“Podemos ter uma relação de vida contributiva, jamais submissa”, diz Cortella (Sílvio Luiz/AT) O professor, escritor, pensador e filósofo Mario Sérgio Cortella é o tipo de pessoas que prende a atenção de qualquer interlocutor. Com pensamentos claros e lucidez na análise dos conceitos da vida, ele participou do último fórum A Região em Pauta, cujo evento ocorreu na segunda-feira passada, no Teatro Guarany, no Centro de Santos, onde reafirmou seu amor por Santos - o clube e a cidade. Em conversa exclusiva com A Tribuna, ele falou sobre os desafios da educação, a força da fé, e o conflito entre os universos digital e real. Confira: Como foi reencontrar Santos, e a receptividade no evento? Uma das coisas mais gostosas é quando as pessoas se juntam para celebrar o que merece ser celebrado. Quando você agrega 100 momentos, é para fazer com que a vida coletiva seja melhor. Claro que o número 100 ele é um número meio simbólico no nosso cotidiano, mas que traz à tona a vitória da esperança em relação àquilo que é a dificuldade, o redemoinho, aquilo que às vezes se chama de ciclone extratropical, tudo que mexe conosco. Por isso, ser um dos partícipes desse momento, para mim, é especial. A ideia do A Região em Pauta é fomentar debates e troca de ideias, em busca de um bem comum. O senhor entende que, de modo geral, perdemos um pouco da capacidade de dialogar de forma compreensiva com o outro? Durante algum tempo, na história, especialmente no Ocidente, se utilizou muito uma palavra para designar quem vivia do outro lado do rio, isto é, eu moro deste lado e quem vive do outro lado do rio é meu adversário. E a palavra que foi utilizada por isso é rival. Quando nós começamos a nos olhar mais como rivais do que de fato como pessoas que convivendo no mesmo lugar, no mesmo tempo. Podemos ter uma relação de vida que seja contributiva, jamais submissa, mas que seja capaz de trazer as diferenças, não tornar isso uma impossibilidade de presença. E dou um exemplo usual, quando algumas cidades deixaram de ser uma comunidade de vida e se tornam agrupamento. Quando você tem pessoas juntas, pode ter dois resultados: ou é um agrupamento, que é gente junta, ou é comunidade, que é gente junta, que se cuida junto. Um ônibus lotado é um agrupamento. Ele se tornará uma comunidade quando as pessoas ali têm interesses comuns e mecanismos de autoproteção. Quando eu só tenho noção de quem são meus vizinhos no dia em que aparece no elevador um cartaz falando sobre Missa de Sétimo Dia, é sinal de que a gente se distanciou imensamente da ideia de comunidade. Se nós perdermos isso, e é evidente que eu não sou catastrófico, mas também não sou triunfalista a ponto de imaginar que dará certo se a gente nada fizer para que assim aconteça. Por isso, um caminho difícil, mas não impossível. A gente vive em tempos, aparentemente, de coisas mais rápidas, mais frágeis, que não ficam na memória por longo tempo. Como vê o confronto entre a cultura real, a que nos marca e levamos adiante, da cultura digital que tem esse quê de efemeridade? O mundo digital tem uma fluidez grande. Ele é aquilo que Zygmunt Bauman (sociólogo polonês) chamava dos tempos líquidos, em que tudo passa com muita pressa. E eu faço uma distinção entre pressa e velocidade. A velocidade é uma virtude, a pressa é um defeito. Fazer apressadamente é diferente de fazer velozmente. Chegar em São Paulo, que é a cidade onde moro, velozmente é diferente de chegar apressadamente. Nesse sentido, o mundo digital favorece a pressa, não necessariamente a velocidade. Ele traz velocidade também, mas tem uma ênfase maior na pressa. Haja vista que as pessoas percorrem seus mobiles ou seus momentos de espectadores com uma incapacidade de paciência muito grande. Nessa hora, é necessário não que a gente recuse a tecnologia, mas que a gente retarde o uso obsessivo por esse tipo de mecanismo que produz em nós uma redução da capacidade mental. Nessa hora, é claro que a gente não quer descartar a tecnologia, mas ela tem que ser complementar a nossa vida e não substitutiva. Cortella: “O número 100 é meio simbólico no cotidiano, traz à tona a vitória da esperança em relação à dificuldade” (Sílvio Luiz/AT) Recentemente, foi publicado um dado que se