Ao longo do oitavo fórum do projeto A Região em Pauta deste ano, convidados falaram dos benefícios do uso da Cannabis, mas também citaram que grande parte da população olha para o tema de forma negativa (Alexsander Ferraz/AT) É preciso ter ouvidos atentos para acompanhar o relato da Neide Martins, mãe adotiva do Victor Gabriel. Se conseguir, tente visualizar cada cena que ela vai descrevendo sobre a trajetória desse menino que chegou ao lar da Neide quando ainda era um bebê. Os primeiros espasmos foram notados aos 10 meses, apenas quando ele dormia, mas depois a intensidade e a frequência foram aumentando e aumentando e Victor Gabriel passou a usar um capacete, feito sob medida, para evitar lesões na cabeça quando passou a ter 80 convulsões por dia. São mais de três por hora. Não há como ouvir esse relato sem imaginar como é a rotina de uma casa onde uma criança precisa interromper a brincadeira, a refeição e até mesmo o sono 80 vezes por dia. Neide buscou ajuda, leu tudo que pôde sobre os benefícios dos medicamentos produzidos com o canabidiol e encontrou especialistas que aceitaram prescrevê-los para o tratamento do filho, que sofre de várias síndromes que, relacionadas, provocavam muito mais que convulsões. Hoje, diz a Neide, ele é um “menino feliz, sorridente e cheio de vida”. Com sequelas de anos perdidos do não-tratamento adequado, mas livre dos efeitos mais devastadores que viveu por mais de 10 anos. Na linha do tempo que explica tantas coisas na Medicina, sempre houve um Victor para abrir caminhos e provocar a descoberta de medidas diferentes daquelas até então disponíveis no mercado. Foi assim com a penicilina, com o coquetel oferecido aos pacientes de Aids e, mais recentemente, até mesmo com a vacina contra a covid-19. Trazer os casos para a superfície, entender o que há de evidências científicas sobre os novos medicamentos e o que trava o avanço das pesquisas é o caminho correto para encurtar a distância entre a doença e a cura, entre a dor e o bem estar, entre o sofrimento das famílias e a paz. Nem sempre o medicamento trará a cura, mas a redução dos danos já é um passo a mais na qualidade de vida de tantos doentes e suas famílias. O 80º fórum do projeto A Região em Pauta trouxe um tema novo, o uso do canabidiol para o tratamento de doenças para as quais outros medicamentos já não surtem efeito. A conclusão a que se chega é que muitos passos já foram dados para que essas patologias já não sejam mais uma tormenta na vida de milhares de pessoas. A lei criada no Estado de São Paulo já vem sendo replicada nos demais estados, e organizações da sociedade e grupos específicos acompanham as evidências científicas para ampliar o leque de certezas sobre o uso da cannabis como remédio. O desejo é que esse movimento seja dinâmico e veloz, sem leniência do poder público e também dos cursos de Medicina, que precisam preparar seus profissionais para todas as novidades que a Ciência nos traz. Há outros Victor esperando por isso.