[[legacy_image_272317]] Não tem como ser diferente. Discutir o futuro do emprego, impreterivelmente, passa por debater também a Educação, já que a formação é a base para o exercício de qualquer função. Justamente por isso, no A Região em Pauta, os convidados analisaram o sistema de ensino. “Vivemos uma esquizofrenia, porque não entendemos o caminho”. A frase é do diretor-executivo da Associação Comercial de Santos (ACS), Adalto Corrêa, que, por mais de 30 anos, desenvolveu suas atividades no ambiente universitário. Ele disse isso ao avaliar todo o percurso do aprendizado, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior, pegando como gancho o debate em torno do novo Ensino Médio, que ainda não saiu do papel. “O novo Ensino Médio vem a calhar, porque traz mais a questão de discutir problemas do mundo e não só conteúdo de química, física e para o vestibular. Só que o Brasil é capenga, manco. Não discutimos o Fundamental, que joga para o Médio. Temos um Fundamental tradicional, e o Médio tem que ser outro. Aí, na faculdade, o aluno vai ser cobrado pelo ensino tradicional” , disse. Corrêa, em sua declaração, não eximiu por completo as universidades por colocarem no mercado profissionais de baixa qualidade. Entretanto, ele, que foi professor universitário por décadas, avalia que, em muitos casos, a faculdade é somente a ponta do iceberg. “A formação se dá desde os 6 anos, e é nesta idade que se trabalha melhor o jovem, para que ele seja altamente produtivo lá na frente. Só que isso não vem acontecendo no Brasil. Na realidade, temos de olhar para o Ensino Fundamental e o Infantil. A universidade herda um jovem com deficiente de formação e vira a culpada. É um equívoco”, afirma. Apesar disso, o diretor-executivo da ACS também entende que o Ensino Superior deve mudar seu perfil atual. A ideia, indo ao encontro do que consta no relatório O Futuro do Emprego, do Fórum Econômico Mundial, é desenvolver habilidades comportamentais (soft skills), entre as quais estão, por exemplo, flexibilidade e resolução de problemas “A universidade vai deixar de ter tanto a responsabilidade da formação técnica, para discutir mais habilidades socioemocionais. Esta é a grande contribuição (que ela pode dar)”, pontua Corrêa. Reflexão}O professor Carlos Alberto Arruda de Oliveira, da Fundação Dom Cabral, concorda com Adalto Correa. E, por esta razão, deixa no ar um questionamento para o público: “Até que ponto estamos ensinando nossos jovens a serem capazes de analisar? Até que ponto desenvolvemos um pensamento crítico?”. Na sequência, o docente da Dom Cabral reiterou que é preciso ajudar os alunos e profissionais a aprimorarem tais competências. Afinal de contas, segundo ele, por mais que a tecnologia mude o mercado de trabalho a ponto de extinguir determinadas atividades, o ser humano continuará sendo um elemento central em todo processo. “Não se iludam, achando que muita inovação vai acontecer sem humano. A competência da criatividade é a segunda mais demandada para os próximos anos. Ela é a capacidade de olhar algo e construir novos pensamentos e formas de organizar ideias, negócios, etc”, frisou o professor Carlos Arruda. [[legacy_image_272318]] Analfabetismo funcional preocupaPor falar em Educação e mercado de trabalho, na última década, saltou o número de universitários no Brasil. Se comparados os anos de 2012 e 2021, nota-se que se passou de 7.037.688 alunos no Ensino Superior para 8.987.120. Portanto, houve um aumento de 1.949.432 estudantes, o que representa crescimento de 27,7%. Seria este um fato a comemorar? Para Rodolfo Amaral, não. A insatisfação do jornalista, consultor e sócio-fundador da Data Center Brasil, tem uma justificativa. “O Índice Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf) mostra que 38% dos alunos matriculados nas faculdades são qualificados como analfabetos funcionais, ou seja, sem capacidade de crítica, entendimento de texto e raciocínio de operações básicas de matemática. São quase 3,5 milhões de alunos assim. Temos deficiência no público que considerávamos seleto”. Segundo o especialista, este problema é oriundo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que foi criada em 1996. “Ela que previu a progressão continuada. Ninguém repetia (de ano). Passa (o aluno) porque precisa passar, senão não cabe na sala de aula. Fomos passando de qualquer jeito e entregando o aluno ao Ensino Superior nesta condição de analfabeto funcional. Temos 30% da população como analfabetos funcionais. Estamos falando de 70 milhões de pessoas”. EADDiante deste cenário, Amaral disse ter mais uma preocupação, esta relacionada ao ensino a distância (EaD), modalidade que detém 41% de todos os universitários do Brasil — na Baixada, são 45%. “Se Ensino Superior presencial é deficitário, por várias razões, imaginem como será a dificuldade de compreensão e assimilação no EAD. Não podemos confundir o avanço quantitativo com o qualitativo. É um desafio enorme receber os alunos da Educação Básica com uma série de deficiências e tratá-los adequadamente no presencial. Imagine a distância...”, ponderou. [[legacy_image_272319]] Tecnologia na Educação BásicaA tecnologia tem de ser incorporada à Educação Básica. Esta é a opinião do professor Carlos Alberto Arruda de Oliveira, da Fundação Dom Cabral. O docente acha que, para os jovens aproveitarem as oportunidades que vão surgir, é preciso “atualizar” parte do que se ensina nos primeiros anos de escola. “A Educação Básica deve chegar a um nível mínimo de adequação ao século 21, incorporando a tecnologia. Hoje, ela não trata da tecnologia por vários fatores, até mesmo dificuldade de acesso”, disse. Esta não é a única mudança sugerida pelo especialista. Ele também acredita que seria benéfico o sistema de ensino entender as necessidades de cada local, a fim de formar pessoas preparadas para demandas de onde residem. “Se imaginarmos que o Agro vai virar tech (tecnológico), escolas rurais deveriam incluir tecnologia (específica para a área)”, exemplificou o professor. PortoO secretário de Assuntos Portuários e Emprego de Santos, Bruno Orlandi, concordou com Arruda. Por sinal, ele disse que, na Baixada Santista, existe a necessidade de uma formação mais direcionada ao Porto. “Falta, muitas vezes, um ensino técnico mais voltado à área portuária. Quando falamos de algumas vocações naturais da região, não dá para vocacionarmos com cursos para agricultura, por exemplo”.