(Reprodução/X) A Copa, não tenho dúvida, e já disse, serve pra colocar certas coisas no lugar. No meio dela só uma coisa me assombra: a volta à realidade do futebol brasileiro. Temor que lembro bem ter cultivado em momentos similares de outrora. Não bastasse a qualidade duvidosa de muitos jogos, tem a arbitragem. O VAR. Mas não quero minar a diversão de ninguém. Por falar nele, todo o reconhecimento ao que conseguiu o Paraguai, que pelo jogo que fez na estreia me deu a impressão de nem estar muito a fim de encarar o Mundial. Ou de não ter entendido o que ele significava. Digo isso porque o gol anulado feito pelo zagueiro alemão Jonathan Tah, que bem poderia ter classificado a Alemanha, soou como um erro que, pensando bem, atentou contra os alemães e contra quem ainda insiste, uma vez estando em campo, em jogar bola e não se ocupar de não deixar que outros joguem. Juro que não vi a falta no goleiro que embasou a anulação. Sei que a onda agora é conseguir parar a remada forte dos noruegueses, mas antes de versar sobre os nórdicos gostaria de falar sobre os orientais que dias atrás estiveram no nosso caminho. E aí volto ao mote do início. Porque se a vitória diante do Japão nos mostrou que em matéria de bola ainda temos alguns recursos que soam raros para certos adversários, eles por outro lado, se bem observados, podem nos ensinar muito. Achei o máximo ficar sabendo que o projeto para o futebol japonês prevê a conquista de uma Copa até o ano de 2050. A paciência é uma virtude imensa. E isso, o planejamento, e não o resultado em si, deveria virar um mandamento para os dirigentes brasileiros que torraram praticamente todo o último ciclo entre uma Copa e outra pensando no próprio umbigo e contratando treinadores como quem só quer tirar uma batata quente da mão. Condenando a torcida brasileira neste momento a torcer para que o medalhão Carlo Ancelotti, com toda a sua estrada, se faça o guru que nos guiará por algum atalho que leve até o mais cobiçado dos canecos. Dirão os entusiasmados que esse revirar o passado está sendo feito fora de hora. Coisa tão difícil de saber que no Equador – e no Paraguai posteriormente – acabaram decretando feriado depois de um jogo. Entendo que políticos não possam jamais deixar uma bola pingando na área. Se a moda pega, os franceses talvez não voltem a trabalhar. Não sei, algo me diz que esses presidentes sul-americanos, se fossem centroavantes, temo, acabariam acusados de ter perdido totalmente o tempo de bola. Ainda acho que, pra nação, feriados fazem mais sentido em dias de jogos e não depois deles. E, além do mais, anda meio na cara que foi-se o tempo em que a política era farta de craques. A maldição dos perebas nesse campo me dá a impressão de ser uma epidemia mundial. Mas voltando aqui pra nossa casinha, seja qual for o desfecho do encontro que o Brasil tem marcado com os noruegueses em vindouro domingo, é bom não esquecer que triunfos do tipo, ainda mais os que acabam nos deixando com a taça na mão, sempre tiveram o poder de sugerir de maneira convincente de que a partir dali nada mais seria como antes. Mas não tarda e os nossos meninos bons de bola continuam se despendido de suas paragens, os dirigentes se distraem com seus afazeres, ou tentando se livrar de algum pecado, e o futebol brasileiro volta a procurar o caminho que perdeu. E que fazia dele algo respeitável, belo, raro, recriando a mágica que dava à camisa amarela um peso mais difícil para os outros suportarem do que pra quem a veste. Tudo enquanto os japoneses, com seus passos estudados, sua determinação e sua devoção pelo coletivo, vão caminhando sem retroceder, e assim quem sabe acabem chegando em 2050 bem antes de nós.