José Wilson Nunes Vieira de Andrade disse que a educação médica é um gargalo a ser sanado e que a falta de conhecimento afasta pacientes dos possíveis tratamentos (Adobe Stock) A classe médica, em sua maioria, não sabe trabalhar com remédios oriundos da Cannabis. Esta afirmação é do médico e vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, José Wilson Nunes Vieira de Andrade. Santos tem verba separada para capacitação. (veja mais abaixo) Participante de A Região em Pauta, o especialista disse que este problema nasce nas universidades. “Nenhuma faculdade, no Brasil ou fora, tem, em sua grade curricular, o ensino do sistema endocanabinoide. Os profissionais se formam e nunca ouviram sobre o assunto. O preconceito anda de mãos dadas com a falta de conhecimento. Assim, o médico não conhece, e sua primeira reação é falar que não funciona”, declarou. O convidado do fórum destacou que esse problema precisa ser solucionado. Do contrário, de nada adiantarão avanços no sentido de distribuição de medicamentos com canabidiol (CBD) ou outras substâncias. “A educação médica é um grande gargalo a ser sanado”, reiterou. De acordo com Andrade, por conta da falta de especialistas, os pacientes se veem forçados a procurar médicos de várias especialidades, pedindo a eles o tratamento com CBD ou demais substâncias extraídas da planta. “Faltam médicos prescritores, que entendam do sistema. Desta forma, a pessoa busca e não encontra quem lhe atenda. Eu sou ortopedista por formação, mas aparece, no meu consultório, uma mãe com criança epiléptica. Tenho de explicar que não é comigo e encaminho para algum colega”. O representante da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide lamentou a situação, não só pelo fato de criar um entrave, mas também por distanciar a sociedade dos remédios. “Ter gente capacitada aproxima o povo do tratamento”. Alternativas Algumas iniciativas ocorrem, tentando minimizar o problema. Uma delas acontece na Faculdade de Medicina do ABC, onde José Wilson Nunes Vieira de Andrade é professor. “Lá, estamos na quarta turma de Endocanabinologia. É uma matéria de caráter eletivo, mas que esperamos que entre na grade curricular fixa. Temos até ambulatório, para trabalhar só com Cannabis”, salientou. Além disso, existem profissionais que buscam cursos por conta própria. Isso é visto na rede pública de Santos. “Temos dois médicos que já fazem prescrição (de produtos com oriundos da planta), porque fizeram capacitação de forma particular”, citou Denis Valejo, o secretário santista de Saúde. Vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide diz que profissionais não sabem prescrever uso da cannabis. Santos tem verba para capacitação O secretário de Saúde de Santos, Denis Valejo, afirmou que já existe verba separada para a capacitação de profissionais da rede municipal. A ideia é que os profissionais estejam aptos a trabalhar com Cannabis medicinal. Ele acredita que este é um passo importante, a fim de que pacientes recebam mais prescrições de remédios feitos, por exemplo, a partir de canabidiol (CBD). O gestor público revelou o valor destinado ao aperfeiçoamento dos médicos. “Fizemos uma reserva orçamentária, para capacitação, de R\$ 150 mil. Possuímos uma comissão, cujos membros estão desenvolvendo um termo de referência. A contratação (do curso) tem que ser bem desenhada, para se fazer ou não a licitação”. O especialista também declarou que o ideal é que todos os profissionais aprendam a manejar medicação com CBD e outras substâncias. “Devemos preparar a rede completa. Antes de fornecer medicamentos, é preciso habilitar o corpo clínico, a fim de fazer o uso devido dos produtos”, disse. (Arquivo pessoal) Victor Gabriel supera convulsões diárias A falta de formação na área é percebida por quem procura um tratamento à base de Cannabis. A fundadora e presidente da Associação Acolher e Transformar Vidas, Neide Martins, viveu tal situação no passado, quando seu filho, Victor Gabriel, passou a ter espasmos e convulsões provocadas por epilepsia. Os sintomas surgiram aos 10 meses de vida do menino. Ele foi piorando, a ponto de ter mais de 80 convulsões diárias. Evidentemente, a mãe do garoto procurou médicos, que prescreveram tratamentos considerados comuns ou conservadores. O resultado foi frustrante: nada de melhora. Sem desistir de encontrar um meio de trazer alívio e qualidade de vida ao filho, ela passou a pesquisar sobre a planta. Neide queria compreender efeitos e resultados oriundos do canabidiol (CBD), uma das 600 substâncias encontradas na planta de maconha. Convencida de que a medicação poderia ser benéfica para Victor, partiu em busca de um profissional habilitado. Não foi fácil encontrar. “A época, saí de Santos e fui ao Rio de Janeiro em busca de especialista”, lembrou. A mãe encontrou um médico e, na sequência, iniciou o tratamento. Assim, o menino começou a tomar o remédio aos três anos e meio - atualmente, está com 12. O saldo, até aqui, é positivo. “Hoje, ele não tem convulsão. Melhorou coordenação motora, marcha, parte cognitiva, comunicação…”, revelou. Cuidados Apesar do resultado obtido, a mãe ressaltou que não se pode sair por aí procurando medicações e administrando doses sem orientação. Nove anos se passaram desde que Victor começou a usar canabidiol, e a oferta de produtos cresceu consideravelmente no período. Este fato torna ainda mais necessário encontrar algum dos poucos especialistas existentes no País. “Há diferença de produtos e concentração. Tem paciente que precisa de CBD, enquanto outros necessitam de THC (tetra-hidrocanabinol). Hoje, a gama de produtos é imensa”, reforçou. José Wilson Nunes Vieira de Andrade destacou, ainda, que é preciso ter muito cuidado ao selecionar quem vai cuidar do paciente. Afinal, segundo o vice-presidente da Associação Pan-Americana de Medicina Canabinoide, nem todos os médicos estão dispostos a pagar o preço de acompanhar um indivíduo. “Estamos em um momento de moda, se fala muito disso (de medicação oriunda da Cannabis). Mas, moda atrai gente boa e ruim. Como não há dose padrão, e cada pessoa responde de maneira muito particular ao tratamento, dá muito trabalho para o profissional. Não é consultar, passar receita e voltar em um mês. Às vezes, precisa-se de contato diário. É difícil fazer da maneira correta”, afirmou.