Criando hábitos que estimulem o cérebro, há chance ou de atrasar o surgimento da enfermidade, ou frear sua evolução (Imagem Ilustrativa/Unsplash) A doença de Alzheimer, dentre outras patologias neurodegenerativas, não tem cura. Quando ela surge, avança, afetando a cognição e causando problemas, como perda de memória. Diante disso, especialistas que participaram de A Região em Pauta frisaram que a população deve se prevenir, criando hábitos que estimulem o cérebro. Se isto for feito, há chance ou de atrasar o surgimento da enfermidade, ou frear sua evolução. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A professora titular no Departamento de Saúde, Educação e Sociedade, no curso de Terapia Ocupacional, e Coordenadora do Serviço de Atendimento no Envelhecimento Cognitivo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Marcia Novelli, foi uma das pessoas destacou que é “importante aprender coisas novas, independentemente do que for”. Isso porque tal atitude é desafiadora para o cérebro. Dando sequência à sua fala, ela ressaltou que não adianta um idoso se propor a fazer algo que já domina. O correto é buscar atividades diferentes daquelas que já está acostumado a praticar. “A fim de você reforçar a conectividade cerebral, é necessário que sejam ações diferentes. Então, se já falo duas ou três línguas, talvez estudar um novo idioma não vá me estimular. Para trabalhar áreas do cérebro adormecidas, de repente, tenho de aprender um instrumento musical, artesanato... Deve ser qualquer coisa que faça sentido, seja desafiadora e que eu consiga praticar”, explicou. Ela ainda salientou que, se os indivíduos trabalharem corretamente, vão colher bons frutos. “É válido buscar recursos para desacelerar o processo de instalação de doenças, ganhando uma janela de alguns anos, para que a patologia apareça tardiamente”. Agora, se uma pessoa já lida com sintomas de alguma enfermidade, o correto é “oferecer estratégias de estimulação. Assim, quem já tem uma doença, quando se envolve com atividades, pode atrasar a evolução desta condição”. Videogame No sentido da prevenção, jogos têm sido usados, a fim de estimular a cognição de idosos. Criador da startup Isgame e da plataforma Cérebro Ativo, Fábio Ota disse que seu videogame vem sendo utilizado, trazendo bons resultados para pacientes com níveis leves de Alzheimer. “Comprovamos que conseguimos postergar o aparecimento da doença. Temos um estudo com pessoas com declínio cognitivo grau 1, nas quais a patologia demorou para avançar. Um instrutor chegou a dizer que precisávamos fazer mais jogos, pois os idosos estavam lembrando dos games”, contou. O especialista afirmou que seus jogos podem ser usados tanto em computadores quanto em celulares. Eles exercitam várias capacidades. “Tem games que trabalham memória, raciocínio lógico, atenção, consciência corporal e velocidade de processamento do cérebro. São jogos que remetem à realidade da pessoa idosa, porque não adianta mostrar um jogo abstrato, para treinar a memória”. Além disso, há recursos que elaboram um relatório sobre o estado clínico dos usuários. “Vemos nutrição, controle de estresse, atividade física, comportamento preventivo e relacionamento social. Quando algo está vermelho, o médico ou a operadora de saúde é avisado, porque existe um ponto de controle”. Deste modo, Ota revelou que torce para que seu videogame passe a ser prescrito em consultas. “Falo, no Hospital Sírio-Libanês, que meu sonho é que os médicos receitem o jogo. A maioria dá uma risadinha, mas estamos fazendo geriatras começarem a indicar”. Medo de errar é barreira Seja na hora de jogar e produzir games ou em qualquer outra área da vida, muitos daqueles que estão na chamada melhor idade precisam superar um obstáculo: eles mesmos. Isso porque parte dos idosos se acha muito velha para determinadas tarefas ou funções. Tal pensamento, que é limitador, tem de ser combatido. Esta necessidade foi indicada por Fábio Ota. “Começamos em 2015 e, de lá para cá, a maior dificuldade que vemos é a pessoa vencer o preconceito próprio", afirmou. Segundo ele, as frases mais ditas, neste sentido, são: “Estou muito velho para isso”, “Videogame é coisa para criança” e “Nunca aprendi e vou aprender agora?” Existe, ainda, mais uma barreira comum. O especialista disse que os mais experientes enfrentam dificuldades para lidar com os erros que cometem durante os jogos ou no uso de algum equipamento. “Nossa educação tradicional é punitiva. Você faz prova e é reprovado. Se não for bem no vestibular, não entra na faculdade. Está enraizado na cabeça que, caso erre, vai quebrar (algo)”, declarou. Desta maneira, o criador da Isgame e da plataforma Cérebro Ativo tenta auxiliar os idosos, fazendo-os enxergar as falhas de forma diferente. “Eles têm medo de ir mal. Por isso, quando fazemos nosso trabalho, mostramos que o erro é uma oportunidade de aprender”, citou o especialista.