A imagem dócil de plataformas de apostas on-line pode esconder uma armadilha ainda mais letal para quem já se encontra endividado (Adobe Stock) Elas são atraentes aos olhos de quem sonha com um dinheiro a mais. Assumem figuras simpáticas, como animais dóceis, ou ocupam espaços em eventos de grande apelo, como a Copa do Mundo. Mas trazem junto um problema grave: o vício. As apostas on-line, as conhecidas bets, viraram um problema para quem já tem pendências financeiras. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pesquisa recente do Datafolha indica que 54% dos brasileiros entendem que as apostas esportivas e jogos on-line podem viciar. Por outro lado, apenas 6% entendem que essas modalidades de jogo são apenas uma diversão. “Na psicanálise, dizemos que somos frágeis, precários e limitados. E, infelizmente, é verdade. É assim: as empresas de apostas estão usando os conhecimentos das ciências comportamentais, da psicologia econômica, para o mal total”, aponta a especialista em Psicologia Econômica Vera Rita Mello Ferreira. Para ela, a aversão à perda é outro estímulo para novas tentativas, mesmo diante do revés. “Muitos pensam que correr risco não oferece problema e acham que vai ser fácil, porque já ganharam uma ou duas vezes. É um assunto em que empresas exploram vulnerabilidades.” Vera lembra que o ambiente de apostas sempre existiu, fossem as loterias legalizadas pela Caixa Econômica Federal, títulos de capitalização ou mesmo o famoso jogo do bicho. O problema, agora, é a roupagem mais atraente e potencialmente viciante. “É preciso regulamentar as bets, porque sempre houve apostas. Minha mãe apostava toda semana na Mega-Sena e achava que ia ganhar: morreu com 100 anos e sem ganhar. Não era como agora, em que você abre o celular e aparece um tigrinho, um animalzinho, um jogador de futebol. Precisamos trabalhar esse contexto”, explica. Arquitetura da escolha A especialista cita que um dos conceitos da Psicologia Financeira é a chamada arquitetura da escolha, que ajuda a pessoa a ter as melhores opções, tanto para ela quanto para a coletividade. “Você desenha o contexto para ajudar as pessoas a errar menos. É isso que as empresas de bet estão usando para fazer o mal. Usam esses conhecimentos para fazer a gente entrar no buraco”, complementa. Idec: “prática nociva” exige providências Para o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), os jogos e apostas on-line não poderiam funcionar em solo brasileiro, por se tratar de um serviço que afronta a vida, a saúde e a segurança do consumidor. Seria uma violação ao artigo 10 do Código de Defesa do Consumidor (CDC). Na visão do instituto, “esse tipo de prática é altamente nociva às pessoas consumidoras e causa impactos sociais e de saúde pública, de modo que o Supremo deveria considerar fortemente julgar as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADI) 7721 e 7723 procedentes, para declarar inconstitucionais as leis que permitiram os jogos e apostas on-line”. O Idec acredita que a Secretaria de Prêmios e Apostas, vinculada ao Ministério da Fazenda, e a Secretaria Nacional do Consumidor, vinculada ao Ministério da Justiça, tenham regulamentações mais rígidas sobre o assunto. “Pelo potencial nocivo à saúde e segurança financeira, os jogos de apostas on-line deveriam ter o mesmo grau de restrição de publicidade do tabaco, de modo que consumidores não sejam expostos a qualquer publicidade sobre o tema”, considera. Banalização de riscos O Idec também questiona o que classifica como “banalização dos riscos econômicos e psicológicos relacionados às apostas on-line”. Segundo a entidade, “tanto o mercado de apostas quanto o discurso publicitário associado a ele não se responsabilizam pelos efeitos concretos já identificados no país, como superendividamento”. Também há críticas à atuação de influenciadores digitais nesse mercado.