(Raul Baretta/Santos FC) Eis que a Série B estava começando quando me pus a conversar com um amigo santista sobre o Peixe. Naquele momento, a campanha do Santos no Campeonato Paulista deveria servir para abrandar o pessimismo. Mas estava longe de produzir esse efeito. O futuro se apresentava como uma grande interrogação. Estavam os santistas todos perdidos na aridez da segunda divisão. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O amigo, homem de televisão, editor de imagens dos bons, sempre tratou as coisas do futebol com passionalidade. Foi fazendo juízo do elenco, dizendo o que achava de cada um. Mas quando a conversa desaguou no camisa 9 Julio Furch, a discordância passou a dar o tom. E começou quando eu disse ter simpatia pelo atacante apelidado El Emperador, que eu considerava brigador e, portanto, sob medida para o campeonato que estava pra começar. Meio sorrindo, meio desafiador, aquele que divergia de mim passou a elencar com entusiasmo tudo o que ele considerava desabonar o atacante. Temo que movido pelo desgosto de estar alijado da elite do esporte bretão. Tentei elegantemente mostrar que mesmo que ele não fosse um Serginho Chulapa, seria de grande utilidade para o time. Nunca fui do tipo que tenta convencer ninguém, coisa muito comum no meio em que transito. Compreendo que avaliações do tipo carregam muito do gosto pessoal, mas também sou levado a crer que é preciso ter um mínimo de parâmetros para estabelecer se um jogador dá ou não dá caldo. Para minha surpresa, mais confiante do que nunca na retórica que ia construindo, o amigo propôs uma aposta. Fiz de conta que não tinha ouvido, tratei de deixar no ar a impressão de que não tinha entendido. Mas ele insistiu ainda mais veementemente e bradou que se Furch fizesse mais do que três gols no torneio, ele me dava uma garrafa de uísque. Vejam vocês. E ele, talvez, seja um sujeito tão pouco íntimo de apostas quanto eu. Bom, tratei de brincar dizendo que se ele queria me dar uma garrafa de uísque, eu a aceitaria de bom grado. Aí ele, rindo, reiterou: o cara é grosso, não faz, mais do que três não faz. Movido mais pela amizade do que pela possibilidade de me dar bem, o fiz notar que seriam longas 38 rodadas. Era muita descrença. Já tinha entendido que o camisa 9 não lhe inspirava a mínima confiança, mas a proposta seguia sendo descabida. O que seu sei é que, no fim de mais algumas risadas e cornetadas, a aposta tinha sido aceita. Furch teve seus desafios durante a temporada. Ainda no Paulista lidava com uma lesão. Ficou afastado. Viu Wendell chegar e tomar um espaço que era dele. Amarga o maior jejum desde que passou a vestir o manto santista. E chega à ultima rodada da Série B com apenas três gols marcados. O que tem sido motivo de muito sarro, vocês podem imaginar. Eu já aceitei o fato de que tenho uma garrafa de uísque pra pagar. Nessa história, estou mais de Carille - que confiou no camisa 9 como pôde - e menos como a direção santista, que pelo que tem sido noticiado não conta com Furch para a temporada do ano que vem. Mas ainda não estou convencido de que apostei mal. Foram as circunstâncias. Disputasse o Santos mais dez temporadas da Série B com Furch, ele daria conta da marca que me faria um vencedor em nove. Quem sabe ele não me vinga nessa rodada derradeira. Seria engraçado. O que me consola é que isso tudo tem servido pra eu lembrar muito de uma lição que aprendi com meu pai. E ele, por sua vez, com o pai dele. A lição é a seguinte: "filho, teima, mas não aposta".