoas pedantes, de se afirmar que “o povo brasileiro não tem Cultura”. Não há, não pode haver e nunca haverá um povo “sem Cultura”, como se pode notar pelos vários exemplos acima. E basta uma olhada ao redor para se perceber que o nosso povo é, sim, impregnado de Cultura. Um exemplo notável disso é o português italianado dos sambas geniais de Adoniran Barbosa, repleto de frases como “nós fumo” e “nós vortemo”. Alguém é capaz de arriscar que Adoniran “não tinha Cultura”? Mas sim, como já dito anteriormente, Arte é sempre Cultura. Entretenimento também. O pastel chinês do exemplo acima é Cultura, mas não é arte. Um parque de diversões é Entretenimento, é Cultura, mas passa longe da elaboração artística. Grandes obras de arte, como um denso livro ou uma ópera de cinco horas de duração são, antes de entretenimento ou pura diversão, peças fundamentais para a formação dos indivíduos. Ver um jogo de futebol entre amigos com uma feijoada e cerveja reúne três elementos fundamentais da Cultura e também é puro entretenimento. A gente pode até brincar que a pessoa que cozinhou é um artista. Que tal gol de determinado craque foi uma “obra-prima”. Mas são apenas figuras de linguagem. É curioso pensar que os cadernos de Cultura dos jornais - e agora sites - tratam eminentemente de Arte. O leitor vai a eles para saber de lançamentos de livros, filmes, álbuns musicais, exposições, balés e até mesmo para saber o que fazer no final de semana. Novamente aí aparece a confusão entre a Cultura e o Entretenimento. E, é claro, a Arte. É óbvio que a língua é viva e a própria definição de Cultura pressupõe isso. Os significados mudam, são adaptados, transformados, sujeitos aos caprichos do mercado. Mas é sempre bom voltar ao início de tudo, não deixar que escapem alguns conceitos, sobretudo aqueles que nos estruturam. E a Cultura é fundamental. Posto isto, não seria exagero imaginar que um jornal deveria ser todo ele um enorme caderno de Cultura. E que, lá dentro, viriam cadernos menores com os subgêneros que são, todos eles, sem exceção nenhuma, Cultura: política, economia, turismo, entretenimento e por aí afora. Cultura e literatura: uma conexão vital (Taís Curi, jornalista, escritora e presidente da Academia Santista de Letras) Nada nos parece mais adequado para entender a diversidade cultural, as dinâmicas sociais e as questões universais da existência humana do que a literatura. Ela funciona como uma espécie de espelho da cultura de uma sociedade, refletindo suas complexidades, valores e transformações ao longo do tempo, além de desempenhar papel fundamental na sua formação. Partindo-se da definição de que cultura é um conjunto de hábitos, crenças, valores e práticas característicos de um grupo social, e que a literatura é uma forma de arte que utiliza a linguagem para expressar ideias, emoções e narrativas, a junção de ambas é vital para a melhor compreensão do cotidiano. As obras literárias são veículos para a educação e a preservação do conhecimento cultural. Capturam o espírito do tempo e oferecem uma visão crítica sobre os costumes, as tradições e os desafios enfrentados pelas comunidades. Abordam temas históricos, filosóficos e sociais, permitindo que as gerações futuras compreendam seu passado. Se tomarmos como exemplo o romance "Dom Casmurro", veremos que Machado de Assis não nos traz somente uma história de amor e ciúme, mas também questões de classe, identidade e moralidade no Brasil do século XIX. Ao longo da história e de modo geral, a literatura tem contribuindo para a formação da identidade cultural dos povos, possibilitando que cada um deles se reconheça e se distinga dos demais. Paralelamente, os livros inspiram movimentos sociais, influenciam políticas públicas e provocam discussões sobre temas relevantes. Em muitos contextos, a literatura assume a forma de resistência cultural. Durante períodos de opressão ou censura, a voz dos escritores tem sido de grande valia para preservar identidades culturais ameaçadas. A literatura abre espaço, igualmente, para que grupos minoritários expressem experiências e identidades, permitindo que suas histórias sejam ouvidas e reconhecidas. E uma vez levada para