[[legacy_image_63452]] A caminhada de quem empreende é uma grande construção. De sonhos, de projetos, de meios para obtenção de renda. Mas também serve, no caso das mulheres, para a desconstrução de uma ideia de preconceito. Assim pode ser descrita a jornada da empresária Gileusa Maria da Silva Domingos, 55 anos, dona de uma loja de materiais de construção em Santos. Um ramo, por muito tempo, dominado por homens. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Ela conta que, há 30 anos, ingressou no setor, após trabalhar na antiga Alcyon, do ramo de alimentos. Logo de cara, teve que driblar a desconfiança de clientes do sexo feminino, muitas vezes explícita. “Houve sim, sendo eu, no início, sozinha no balcão. Quando chegava um cliente, que pedia um produto para mim, eu pegava, vendia para ele, mas continuava inseguro: “Mas você não sabe’”. Respondia a ele que tinha conhecimento, sim, sobre aquilo. Eu explicava direitinho. Mas, se chegasse outro (vendedor) do meu lado, ele tirava a atenção de mim, não acreditava no que dizia, e preferia dar credibilidade para o outro que, muitas vezes, eu sabia que não conhecia tanto quanto eu. Preferia um homem falando com ele, não uma mulher”, lembra Gileusa. A comerciante, atualmente, possui quatro unidades de sua loja. Mas, até chegar lá, sobrou dedicação para driblar as adversidades. “Eu sempre dava o meu melhor. Conseguia levar areia, cimento, ao carro do cliente. Fazia exercícios, para ganhar força e resistência, e as pessoas viam isso, o meu empenho. Não foi fácil, o pessoal não queria ajudar. ‘Faz você, não é o que queria?’”, pontua. Estratégia Gileusa também teve estratégia e método para crescer, após um começo “na raça”, como descreve. “Cada fornecedor que chegava à empresa, perguntava qual o produto que tinha saída. E ia comprando. Pegava os desenhos, ia recortando e colando no meu livro. Na parte de hidráulica, tinha os catálogos. Quando o cliente pedia um produto e eu não sabia, pegava aquele catálogo e mostrava. ‘É esse?’. E raramente perdia a venda”. Veio a ideia de fazer um curso técnico para aprimorar os conhecimentos sobre instalação elétrica. O saldo: aumento nas vendas e a quebra gradual do preconceito. “Quando saí do curso, senti que as vendas aumentaram. Sabia comprar o produto corretamente: a qualidade dos fios; as ferramentas. Sabia que aquilo ali era como uma evolução. Com o passar do tempo, fui pegando admiração dos clientes. Os do passado me veem na empresa e falam ‘Você ainda está aqui? Parabéns, você venceu’. Amo demais a área de construção. Vejo muitos vídeos sobre os produtos no YouTube, para atender às necessidades de cada cliente”, descreve. Satisfação e cumplicidade A comerciante não esconde a satisfação ao atender mulheres que chegam à loja, em busca de produtos e orientação. É quando o “pacto de cumplicidade” do sexo feminino é reforçado. “Quando chega uma mulher, eu fico feliz. Elas ficam satisfeitas, porque uma mulher entende a outra. A gente explica sobre os produtos, eventualmente até ensina a fazer o reparo. Com isso, as clientes ficam agradecidas”. Hoje, trabalha diretamente com uma mulher e quatro homens. Mas os gestos de preconceito ainda são lembrados com clareza pela comerciante. “Um cliente disse para mim, certa vez: ‘Para uma mulher trabalhar numa loja de construção, ela precisa ter barba’. Respondi que, na verdade, ela precisa ser motivada, ter amor pelo que faz, que tudo dará certo”, recorda Gileusa, estudiosa da Bíblia e especializada em reconstrução.