(Sílvio Luiz/ AT) O capitão de mar e guerra Leandro Gomes Mendes assumiu em 23 de janeiro o comando da Capitania dos Portos de São Paulo (CPSP). Aos 47 anos, o oficial nasceu no Rio de Janeiro e tem 32 anos de trajetória na Marinha do Brasil, instituição na qual ingressou aos 15 anos, seguindo os passos do cunhado militar que tanto admirava. Ao longo da carreira, atuou em diferentes regiões do País e no exterior. Mendes também integrou forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU), no Líbano, em 2018. Sua formação inclui estudos no Naval College (Colégio Naval), nos Estados Unidos, além de participação em um grupo de cenários prospectivos no Reino Unido, ligado ao Ministério da Defesa britânico. Antes de assumir a CPSP, atuava no Estado-Maior da Armada, em Brasília, no desenvolvimento de estratégias para a Marinha e para a área marítima. Em entrevista para A Tribuna, o capitão dos Portos fala sobre sua trajetória na Marinha, os desafios de assumir o comando da Capitania, que fica no Porto de Santos, o maior do Hemisfério Sul, além das prioridades de sua gestão. Como foi a sua entrada na Marinha do Brasil? Meu cunhado, que namorava com a minha irmã, me despertou para a profissão. Ele ia visitá-la, às vezes com a farda, voltando da Escola Naval. Eu me interessei muito. Com o passar do tempo, estudando e procurando opções, eu vi a Marinha do Brasil como uma grande oportunidade. Primeiramente porque eu adorava viajar e conhecer lugares novos. A Marinha nos proporciona isso. Em segundo, porque para mim é uma das maiores instituições e que as pesquisas comprovam a confiança que a sociedade tem nela. Entrei em 1994 no Colégio Naval, fui para a Escola Naval depois e me formei em 1999. No ano de 2000 realizei uma viagem de instrução e comecei na Marinha como 2º tenente em 2001, a bordo do navio-tanque Almirante Gastão Mota. Lá, como oficial armamentista e de convés. Ali eu me encontrei e falei ‘é aqui que eu quero ficar, na Armada’. Nesse período de mais de 30 anos de carreira, o senhor passou por vários locais do Brasil, certo? Depois do meu curso de aperfeiçoamento, tive a oportunidade de ir para Manaus. Lá conheci uma região muito especial do Brasil, que temos um povo que precisa muito da nossa atenção. Fiquei por lá de 2004 até 2008, sempre com minha família me acompanhando. Em 2008 voltei para o Rio de Janeiro, trabalhei um tempo no Segundo Esquadrão de Escolta, na área de logística. Depois, fui comandar o navio-patrulha Gurupá. Aí eu fui ser um oficial comandante de companhia na Escola Naval, onde eu pude tentar passar alguma coisa para os novos aspirantes sobre como é a carreira. E isso me deu uma satisfação imensa. Lá tive a oportunidade de vir com um veleiro participar da regata Ilhabela junto com os garotos. Viemos navegando no veleiro, foi muito bacana. Depois fui acompanhar o almirante Ademir Sobrinho, quando ele foi comandante do 4º Distrito Naval, em Belém (PA). Fui ser assistente dele. Por lá fiquei dois anos e depois fui comandar o navio transporte fluvial Paraguaçu, que fica em Ladário, Corumbá. Fui convidado para ser chefe de Estado-Maior da flotilha (parte da frota) de navios. Depois fui para o curso de Estado-Maior para oficiais superiores no Rio de Janeiro, no ano de 2017. O senhor também teve experiências internacionais... Em fevereiro de 2018 fui para o Líbano em uma missão de paz. Era para ficar seis meses, mas fiquei um ano, voltando em 2019. Assim que cheguei, eu tive a grata surpresa porque fui selecionado para cursar o Naval College (EUA). Depois do curso da Escola de Guerra Naval existe uma seleção e eu fui selecionado para esse curso. Lá aprendi algumas coisas para tentar trazer para a nossa Escola de Guerra Naval como instrutor, onde eu fiquei no retorno desse curso, de 2020 até 2021. De lá fui participar de um outro processo seletivo no qual fui indicado para trabalhar no Development and Concepts Doctrine Centre (Centro de Doutrina de Desenvolvimento e Conceitos), no Reino Unido, em que eu fiquei dois anos estudando como eles faziam futuros no Ministério da Defesa do Reino Unido. Eu era um oficial deles e trabalhava na área de oceanos. Eu era o gerente do projeto de oceanos. Estava no time de meio ambiente e também participava do time das Américas. Inclusive participei de um livro chamado Global Strategic Trends (Tendências Estratégicas Globais), sétima edição, lançado em 2025 e fruto da produção que eu fiz nos oceanos. Essa publicação aponta tendências para os próximos 30 anos. Como foi a volta ao Brasil? Voltei para o Estado-Maior da Armada, onde contribuí na questão de cenários, estudos de futuro. Lá nós trabalhamos numa divisão que analisa os futuros para, a partir dali, pensar numa estratégia e depois ver quais meios a Marinha do Brasil precisa adquirir. Que haja um raciocínio concatenado e cada vez mais profissionalizado. Então, hoje nós temos uma estratégia de defesa marítima e um plano de configuração de força, fruto dessa estratégia. A gente pensa hoje o que a gente quer ser no futuro, baseado em documentos normativos, como a Estratégia Nacional de Defesa, a Política Nacional de Defesa e a Política Marítima Nacional. E com base nisso tirar nossos objetivos estratégicos. Nesse período de carreira o