prevê para o futuro aí um apagão de professores até 2030, pela falta de pessoas que queiram ingressar nesse ofício. Como analisa isso? É uma atividade muito difícil, um suplício em vários momentos. Eu sou professor de universidade há décadas, portanto meu nível de desconforto nisso é muito menor. Mas meus colegas, os mais de 2 milhões e meio que atuam na educação básica no Brasil, sendo 80% deles na educação pública, são heroicas naquilo que fazem. Porque elas não desistem de algo decisivo que é cuidar das novas gerações, haja vista durante o período pandêmico, quando uma parte das crianças teve que ficar em casa pela necessidade de proteção. Parte das famílias não sentiu impacto apenas em ter que dar conta daquele tipo de cuidado, mas também o quanto que é trabalhoso ter esse caminho. Hoje, o mundo digital favorece algumas estruturas de aprendizagem, de conhecimento favorece estruturas de ensino, mas a escola presencial é uma experiência socioambiental que é indecisiva. O fato de eu conseguir aprender a distância não significa que substitua as minhas relações de presença e convivência. Eu te dou um exemplo concreto. Peça para alguém explicar o gosto de uma laranja. Ele pode até dizer, mas para entender o gosto de é apenas experimentando. Então, aquilo que é a vivência, ela tem que ser lidada. Hoje, há um desestímulo à atividade docente por conta das condições de trabalho, salariais e o fato de que uma parcela das famílias decidiu terceirizar o processo educativo e imaginou que a escola tinha toda a responsabilidade. Não se deve confundir educação com escolarização. Escolarização é uma parte da educação. A educação é feita pela família, pela família, pela igreja, pelo clube, pela sociedade, pela empresa. Escolarização é um pedaço da educação. Professoras e professores cuidam de escolarização. quatro ou seis horas por dia. As outras 18 estão mergulhadas num processo educativo que não tem necessariamente a responsabilidade original da docência. Sem entrar no mérito dessa polêmica sobre Nossa Senhora Aparecida, como vê a fé atualmente? Ela é um ponto de conforto? Rubem Alves, um grande filósofo, teólogo, foi pastor presbiteriano, um dos maiores educadores do Brasil. Ele escreveu um dia um livro chamado O que é a Religião, e nesse livro, que não é sobre nenhuma religião exclusiva, o conjunto da fé, trouxe um tema, que é o exílio do sagrado. A ciência avançou de modo avassalador no século XIX, e mais ainda no século XX com tecnologia, e havia uma suposição de que a religião ficaria escanteada, exilada. A questão é que ciência e tecnologia não lidaram com a solução de algumas questões, que são essenciais da vida: o sentido da vida, a origem do mal, por que a dor, qual é a fonte do sofrimento. E, por isso, a religião não pereceu, embora haja novas formas de prática religiosa. Ela não perdeu o seu território, tem seu lugar. Evidentemente que uma religião, se ela serve para elevar a vida de cada pessoa, ela é construtiva. Se é uma religião de dominação, de força autoritária sobre outras pessoas, não cumpre aquilo que em princípio seria a sua função. Eu tenho um livro só sobre isso chamado Deus nos Livre, sobre religião, religiosidade e espiritualidade. Por isso, a fé tem seu lugar, mas não necessariamente a fé é prática religiosa. Várias vezes a fé é prática de religiosidade, isto é, de reverência à vida. Uma última pergunta: o que o Mario Sérgio Cortella, de 2026, falaria para o Mário Sérgio da infância, sobre a trajetória dele, o que deu certo, o que pode corrigir para chegar na idade e no ponto que o senhor chegou? Se eu retorno 66 anos da minha vida - tenho 72 - estive em Santos pela primeira vez há 66 anos. Se eu retorno ao tempo que eu vivi em Londrina e para cá vim, eu diria ‘Que bom, não desistiu. Que bom, aprendeu. Que bom quando fez bobagem, buscou corrigi-las. As fez em profusão, mas não deixou que elas fossem maioria em relação às não-bobagens’ O que eu diria é: ‘Olhe para o caminho feito não como forma de fazê-lo do mesmo modo, mas como forma de iluminar aquilo que precisa vir. Afinal de contas, tal como essa região tem vários faróis, a finalidade do farol não é indicar o caminho, é alertar para o perigo. Por isso, preste atenção nos faróis’.