[[legacy_image_286565]] A ciência trabalha buscando uma cura para as demências. Embora ainda não se saiba quando esta solução vai ser encontrada, uma coisa é certa: boas práticas são suficientes para, no mínimo, adiar o aparecimento de doenças neurodegenerativas. Por isso, os especialistas presentes no fórum a Região em Pauta, em Santos, na última terça-feira (1), incentivaram o desenvolvimento de hábitos saudáveis. Conforme o médico Acary de Souza Bulle, o cérebro passa por mudanças ao longo da vida, que podem resultar no surgimento de patologias como o Alzheimer, condição que gera perda de memória e confusão. Porém, alguns cuidados são capazes de retardar este processo. “Esta doença está relacionada com as nossas características de vida. As condições que aumentam o risco são idade, história familiar, doenças controláveis, como da tireoide, traumas (na cabeça) e baixo nível educacional. O que reduz o risco é leitura e evitar substâncias como o fumo. Uma dieta adequada, variada e rica em Ômega 3 (também ajuda). Além disso, o melhor remédio é atividade física”, destacou ele, que também é neurologista e professor da Faculdade de Medicina da Unifesp. A assessora especial para Longevidade na Prefeitura de Santos, Ana Bianca Ciarlini, também destacou que “alguns fatores são determinantes (para desenvolver doenças). Vinte e cinco por cento são herança genética, enquanto 75% são escolhas”, citou, falando que atividades, como a dança, são altamente benéficas para a pessoa da terceira idade se exercitar. Básico diante dessas colocações, a psiquiatra e psicogeriatra do Hospital das Clínicas Natália Rossi afirmou que a população deve parar de se preocupar com um remédio que resolva todos os problemas, a fim de se concentrar em criar um estilo de vida saudável. “Será que estamos fazendo o básico? O básico é tudo que podemos fazer”, falou, apontando, logo na sequência, cuidados que devem receber total atenção, “É ter hipertensão e tratar adequadamente. Se tem diabetes, controlar. Estou sedentário? É importante fazer atividade física. Existem estudos que mostram ganhos e adiamento do início de demência pela atividade física”, salientou. Buscar conhecimentoEla apontou mais uma prática válida para prolongar a saúde mental. “Quando buscamos conhecimento, sendo curioso, para entender e aprender novas atividades, usar recursos manuais... Não que deixe de aparecer uma doença se a pessoa tiver predisposição, mas adiaria o início do quadro. E, quanto mais tardio é (o aparecimento da patologia), mais indolente tende a ser, mais leve e mais lenta a evolução”, pontuou. Autonomia é fundamental para o idosoA psiquiatra Natália Rossi disse que um envelhecimento saudável passa pela autonomia da pessoa idosa. Até por esta razão, a especialista afirmou que os parentes devem deixar de lado a “hiperproteção”, preservando a independência do senhor ou da senhora. No entanto, isso precisa ser feito sem deixar de lado a segurança. A profissional, que também é psicogeriatra do Hospital das Clínicas, foi bem clara ao falar que há benefícios para gente da terceira idade que executa suas tarefas. Por isso, esta “liberdade” só pode ser retirada se alguma prática oferecer riscos. “Acho bom caminho, baseado na literatura, estimular sempre o idoso a preservar sua autonomia. É não dizer: ‘Mamãe, você não vai mais pagar as contas, porque já envelheceu’. Se ela se sente capaz de fazer aquilo, se é capaz e não está se prejudicando, não tem outros prejuízos cognitivos, nem coloca a vida dela e de outros em risco, é sempre favorável deixar que faça todas as tarefas que estejam dentro de uma possível segurança”, assegurou. IsolamentoOutra coisa que costuma aparecer em consultórios é a ideia de que é melhor deixar a pessoa da terceira idade mais reclusa em casa, distante de aglomerações. Natália falou o que acha sobre o tema. “É delicado ter isso como conduta estritamente médica, porque depende de muitos fatores: como o idoso está em mobilidade, risco de saúde física e clínica, se tem doenças imunossupressoras que conferem risco maior de estar em contato com outras pessoas? Juntos (com a família), vamos chegamos a uma conclusão”, declarou. Por fim, ela reiterou que se deve “tomar cuidado com a superproteção. Queremos controlar todos os riscos, mas não controlamos quase nada”. Alzheimer: remédio exige cautelasRecentemente, laboratórios de outros países divulgaram resultados de testes com medicamentos que retardam o declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer. Um deles é o donanemab, da farmacêutica americana Eli Lilly. Embora os estudos apontem para uma melhora dos quadros, Natália Rossi pregou cautela. Segundo a psiquiatra, vários são os motivos para que qualquer empolgação seja freada. Uma delas é o custo dos remédios. “São US\$ 250 mil por ano e é só particular — o sistema público não custeia. Então, não temos, hoje, muitas condições de acesso a estes tratamentos”. Não bastasse isto, a especialista ressaltou que, além de caras, as substâncias podem não surtir o efeito desejado. “Eles (medicamentos) teriam de ser usados em fases muito iniciais. Talvez, em um quadro já diagnosticado, de leve para moderado, já seja questionado o ganho que se teria com a medicação. Muitas vezes, quando o idoso busca ajuda, já não está em quadro tão leve”. As preocupações da especialista também passam pelos possíveis efeitos colaterais. “Alguns estudos mostram risco maior de sangramento cerebral com estes medicamentos”. Apesar de todas as suas ponderações, Natália disse achar que, no futuro, haverá remédios que trarão resultados positivos. “Tendo uma visão bastante otimista, achamos que, nos próximos cinco ou dez anos, teremos medicamentos que interfiram na evolução da doença”.