Escola cubatense em setembro de 2025, no dia em que foi anunciada como melhor escola do mundo (Alexsander Ferraz/AT) Entre 2014 e 2015, a Escola Estadual Parque dos Sonhos, em Cubatão, era conhecida por um apelido que sintetizava sua realidade: “Parque dos Pesadelos”. Segundo o diretor Regis Marques, ninguém queria estudar, trabalhar ou fazer parte da escola, marcada por violência, invasões, furtos, evasão e destruição do patrimônio. Localizada no Jardim Nova República (Bolsão 9), a unidade era constantemente invadida. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Fundada em 2013 e em funcionamento a partir de 2014, a escola passou a integrar o Programa de Ensino Integral em 2015. A mudança, no entanto, não foi imediata. Entre 2015 e 2016, metade dos estudantes abandonou a unidade, que ainda enfrentava episódios frequentes de violência. Foi nesse contexto que Regis chegou à escola, em 2016, vindo da capital paulista. “Eu cheguei porque acreditava na educação como forma de transformação social e cultural. Para mim, a educação é revolucionária”. O início de tudo O primeiro passo, segundo ele, foi definir a função social da escola. Além da excelência acadêmica, a unidade deveria se tornar um ponto de “radiação de paz e não violência” no território. A proposta soava improvável diante do cenário, mas passou a orientar todas as ações. “Tudo o que a gente fizesse ali teria que fomentar uma cultura de paz”, explicou. A transformação começou pela escuta. A gestão passou a ouvir estudantes, professores e famílias para compreender quem eram, o que buscavam e quais sonhos carregavam. Ao mesmo tempo, Regis estabeleceu uma meta ambiciosa: tornar a escola a melhor do Estado em cinco anos. À época, cerca de 80% dos alunos estavam abaixo do nível básico de aprendizagem, e a escola convivia diariamente com ocorrências. Ainda assim, a aposta foi mantida. Projetos educacionais começaram a ser criados com os recursos disponíveis. Oficinas de costura, artesanato, dança e outras atividades surgiram como primeiros protótipos. Em 2017, a escola integrou anos iniciais e finais no mesmo período, tornando-se a primeira unidade de ensino integral com esse formato. Comunidade integrada Sem recursos financeiros, muitos projetos nasceram da mobilização da própria comunidade escolar. A patinação artística começou com nove patins de plástico emprestados. Anos depois, a atividade reúne cerca de 80 alunos. O mesmo ocorreu com o esporte: o vôlei começou com seis estudantes e uma bola furada, enchida diariamente. Hoje, o projeto conta com parceria privada e já conquistou títulos estaduais nos Jogos Escolares. A gestão também apostou na mudança de olhar dentro da escola. “Quando o professor passa a olhar o aluno pelas qualidades, ele passa a enxergar como aquele estudante pode se transformar”, explicou Regis. Os resultados, segundo o diretor, vieram como consequência das relações construídas. Entre 2016 e 2019, a escola passou de 116 para 480 alunos, crescimento de cerca de 400% nas matrículas. A evasão escolar foi zerada, e as ocorrências diminuíram em aproximadamente 80%. Os índices educacionais também avançaram: de 2,27 em 2016 para 3,6 em 2019. Após a queda provocada pela pandemia, a escola voltou a crescer, chegando a 4,5 em 2024, com metas ainda mais altas para os próximos anos. Hoje, a unidade atende cerca de 1.200 alunos no ensino integral, além de turmas de ensino médio e Educação de Jovens e Adultos. Segundo Regis, o objetivo é acompanhar os estudantes até o fim da educação básica e ampliar suas possibilidades de ingresso no ensino superior. “A universidade pública é deles. Eles precisam ocupar esse espaço”, disse. Parcerias A transformação também envolveu parcerias externas, buscadas ativamente pela direção. Sem recursos adicionais do poder público, a escola enviou ofícios a empresas e conseguiu apoio financeiro que permitiu reformas estruturais, compra de equipamentos e melhoria dos espaços. Para Regis, o reconhecimento recebido pela escola é consequência direta do acolhimento e do sentimento de pertencimento construído ao longo dos anos. Hoje, segundo ele, a escola não registra invasões nem pichações, e é cuidada pelos próprios alunos e pela comunidade. Na avaliação de Marques, discutir educação integral e tempo integral é fundamental para ampliar o papel da escola como espaço de acolhimento, transformação e pertencimento. “A gente não mudou só resultados. A gente mudou relações. E os resultados vieram depois”, concluiu. Escola precisa acreditar no aluno, destacam estudantes Quando entrou na escola ainda criança, Ana Lívia não acreditava que sua vida pudesse mudar. “Eu pensava que não ia ter um sonho, um projeto de vida bom”, relatou a aluna de 13 anos, hoje no 8º ano da Escola Estadual Parque dos Sonhos. A transformação começou ao observar treinos de patinação na quadra. Incentivada pela mãe e acolhida pela professora Helena, decidiu tentar. Com dedicação, evoluiu nos treinos, passou em exames de nível e integrou a equipe federada Partinarte, disputando competições estaduais e nacionais. Já conquistou títulos brasileiros, paulistas e estaduais. “Hoje eu acredito que vou ser uma profissional. Amo esse esporte e nunca vou desistir”, afirmou. Nos próximos meses, competirá em São Paulo e no Sul do País. História semelhante é a de Matheus, de 14 anos. Ele relembra o início difícil do projeto esportivo, quando faltavam recursos básicos. Para ele, o diferencial esteve no empenho dos professores, especialmente da professora Pio, que “acreditou em todo mundo”. Antes tímido, Matheus ganhou confiança por meio do esporte. Em 2024, a equipe chegou à fase regional; no ano seguinte, conquistou medalha estadual. “O esporte muda a pessoa”, diz.