[[legacy_image_71081]] Era para ser uma entrevista sobre os 40 anos da criação do Grupo Picaré, um movimento santista de poesia e rebeldia sobre assuntos que incomodavam jovens estudantes universitários e demais interessados. A conversa, no entanto, teve que ser interrompida diversas vezes, diante das lembranças de três amigos sobre o período entre 1979 e 1983. Antes das perguntas serem feitas, o jornalista Raul Christiano Sanchez, idealizador daquela mobilização junto a Rafael Marques Ferreira (ausente), retirou dezenas de exemplares de livros, além de cadernos e folhetins com anotações e textos das reuniões realizadas. Pronto. Ali, naquela mesa, estava instaurada uma histeria de memórias. E como é bom ter memórias, que o diga o escritor Valdir Alvarenga, um dos membros do seleto grupo, que participou desse encontro no prédio do Grupo Tribuna, com a também escritora Inês Bari. Num desses cadernos de anotações, ao ler textos escritos por ele, em um extinto bar do Gonzaga, em Santos, questionou: Raul, fui eu quem escreveu isso? Meu Deus! Levando a mão a boca e caindo na risada, como todos. Alvarenga lembra que tinham um quê de rebeldes. “Mas não acredito que escrevi isso”. [[legacy_image_71082]] Homenagem à história Foi difícil encontrar brecha entre uma lembrança e outra, em meio às risadas e um papo descontraído, mas, por fim, Raul contou que está previsto para junho o lançamento de um livro com uma coletânea de poesias daquela época. O mês marca a data exata dos 40 anos de criação do grupo, que contou com cerca de 37 membros em pouco mais de quatro anos. O Grupo Picaré, segundo ele, foi um movimento antiacademicista, contra a elitização cultural e a estagnação de alguns membros da Academia Santista de Letras daquela época, que visavam apenas a projeção social e faziam eventos fechados. Curiosamente, hoje, Raul é membro da academia, onde antes era malvisto. Ele se diverte com isso. Durante aquela época, portanto, a partir das escadas da Faculdade de Comunicação de Santos (Facos), da UniSantos, na Rua Sete de Setembro, no Centro, realizaram suas primeiras reuniões. Passado um tempo, migraram para a biblioteca, mas, sempre, nesses encontros, programavam manifestos, passeatas, rodas livros e pichações a muros. No decorrer dos atos, distribuíam boletins poéticos em faculdades, portas de teatro, bares e cinema. O período era o final da ditadura e da censura e, por isso, os atos em busca de voz e autonomia. Não queriam ficar presos a regras e fórmulas impostas pela universidade ou sociedade e agiam de forma independente. Eles defendiam uma produção “direta, clara e sem normas para a criação”, diz Raul. Pelo País, outros grupos se formaram com o mesmo intuito. Em meio às memórias, lembram-se com felicidade daquela época. “Tínhamos o brilho no olhar”, diz Inês. Ela entende ser difícil o surgimento de novos movimentos como o Picaré, mas espera inspirar, assim como seus companheiros, com as histórias. “Fazíamos o que gostávamos. O que nos dava prazer. Lembro das vezes na praia em que sentávamos para contar poesia e minha mãe descia com chá-mate para todos. Era um incentivo”. [[legacy_image_71083]]