(Fernando Torres/CBF) Hoje tomo a liberdade de dar uma escanteada no futebol, desde sempre tão hegemônico no nosso universo esportivo. Não sem citar que esse “desde sempre” tem um quê de licença poética, já que só os mais atentos ao desenrolar da história talvez lembrem, ou saibam, que houve sim um tempo em que as páginas esportivas não eram dominadas pelo dito jogo de bola, e sim pelo turfe. Isso foi lá nos idos do fim do século 19 e começo do 20. Portanto, antes de tantos outros acontecimentos ajudarem a desenhar tudo o que temos testemunhado ao longo do último século. Entre eles, o fato de Charles Muller ter tido a ideia de colocar uma bola na bagagem quando certa vez retornava ao Brasil. E vejam vocês como o mundo dá voltas. O futebol veio tomar o lugar justamente de um esporte tão íntimo de apostas. Já dizia um ditado que ouvi pela primeira vez quando garoto: quem tem fama deita na cama. E controlem seus instintos, porque cama nesse contexto nada tem de alcova. Era só um jeito direto de dizer que, para os famosos, tudo costuma se dar mais facilmente. E isso não deixa de ser uma realidade para o futebol brasileiro hoje em dia. Não há como duvidar de que ele tem mesmo vivido da fama. Lá se vão bem mais de duas décadas sem uma Copa. E arrisco dizer: apesar da boa atuação contra a Croácia na terça, terá de trabalhar muito para voltar a ser respeitado pelos adversários como foi um dia. Mas, seja como for, continuará sendo tratado como uma vedete por tudo o que representa e, mais do que isso, por tudo o que movimenta. Feita essa introdução, vou chegar onde quero. Enquanto o nosso futebol recrudescia, vimos outras modalidades evoluírem de maneira espetacular sem jamais gozar do prestígio merecido. E nem vou citar aqui o fato de termos sido brindados com Gustavo Kuerten tri em Roland Garros, porque naquele momento o futebol ainda estava para nos dar um título mundial. O que não me impede de dizer que ter tido um brasileiro como maior tenista do mundo, com direito a derrotar lendas como Agassi e Sampras, segue sendo, para mim, se não a mais grandiosa, a mais surpreendente página da história esportiva do nosso país desde o tri no México. No mais, para embasar o que digo aqui, apelo para outras duas modalidades que pratiquei e, quando o fôlego permite, ainda pratico, e que alcançaram, nessa lacuna de tempo, uma excelência que o nosso futebol passou a dever. Uma delas é o vôlei, de tanta tradição na cidade de Santos, que tive a felicidade de ver disparar rumo ao apogeu e dominar o mundo de uma maneira que a meninada do clube onde a gente treinava jamais sonhou que veria, naquele tempo em que a União Soviética — de Savin e companhia — parecia estar a anos-luz de nós. Outra modalidade é o surfe, que também vi se tornar cada vez mais profissional e competitivo e que, neste ano, terá, pela primeira vez na história, um número de atletas maior do que a Austrália na elite. E só quem sabe o que a Austrália significa nesse universo terá uma boa noção do que isso representa. Mas, de tão à frente dos outros, o surfe brasileiro oferece hoje muitos argumentos para justificar seu protagonismo na cena planetária. Dos 11 últimos títulos mundiais, oito foram vencidos por brasileiros. Dos últimos cinco, ficamos com quatro. O único que perdemos foi para um havaiano talentosíssimo — o que também carrega grande simbolismo. E teremos, na temporada que começou oficialmente ontem, quatro campeões mundiais brigando pelo título. Algo que jamais havia acontecido. Não quero, com isso, contestar a alcunha do Brasil como país do futebol, ainda que ela soe cada vez mais abstrata. Só quero jogar um pouco de luz sobre quem tem feito mais por merecer. E ajudar a tornar evidente que, se os brasileiros hoje, em matéria de futebol, têm tudo para ouvir gracinhas, dentro da água seguem com motivos de sobra para tirar onda.