senhor veio muitas vezes ao Porto de Santos? Vim quando eu comandei o navio-patrulha fluvial Gurupá e também quando eu estava no meu primeiro navio, o navio-tanque Almirante Gastão Mota. Mas, devido a me espalhar pelo Brasil todo, acabei não voltando. A minha última lembrança tinha sido de 2008, 2009. Aí quando cheguei agora, vi a cidade ainda mais bonita, um porto muito mais desenvolvido e preparado, que é um grande orgulho para o brasileiro. O que significa para o senhor, com uma carreira tão longa na Marinha, assumir a Capitania dos Portos de São Paulo no Porto de Santos? Além do grande orgulho, da grande alegria de poder contribuir de alguma forma, é um desafio. Nós temos que estar a par de todas as normas e regras que a navegação institui para a entrada a esse porto especificamente. Mas é também muito entusiasmante, porque essa é uma região fundamental do Brasil. Analisando tudo que nós temos aqui no Brasil, esse porto é uma infraestrutura crítica. É aquilo que, de fato, a sua interrupção ou destruição causaria um grande problema para a nossa sociedade brasileira. E o Porto de Santos, além de ser o maior, também tem produtos muito especiais para nós, que garantem empregos e que garantem a nossa saúde financeira como Estado. Além disso, também temos aqui uma comunidade marítima muito ativa. Então para mim foi um grande orgulho e uma grande satisfação. O Porto movimenta produtos importantes para a economia nacional, gera empregos e contribui diretamente para a saúde financeira do País (Sílvio Luiz/ AT) O que será fundamental para o seu trabalho aqui? O primordial, pelo que eu tenho visto, é realmente o diálogo com a comunidade marítima. As normas estão aí, as regras existem, nós estudamos, nos preparamos. Mas exatamente por ser um porto empreendedor, que tem muito a crescer, já sendo o maior da América Latina, nós temos um potencial muito grande e temos que explorar isso. Toda essa vontade de crescer tem que ser colocada em prática. Então tudo que chega para a gente como uma novidade tem que ser bem visto, tem que sentar, debruçar, estudar e ver uma maneira de garantir que aquilo ocorra com segurança. Nesse pouco tempo que estou aqui, já tive diálogo com muitas empresas e parceiros que trabalham aqui no Porto e pude ver que existe essa tendência para o crescimento, essa vontade de avançar. Nós precisamos estar à altura, temos uma tripulação bem aguerrida para ajudar de todas as formas. Como funciona o trabalho da Marinha aqui na região? Tem o que está na missão das capitanias, que é a salvaguarda da vida humana no mar, a segurança da navegação e a prevenção da poluição hídrica. Sabemos o que fazer, mas a questão é como aplicar isso. Às vezes temos números altos aqui, de apreensões e notificações, que dão a sensação de como a Marinha trabalha, como está presente. Mas, para mim, o fundamental é orientar e instruir para que esses números diminuam. Eu não quero mostrar serviço pelos números. Quero que no futuro possamos ver nosso porto e as pessoas que usam o mar para esporte e recreação com consciência de mentalidade marítima, evitando a cultura do risco. Que se preparem para ir para o mar, que a segurança esteja baseada na legalidade. Que as embarcações estejam em condições adequadas e que as pessoas estejam qualificadas para navegar. Como funciona a investigação de acidentes marítimos? Temos um caso recente de um navio que bateu em duas balsas. Nós cuidamos de 151 municípios, é uma área colossal para tudo o que possa acontecer no mar todos os dias. Os inquéritos procuram se ater a documentos e normas, nacionais, internacionais e regionais. Nosso pessoal trabalha muito, temos dois advogados que atuam em várias áreas. Os inquéritos têm 90 dias de duração. Depois, existe um prazo para defesa prévia das partes envolvidas. Depois disso o processo segue para o Tribunal Marítimo, que vai divulgar sanções ou punições, se for o caso, e também dar divulgação às conclusões e às lições aprendidas, o que podemos melhorar. Quais são seus planos à frente da Capitania? Primeiramente, é importante mencionar que as coisas já funcionam. Trocou o comandante, mas a engrenagem está rodando. A segurança do tráfego aquaviário não depende de uma pessoa. Nosso pessoal continua fazendo inspeções e cumprindo todas as normas devidas. São questões regulamentares que já cumprimos e estamos prontos para responder a emergências. Mas a minha preocupação é chamar as pessoas para conversar, dialogar com órgãos de segurança pública, empresas e terminais. Sempre tentar incrementar. E também dar muita ênfase ao ensino. Se conseguirmos criar uma mentalidade marítima nas pessoas, talvez não seja necessário autuar tanta gente no futuro. Nesse ponto tenho que agradecer muito à Sociedade Amigos da Marinha, a Somar, que junto com a gente tenta divulgar isso. Como foi sua chegada a Santos? É um povo muito hospitaleiro, que nos recebe muito bem em qualquer lugar. Acho que já estou bem inserido nessa cultura caiçara, até porque quem vem do Rio de Janeiro também tem ligação com o litoral. Santos é um lugar encantador e promissor. A posição da cidade é espetacular, com porto, centro industrial próximo, estradas e ferrovias importantes. É um lugar único na América Latina para desenvolvimento.