ambientes educacionais, essa produção multicultural vai ensinar e sensibilizar os alunos para a equidade, a empatia, a justiça social. Trata-se, portanto, de importante ferramenta para combater preconceitos e estereótipos culturais. Vale destacar que o vasto e diversificado campo da literatura, abrangendo diferentes gêneros, estilos e vozes, é permeado por autores de diversas origens, que expressam perspectivas culturais muito próprias, enriquecendo o panorama literário global. É o caso de escritores que reconhecem a vitalidade e a complexidade contemporânea da cultura dos povos originários do Brasil, deixando de apresentá-los como relicários do passado, dentro da costumeira tendência romântica e estereotipada. Não podemos esquecer, por fim, que muitos relatos literários têm suas raízes na tradição oral, onde histórias eram passadas de geração em geração. Ao serem transformadas em textos, essas histórias tornaram-se acessíveis a um público mais amplo, garantindo sua continuidade e os valores culturais nelas envolvidos. A literatura é, assim, muito mais do que um mero entretenimento. Ela é um instrumento poderoso para a valorização e perpetuação das culturas. Cultura do conhecimento não é um luxo (Sergio Willians, Jornalista, escritor, historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos) Cultura é um termo amplo e multifacetado, que envolve diferentes formas de expressão humana e a construção do saber. E, em um país tão diverso como o Brasil, sua definição se torna ainda mais rica e complexa. Contudo, cultura não se restringe tão somente ao fazer artístico – nas artes cênicas, no cinema, na dança, na literatura, na música, nas artes visuais, ou em quaisquer outras manifestações – mas também é a base que as sustenta: o conhecimento. É aqui que entram museus, bibliotecas e centros de memória, pilares fundamentais para a construção de repertórios e para o fortalecimento da identidade coletiva. Infelizmente, em praticamente todo o território brasileiro, esses espaços enfrentam a dura realidade do abandono e da falta de investimento. O incêndio do Museu Nacional, a tragédia no Museu da Língua Portuguesa e a situação precária de tantas bibliotecas públicas e centros de memória refletem o descaso histórico com esses templos do conhecimento. A ausência de políticas públicas consistentes e a falta de financiamento adequado enfraquecem a cultura do conhecimento, e isso repercute diretamente na sociedade. Afinal, sem a preservação e disseminação do saber, como formar cidadãos plenos de cultura, capazes de interpretar e contribuir para o mundo ao seu redor? Quando falamos de cultura, falamos da capacidade humana de compreender, interpretar e transformar a realidade. Assim, não basta estimular a produção artística se não há uma base sólida de conhecimento para sustentá-la. Museus e bibliotecas não podem ser encarados como meros depósitos de objetos ou livros; são lugares de encontro, aprendizado e reflexão. Eles são a ponte entre o passado e o futuro, oferecendo ferramentas para que outras formas de expressão cultural floresçam. Como presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, tenho vivenciado de perto os desafios para manter viva a cultura do conhecimento em nossa cidade e região. Há mais de uma década, venho lutando para requalificar o espaço físico do IHGS, ampliando seu alcance e permitindo que ele cumpra, de fato, seu papel social de maneira mais digna. Essa batalha não é apenas por um prédio restaurado, mas por um compromisso maior: abrir as portas para a população, democratizar o acesso à memória e ao saber, e reafirmar o valor desses espaços dentro da nossa sociedade. Ainda que o Brasil continue a seguir na contramão, ignorando o potencial transformador de muitas de suas instituições culturais, precisamos resistir. Investir em museus, bibliotecas e centros de memória é investir no futuro. É reconhecer que a cultura do conhecimento não é um luxo, mas uma necessidade. Pois, apenas com uma base sólida de saber podemos construir uma sociedade mais justa, criativa e preparada para os desafios que virão. E cabe a nós decidir se queremos preservá-la ou deixá-la sucumbir à negligência.