Guardiola coloca Rodri como favorito na disputa pelo prêmio da Bola de Ouro (Divulgação/Manchester City) Talvez ele seja o maior personagem da história recente do futebol. E lógico que faço a afirmação sem esquecer de figuras que certamente seguirão sendo lembradas por muito tempo e que até poderiam rivalizar com o sujeito que irei fazer tema central destas linhas. Mas, por hora, esqueça Messi, Cristiano Ronaldo. Vamos tratar de alguém cuja contribuição soa estar muito além do talento do campo. Envolve postura, representação, vanguarda. Pep Guardiola está por trás de boa parte dos times que nos últimos anos andaram encantando os apaixonados por futebol. Lembro bem do que me perguntei muitas vezes em segredo ao vê-lo aceitar o desafio de treinar um time na Premier League. E o que me perguntava era: será que o cara vai mesmo conseguir triunfar na Liga reconhecida como a de maior excelência no mundo? E aí é preciso lembrar a posição modesta que o Manchester City ocupava na ocasião, apesar da dinheirama que já o cercava. Seja como for, o cara não deixou dúvida a respeito. Ao anunciar a saída do clube no fim da semana passada, tinha no currículo nada menos do que seis títulos do Campeonato Inglês. Divididos de maneira nobre. Um bi e um tetra campeonato. Neste meio tempo, saiu da condição de homem que pensou e comandou um Barcelona que parecia nascido de um sonho pra se ver em dado momento cobrado por torcedores como se fosse um comum. E se a imagem dele como um treinador consagrado na principal liga do planeta não deveria nos surpreender, vê-lo em determinado momento bater boca com um torcedor que lhe cobrava pela fase questionável que o clube dele atravessava foi algo que considerava, confesso, pouco provável. O imaginava acima das coisas mundanas que costumam cercar o jogo de bola. Inocentemente, imaginei que estaria pra nascer torcedor capaz de, quase olho no olho, criticar Guardiola. A cornetagem, como a ignorância, não tem limites, mas a paciência do nosso personagem tem. E, para além de como ele andou tratando e pensando o futebol, gostei de ver um Guardiola já consagrado dizer quando saiu do Barcelona que iria se impor um ano sabático. Algo que parece pouco complexo de se executar, mas que costuma ser raro porque treinadores demitidos e com boa reputação costumam se recolocar no mercado de trabalho de modo a dar inveja até aos mais bem preparados executivos que existem por aí. Mas fazer dinheiro não era o caso. Como ainda não parece ser. Poderia ter ficado no City, tinha ainda um ano de contrato. E ele se foi com os pés no chão, dizendo estar ciente da necessidade que o ofício impõe de vencer. Sabe que se passou dez anos no clube em que estava foi porque se sagrou campeão 20 vezes. Do contrário, disse Guardiola com todas as letras, teria sido demitido. Tenho curiosidade de saber como, a partir de agora, esse catalão irá encaminhar a carreira. O que será que ainda pode desafiá-lo? Em matéria de futebol, o que será que lhe falta? Guardiola não esconde que quer dirigir uma seleção. E isso me lembra, como talvez queiram lembrar alguns, que nem sempre Guardiola acertou. Prova disso é ter dito tempos atrás que o técnico da seleção brasileira seria sempre um brasileiro. Ancelotti aí está colocando por terra a teoria defendida por Pep naquele instante. Não digo que a CBF tenha errado ao renovar o contrato com o italiano, mas parece claro, por tudo que Guardiola andou dizendo, que essa tal assinatura borra uma possibilidade que poderia fazer bem ao nosso futebol. Três anos atrás, apontado como o principal pilar do Manchester City, Guardiola disse com todas as letras que não tinha inventado o futebol, que o jogo pertencia aos jogadores. Que não inventou é fato, como parece ser fato também que o fez soar de maneira singular.