[[legacy_image_263325]] A diminuição do número de pessoas em situação de rua no Brasil passa por ações como o conceito Housing First (moradia primeiro, em tradução simples). Especialistas presentes no A Região em Pauta, em Santos, concordam que este é o melhor caminho, a fim de que indivíduos abandonem os locais públicos e possam reconstruir suas vidas. Já há projetos em andamento nesse sentido, como algumas ações adotadas em São Paulo. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Como diz um relatório chamado “É possível Housing First no Brasil”, do Governo Federal, esse modelo consiste em colocar “o acesso à habitação permanente e individualizada como ponto de partida e não como a última etapa da intervenção”, para qualquer pessoa deixar, definitivamente, as vias públicas. Na capital estadual, como contou o secretário de Projetos Estratégicos de Governo da Prefeitura paulistana, Alexis Vargas, existem as Vilas Reencontro. “É um tipo de moradia rápida (e gratuita), para famílias que estão há pouco tempo na rua. São unidades moduladas, em terrenos da Prefeitura, feitas com material com conforto acústico, térmico e que não pega fogo, com encanamento e luz. Priorizamos famílias com crianças na primeira infância, para evitar problemas de longo prazo”, disse, citando que um desses espaços está no Vale do Anhangabaú, região central, com 40 residências. Há mais 40 na Avenida Cruzeiro do Sul. Outras duas vilas estão em construção, e a estimativa é chegar a 200 lares. Seguindo este modelo, Vargas mencionou mais um projeto: locação social. “São unidades que a prefeitura vai disponibilizar com aluguel subsidiado — não é valor de mercado, é mais baixo, de acordo com a renda da pessoa e o imóvel”. Ele apontou, ainda, um trabalho para reaproximar as pessoas que estão nas ruas de seus parentes, amigos ou familiares. Aqui, existe ajuda financeira para aqueles que recebem os indivíduos. Por fim, também há um auxílio de até R\$ 600,00 para indivíduos em situação de rua que desejem partir para um aluguel, seja de uma casa, quarto ou algo similar. Vargas, ao falar sobre as ações e alternativas, reforçou a importância do Housing First, justificando o que é feito pela administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB). “Pesquisas mostram que a pessoa já passa a se organizar melhor tendo um lar. Depois, se trabalha outras partes, como renda, alimentação, escolaridade e emprego”. De acordoO terapeuta e futuro chefe do Departamento de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Santos, Roberto Tykanori Kinoshita, elogiou o que está sendo feito na capital. Para ele, “a proposta de São Paulo é a mais razoável” dentre outras. O especialista assegurou, ainda, que esta opção é certeira e, como reforçou, já apresentou bons resultados em diferentes lugares. Ele citou o exemplo dos Estados Unidos. “Este conceito é do começo dos anos 2000. Lá, a ideia é assim: quando se tira da rua, imediatamente a pessoa ganha uma bolsa (dinheiro) e tem que pagar aluguel. Não saem da rua por favor, mas têm que cumprir um contrato social. É um aluguel simbólico, é a única obrigação. Os americanos duvidaram de que as pessoas que estavam na rua seriam capazes de cumprir o contrato. Mas, as pesquisas mostraram, após dois anos, que 90% conseguiu manter contratos estáveis. Por isso, o modelo começa a ter resultados significativos. Quando (as pessoas) sentem que são capazes, muda seu posicionamento”, explicou. O médico falou sobre outros resultados. “A experiência mostrou que todas as cidades que aplicaram o conceito diminuíram seus custos de segurança e saúde, porque diminuíram os chamados de polícia e de emergência. (Também) reduziu o crime. É óbvio: se não estão circulando e têm lugar específico, muitos dos problemas deixam de existir”. Mudou a vidaA presidente do Conselho Municipal Antidrogas (Comad), Laura Dias, é defensora do modelo Housing First. Ela entende que este sistema é, realmente, válido e essencial para que indivíduos saiam das ruas. Sua certeza vem de sua própria vivência. “Na hora que eu quis mudar de vida, tive a casa da minha mãe vazia para eu ficar. Não fiquei na rua, mas me enfiei na casa da minha mãe, para me proteger daquilo que eu achava que me fazia mal. Ali, tive lugar para me deitar, tomar banho, sofrer, socar a parede… Aquilo me deu dignidade”, frisou. Ela disse acreditar que, sem um teto, talvez não tivesse mudado de vida. “Sem aquele espaço, teria sido muito mais difícil, porque, na rua, estaria convivendo com colegas usando droga toda hora, oferecendo... Na casa da minha mãe, que estava abandonada (após sua morte), consegui me estruturar e me proteger de quem eu não queria ver”. E mesmo tendo uma residência, não foram poucos os momentos complicados que enfrentou. “Batiam na minha porta, e eu a fechava. Nem atendia ou atendia pela janela. Eu dizia que não usava mais drogas e era mentira, eu sujava a casa toda. A abstinência era forte, só que trancava a porta, para lutar contra meus problemas”, recordou Laura. Por isso, ela não hesitou ao afirmar que oferecer um lar “é o caminho, é a primeira solução”. [[legacy_image_263326]] República em SantosPresente no segundo painel de A Região em Pauta, o secretário de Desenvolvimento Social de Santos, Carlos Mota, disse que a cidade não trabalha, neste momento, com qualquer ação no sentido do Housing First. O que existe, segundo ele, é um projeto de criação de uma república para quem está em situação de rua. No entanto, este sistema difere do realizado em São Paulo e defendido por outros especialistas que estiveram no fórum. A principal distinção é o momento em que os indivíduos vão ter acesso ao espaço. Enquanto, na capital, a ideia é oferecer a residência como primeiro passo, em Santos, o local seria disponibilizado no fim do tratamento. “Quando uma pessoa topa a abordagem, ela vai para o Centro Pop e é encaminhada a uma casa de passagem, um local que tem fluxo um pouco maior de pessoas. Fazendo adesão ao plano individual de atendimento, ela vai ser encaminhada a um local de acolhimento. A república é como se fosse uma alternativa para a pessoa que já fez adesão significativa e está no processo de despertar de autonomia. O local vai permitir que a pessoa, se não estiver pronta para locação de seu quarto ou imóvel, tenha um modelo de transição entre a unidade de acolhimento institucional e sua casa definitiva”, explicou. Mota também afirmou ter convicção de que este modelo trará bons resultados. Sua certeza vem de um trabalho executado com outro público. “Temos república de jovens. Então, para a saída do jovem que sempre teve uma vida institucionalizada (por não ter família) ser feita de forma escalonada, a república se tornou uma opção viável. Executamos em Santos e achamos uma alternativa prudente para a pessoa em situação de rua”, declarou. Conforme o secretário, a república está no plano de governo, e seu prazo de execução é para 2024. “Estamos fazendo estudos e buscando locação de imóvel específico para esta finalidade, que é uma das alternativas para acolhimento”.