[[legacy_image_269657]] Um velho amigo de redação gostava de dizer que em matéria de análises de arbitragem estaríamos sempre sob suspeita, pois começávamos a falar mal do juiz bem antes de o jogo começar. A bola nem tinha rolado e já estavam todos colocando em dúvida a idoneidade do homem. Essa má vontade premeditada, segundo ele, contaminava a crônica, o jogo, e colocava tudo a perder. Criava um ambiente daninho. Uma desconfiança que pode estar ligada à dúvida sobre a lisura do próprio jogo de que tratei aqui no artigo anterior. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Enfim, o velho amigo anda por aí de olho no jogo de bola. Mas creio que jamais imaginou que as questões de arbitragem tomariam um dia o vulto que tomaram. Se por um lado parece não existir nada de novo nesse descontentamento com os homens do apito, por outro é evidente que a coisa anda tomando um tamanho que nunca teve. Prova disso foi termos visto o fim da Central do Apito. O que num primeiro momento até pode ter soado como algo normal ou ter parecido apenas um detalhe no meio de toda a gritaria. Não deveria ser. Mas parece óbvio que se ela se foi, o nosso olhar, de certo modo, teima em se debruçar sobre esse tipo de questão. Não que o nosso olhar seja o verdadeiro vilão da história. Há obviamente uma montanha de decisões escabrosas sendo tomadas pelos árbitros que, rodada a após rodada, são jogados na fritura dos debates futebolísticos. Vivem todos eles, como tantos outros trabalhadores, as transformações do ofício. E escrevo isso porque acaba de me chegar aqui uma outra recordação dos dias passados em redações. Certa vez, diante de um escarcéu qualquer envolvendo uma decisão de arbitragem alguém fez questão de chamar a atenção para toda a parafernália que andava sendo posta em cima deles e que, provavelmente, andavam fazendo o ofício mais desafiador do que já era. Tinha ficado para trás o tempo em que o árbitro entrava em campo com o apito e nada mais. A não ser a bola que se encarregaria de colocar no meio do campo antes de fazer soar o apito. Mas aí vieram os cartões, o spray de espuma, o sistema de comunicação. Gostaria muito de acreditar que a profissionalização dos árbitros um dia irá nos salvar de tudo isso. Mas acho a afirmação tão ingênua quanto acreditar que profissionais possam vir a perder o mais humano dos traços: o que o faz errar, ser falível. Para ser cruel, vos digo que se fosse assim os jogadores, que já são profissionais há tempos, ganham milhões e podem muito bem passar o dia inteiro se aprimorando, não estariam entre as quatro linhas protagonizando as jogadas bizarras com que vira e mexe nos brindam. Mas o que deixo aqui é só uma interpretação do que ando vendo. E a interpretação – vocês bem sabem – tem sido justamente o nascedouro de toda essa fogueira que tem chamuscado reputações. Mais cruéis do que eu nas observações só aqueles que, com um sorriso cínico no canto da boca, insistem em repetir infinitamente que se tudo anda assim é porque o futebol não anda dando conta do recado. E realmente em matéria de apelo, as questões envolvendo a arbitragem andam dando muito mais caldo do que a maioria das partidas que andamos testemunhando. E aí, mesmo sendo um devoto da magia do jogo, não me sinto tão convencido de que realmente não é bem assim. Mas os outros que decidam porque, afinal, não sou nem quero ser juiz de nada.