[[legacy_image_280732]] Vou tentar da sequência aqui a um viés do futebol que ficou exposto nas linhas que escrevi semana passada. O surrealismo, esse traço do futebol brasileiro, mas não só dele. Digamos que nós nos especializamos em potencializar essa qualidade. Se qualidade fosse o termo adequado. Tá longe de ser. Muito se fez para que o jogo de bola e seus meandros fossem aprimorados. Falamos da questão do técnico não licenciado que acaba trabalhando porque alguém assinou por ele. Ou o impedimento de que menores de idade sejam comprados por clubes estrangeiros fazendo assim nascer o que chamei de compra de jogador sem pronta entrega. Há também coisas que fariam bem ao jogo de bola mas que ficaram pelo caminho, ao estilo das leis que não pegam. Coisa nossa, muito nossa. Acho que tirar de alguém a possibilidade de exercer o ofício é algo muito grave. E imagino que qualquer juiz de Direito convocado a julgar uma questão dessas ficaria do lado do atleta. Por mais que seja exercício de alto risco apostar como vai se declarar um juiz. De qualquer modo, o futebol não tolera decisões da Justiça comum. E os jogadores, cientes disso e do poder estabelecido, jamais irão comprar essa briga. Enfim, fez-se a espuma a respeito. Disseram que ia acabar esse negócio de jogador emprestado não poder atuar contra o clube que segue sendo seu dono. Mas veio aquele drible que sempre se dá e a coisa segue. Enquanto no futebol europeu, em torneios de peso, cansamos de ver atletas emprestados desfilando talento contra o clube que lhe tem os direitos. E está aí outro bom tema. Na semana passada falamos também sobre a venda do garoto Pedrinho, atacante corintiano. Dias depois vi o presidente do clube que o vendeu ser questionado a respeito do valor da transação. Teria sido feita com cifras modestas demais. Eis que o mandatário abre um discreto sorriso, aquele de quem só espera a conclusão do questionamento, pois tem na manga uma carta. Uma vez com a palavra, disse o óbvio. Que o valor que andava temperando manchetes só dizia respeito a 50% dos direitos, e que a outra parte seguiria com o clube. Lógico que não falou que mesmo dobrando o valor da venda o preço seguiria soando um tanto módico. Há quase dez anos o tema temperou manchetes também. Dizia a Fifa que iria acabar com esse negócio de direitos fatiados. Que não se permitiria mais terceiros envolvidos em transações de jogadores. Na época ficamos sabendo que 75% dos 800 atletas dos clubes grandes tinham os direitos fatiados. O Palmeiras era o clube que se apresentou mais soberano, detendo a totalidade dos direitos de pouco mais de 43% do elenco. Tenho visto ao longo dos tempos essa realidade ser justificada como o caminho encontrado para que os clubes conseguissem manter jogadores acima da média. Na ausência de dinheiro, se dá a eles algum e se complementa o negócio lhes dando parte do próprio direito. Foi a saída. Um mapeamento minucioso desses detentores iria elucidar quem são os verdadeiros donos do negócio. Ou melhor dizendo, os grandes parceiros dos donos. Isso me faz lembrar do que a gente costuma escutar na padaria quando vai fazer a trivial compra pra um lanchinho: vai levar inteiro, ou vai fatiar?